Resenha Crítica | Uma Nova Amiga (2014)

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Uma Nova Amiga | Une nouvelle amie

Une nouvelle amie, de François Ozon

Um dos cineastas franceses mais ativos do cinema contemporâneo, François Ozon consegue estabelecer uma média de uma produção por ano – em 2013, o Brasil recebeu “Dentro de Casa” e “Jovem & Bela”. Além da regularidade, impressiona a sua ousadia em circular por temas e gêneros com muita propriedade, preenchendo com vigor projetos que poderiam muito bem ser conduzidos no automático. Ainda assim, é inevitável não identificar em uma filmografia vasta alguns momentos menos inspirados, especialmente em casos como o de Ozon, que costuma trabalhar uma nova história assim que lança o seu filme mais recente.

No excelente prólogo de “Uma Nova Amiga”, acompanhamos todas as fases da amizade entre Claire (Anaïs Demoustier) e Laura (Isild Le Besco), da infância até a idade madura. De certo modo, é possível deduzir que Claire sempre se sentiu um pouco inferiorizada diante de Laura, pois sempre é a última a alcançar os seus objetivos, especialmente no campo amoroso. Laura é a primeira a se casar, tendo como parceiro David (Romain Duris), enquanto Claire parece se comprometer com Gilles (Raphaël Personnaz) mais por conveniência do que por amor.

São duas amigas que prometiam um curso previsível de vida, se não fosse uma doença que resumisse a existência de Laura, pouco tempo após dar à luz. Devota à Laura, Claire promete que cuidará tanto do bebê quanto de David. Mas eis que o viúvo é surpreendido por ela não apenas vestindo as roupas de Laura, como também usando a sua maquiagem. David tenta se explicar: ele sempre teve uma mulher interior, aprisionada pelo matrimônio e agora clamando por liberdade. Mesmo com o susto, Claire compreende  que deixar Virginia, a versão feminina, à solta seja o melhor meio de administrar o luto, tanto o de David quanto o seu.

Falecida em 2 de maio deste ano, a escritora Ruth Rendell inspirou Pedro Almodóvar em “Carne Trêmula”. Embora Ozon seja também um cineasta com produções que valorizam a diversidade de cores (“8 Mulheres”, “Potiche – Esposa Troféu“), em “Uma Nova Amiga” há muitos elementos que remetem ao cinema do realizador espanhol. Não somente as tintas, como também as relações e o modo progressivo como David deixa Virginia sucumbi-lo, uma transição comum em personagens almodovarianos. O desapontamento se concentra no uso que faz de Claire diante da aceitação das diferenças de David e o quanto abraçá-las é importante para que ele volte a se apresentar à sociedade, mas como Virginia. Os desdobramentos deste processo são esquemáticos, até mesmo em tomadas mais atrevidas, e nos faz questionar se Ozon estava realmente em sua melhor forma ao conceber “Uma Nova Amiga”.

Resenha Crítica | Cine_Monstro, de Daniel MacIvor

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Cine_Monstro

Direção de Enrique Diaz

Dramaturgo canadense nascido em 1962, Daniel MacIvor privilegia um texto solo que abarca poucos elementos cenográficos. Na adaptação em português de “Cine_Monstro”, o seu ator e intérprete Enrique Diaz assume o palco ocupado somente com três paredes de madeira que projetam uma série de imagens que representam contextos vividos por cada um dos treze personagens que incorpora, bem como uma cadeira, uma mesa preenchida por taças e copos e um triciclo.

A aproximação do espetáculo com a linguagem cinematográfica reflete diretamente o currículo de Daniel MacIvor, que soma vários créditos como diretor, roteirista e ator. É de sua autoria, por exemplo, o texto de “Trigger”, produção ainda inédita no Brasil com Molly Parker e Tracy Wright como protagonistas.

Recém-saído do sucesso de “Felizes Para Sempre?”, minissérie transmitida no início deste ano na Rede Globo, Enrique Diaz retorna com “Cine_Mostro” com uma temporada no Sesc Santo André após passagens bem-sucedidas em vários pontos do país. Diaz segue em pleno domínio do texto, se permitindo a dialogar com a plateia antes de introduzi-lo ao clima sinistro de “Cine_Monstro”, que representa o fechamento de uma trilogia formada pelas adaptações de outros dois textos de MacIvor, “In on It” e “A Primeira Vista”.

Não linear, o monólogo é centrado em um crime perverso de um jovem que esquarteja o próprio pai. No entanto, o protagonista é um homem amargo que a todo o instante se desvia das investidas de sua namorada. Diante de algumas DRs hilárias, é construída uma história que também relata traumas do passado, personagens secundários importantes para a resolução e até mesmo as consequências de um indivíduo que aspira trabalhar com cinema e o seu processo de construção artística questionável.

Com a duração aproximada de um longa-metragem, “Cine_Monstro” é ideal para o espectador que visualiza o humor negro como uma ferramenta para discutir sobre a nossa natureza ou mesmo a brutalidade absurda que cerca cotidianos aparentemente banais. É de fato desconcertante, mas embarcar na insanidade de MacIvor e Diaz rende uma experiência gratificante, despertando o interesse em revisitar o espetáculo.

A temporada no Sesc Santo André encerra neste fim de semana. Os interessados pelo texto de David MacIvor também têm como opção um livro em versão bilíngue publicado pela Editora Cobogó.

O humor politicamente incorreto na ensolarada Filadélfia

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It's Always Sunny in Philadelphia

Sempre tive uma tendência em proteger os fracos e oprimidos. Quando não é contra o Corinthians, prefiro os times mais fracos. Luto pelas causas perdidas. Opto pelo underground em detrimento do mainstream. Prefiro mais apostar no azarão.

Partindo desse principio, gostaria de comentar um seriado que vejo a algum tempo, poucas pessoas sabem que vejo e quando conto sequer sabem que essa série existe: “It’s Always Sunny in Philadelphia”.

Pra quem não tem noção do que estou falando, essa é uma série de humor, de vinte e poucos minutos, sem claque, baseada na… Filadélfia. Estrelada por Rob McElhenney (criador), Charlie Day, Glenn Howerton, Kaitlin Olson e, a partir da segunda temporada, Danny DeVito, tem como enredo um grupo de amigos cuja missão é administrar um bar irlandês.

Seria fácil e enfadonho, senão pelo fato deles serem uma espécie de anti-heróis, asquerosos, sempre em busca de tirar vantagens por meios politicamente incorretos.

Tentativas de golpes, tráfico, sexo, abuso de drogas e álcool, piadas com estereótipos de minorias ou humor negro são temas corriqueiros dessa série que está em sua… décima temporada! E, ao menos no Brasil, é quase desconhecida – e creio que em qualquer outro lugar fora dos Estados Unidos.

E isso é bom, tendo em vista que um seriado que usa de um humor tão ácido como essa tem que agir meio na surdina. Ou talvez a surdina seja uma consequência do seu humor – que até para os fãs pode ser intragável às vezes.

Porém, sempre há uma espécie de moral da história intrínseca, haja visto ser raro eles se darem bem em suas empreitadas. O que, apesar do humor politicamente incorreto, mostra que eles não pregam isso. Pelo contrário, tocam no assunto e tiram sarro deles mesmos.

Bom para assistir com cerveja gelada.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

Os 10 Melhores Filmes de 2014

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Veja bem. Em 2014, o top 10 dos melhores do ano saiu no dia 1º de junho. Desta vez, conseguimos publicá-lo ao final do mês de abril. Um avanço, não é mesmo? Quem sabe em 2016 teremos uma lista divulgada no início de março ou, numa perspectiva mais positiva, final de fevereiro?

Criar listas é um processo desgastante. É preciso se dedicar em diagramação da postagem, nas posições para cada título, nas alterações e em revisões. Mas é também gratificante. É legal pensar na produção ou reprodução dos comentários que vão justificar as suas escolhas. Também é emocionante lembrar dos grandes momentos presentes em cada filme. Mais: em um top 10 de melhores do ano, a sensação é de que o ponto final foi dado. Vamos agora desfrutar o que o cinema vai nos apresentar ainda este ano. Que sejamos surpreendidos.

Cães Errantes | Jiao you

#10. Cães Errantes, de Tsai Ming Liang

De certo modo, a experiência de se ver “Cães Errantes” é a mesma que mergulhar em uma galeria de imagens de um artista anônimo. O desconforto inicial é paulatinamente substituído por um sentimento de fascínio quando finalmente contemplamos as mesmas imagens com um olhar já amadurecido. Trata-se de algo oferecido por Tsai Ming Liang ao longo de “Cães Errantes”: a mesma pintura visualizada por uma personagem no meio da narrativa representa a nós mesmos quando mostrada pela segunda vez em uma conclusão fenomenal. +

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Philomena

#9. Philomena, de Stephen Frears

Tudo indicava que Stephen Frears não conseguiria oferecer outro grande momento como diretor depois do close em Michelle Pfeiffer que encerra “Chéri“, uma emulação evidente da conclusão de “Ligações Perigosas”, ainda dada por muitos como sua obra-prima. Depois de não dar o melhor de si no apenas bom “O Retorno de Tamara” e de alcançar o fundo do poço com “O Dobro ou Nada“, Frears consegue provar o ótimo cineasta que é ao presentar o público com um close devastador nos belos olhos azuis de Judi Dench nos momentos finais de “Philomena”. A boa notícia é que este não é o único trunfo de sua nova realização. +

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O Lobo de Wall Street | The Wolf of Wall Street

#8. O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

Para o bem ou para o mal, Scorsese se deixa envolver pela inconsequência de Jordan. Não é algo que contamina a sua técnica única, mas o modo como exibe o freak show em que seu protagonista é o host. Portanto, a frequência com que notas de 100 dólares são descartadas não é a a única extravagância que “O Lobo de Wall Street” se permite. Salões de orgias e consumo de drogas são alguns dos principais ambientes explorados e o humor alterna-se entre a misoginia e o cartunesco. +

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Ninfomaníaca - Versão do Diretor | Nymphomaniac - Director's Cut

#7. Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2, de Lars von Trier

É quando finalmente Joe se aproxima do episódio em que Seligman a encontra abandonada e ferida no beco que abre “Ninfomaníaca: Volume 1″ que os relatos de Joe são devidamente validados. Os impulsos sexuais da protagonista são uma alegoria para os instintos mais primitivos que não aprendemos a reprimir, algo que garante conexão imediata com as abordagens trabalhadas nos títulos prévios do cineasta, como “Dogville” e “Manderlay”. Não se deixe enganar pela sensação de otimismo que promete se manifestar no encerramento de “Ninfomaníaca: Volume 2″. Não há nada que modifique a descrença de Lars von Trier na humanidade. +

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Sob-a-Pele-Under-the-Skin

#6. Sob a Pele, de Jonathan Glazer

Tendo como alvo principal indivíduos à margem da sociedade, era evidente o comentário que Michel Faber pretendia fazer em “Sob a Pele”, principalmente por se ater mais às interações de Isserley com esses homens tão ingênuos quanto ameaçadores. Na adaptação para cinema dirigida por Jonathan Glazer, poucos dos elementos reconhecíveis no romance de Faber se manteram. Melhor assim, pois, como filme, “Sob a Pele” se livra das amarras para fazer uma investigação extremamente sensorial das contradições humanas. +

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O Lobo Atrás da Porta

#5. O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

Ainda que o leque de possibilidades sendo ampliado a cada ano no cinema nacional, o thriller ainda é um gênero estranho em nossa cinematografia recente. “O Lobo Atrás da Porta” presta uma colaboração imensurável a ele através de uma narrativa mantida com uma ferocidade que precisa se manifestar progressivamente. O resultado é visto no empenho de um elenco cercado de intérpretes em seus melhores momentos e em uma condução de planos sem cortes que respeita o perigo presente nas interações dos personagens. Em um ano que contou com a exibição de 102 longas nacionais, “O Lobo Atrás da Porta” é de longe o melhor. +

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 O Passado | Le Passé

#4. O Passado, de Asghar Farhadi 

Independente do cenário um tanto opressor que habitam, os personagens de Asghar Farhadi sobrevivem em nosso imaginário por lidarem com questões universais, como a fragilidade de homens na posição equivocada de autoridade e as dificuldades das mulheres em se sobressaírem diante das convenções do lar. Esses são apenas alguns dos temas que permeiam “O Passado”, talvez o filme mais completo já realizado por Asghar Farhadi. +

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Uma Vida Comum | Still Life

#3. Uma Vida Comum, de Uberto Pasolini

Sobrinho do mestre italiano Luchino Visconti, Uberto Pasolini comprova neste seu mais novo trabalho que a sua sensibilidade é hereditária. Conceber uma obra com uma história sobre as emoções que permeiam a vida e a morte requer um artista que tenha uma experiência muito ampla com as relações humanas e a solidão. É notável a sua capacidade de captar tantas informações diante de tão pouco. Cada fotografia ou cômodo que sua câmera observa traz a história de uma existência interrompida e a troca do luto pela rejeição deixa o seu registro ainda mais melancólico. +

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O Grande Hotel Budapeste | The Grand Budapest Hotel

#2. O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

Por trás das gags visuais esplendorosas e os desdobramentos planejados com uma astúcia singular, há no âmago de “O Grande Hotel Budapeste” uma representação muito especial sobre uma necessidade inerente a qualquer indivíduo: a preservação da memória. Ao testemunhar perdas ou naturais ou promovidas pela desgraça humana em tempos de guerra, Zero encontra na curiosidade de um escritor o vínculo com uma geração posterior para possibilitar que os mesmos erros de seu passado não sejam reprisados. Na ficção, seu objetivo é alcançado através da literatura. Do “lado de cá”, a meta se materializa como um dos melhores filmes do ano. +

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Nebraska#1. Nebraska, de Alexander Payne

O coração de “Nebraska” está mesmo no relacionamento de pai e filho entre Woody e David. É habitual testemunhar em histórias como esta a figura paternal disposta aos maiores sacrifícios para compensar uma existência marcada por erros e ausências. O que se vê em “Nebraska” é o oposto, pois é David que tem a iniciativa, mesmo que tardia, de restabelecer uma ligação perdida. É um momento em que o fim como certeza de uma existência finalmente é claro para David e que o melhor a ser feito é esquecer as agruras do passado e dar o melhor de si para fortalecer as melhores memórias. +

Prêmio Review | Melhores de 2014: Filme

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NebraskaNEBRASKA
(produzido por Albert Berger e Ron Yerxa)

“Nebraska é um filme com tudo no lugar certo: o roteiro é redondo, com diálogos incrivelmente espirituosos; o ritmo prende o interesse do espectador da primeira à última cena; o elenco está tão fantástico que merecia uma premiação coletiva; a fotografia em P&B é um charme; e a direção firme de Payne conjuga todos esses elementos para criar um todo harmonioso.” – Erika Liporaci [Artes & Subversão]

“Longos planos e a opção pelo preto e branco criam o distanciamento do público, mero espectador da jornada, mas não impedem o envolvimento e identificação com os personagens.” – Cecilia Barroso [Cenas de Cinema]

“Um filme belíssimo que resiste ao tempo e cresce de tamanho à medida que nos afastamos dele. Uma das grandes joias do ano nos cinemas brasileiros.” – Reinaldo Glioche [Cineclube]

“Nebraska é um road movie, um olhar crítico e rabugento da terceira idade, um relato sobre comunicação entre gerações e um belo estudo sobre como pais influenciam filhos e vice-versa. Tudo com a devida calma e sutileza, trazendo aquela sensação tão frequentemente errada de que nada está acontecendo.” – Matheus Pannebecker [Cinema e Argumento]

“Nebraska (2013) dá sequência ao tema abordado em Os Descendentes e As Confissões de Schmidt. Será que temos aqui uma trilogia involuntária? Não importa. O que vale é que ninguém conta esse tipo de história no cinema atual tão bem quanto Alexander Payne.” – Otávio Almeida [Hollywoodiano]

“Nebraska se faz belo por um conjunto harmônico de elementos, nada parece fora de lugar. É quando o cinema clássico mais convencional está tão afiado àquilo que se propõe que consegue construir uma trama tão fluida quanto emocional.” – Rafael Carvalho [Moviola Digital]

Outros indicados:Cães Errantes” | “Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2” | “O Grande Hotel Budapeste” | “O Lobo Atrás da Porta” | “O Lobo de Wall Street” | “O Passado” | “Philomena” | “Sob a Pele” | “Uma Vida Comum

Em 2013: A Hora Mais Escura
Em 2012:
O Artista
Em 2011:
Incêndios
Em 2010:Os Homens Que Não Amavam As Mulheres
Em 2009:A Partida
Em 2008: “O Nevoeiro”
Em 2007:Possuídos

Prêmio Review | Melhores de 2014: Direção

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Alexander Payne, por Nebraska

Se a idade fosse um fator que realmente comprometesse  o sucesso de qualquer pessoa em uma transição de estudos ou de carreira profissional, Alexander Payne certamente não teria cursado cinema. Tendo estudado História e Literatura Espanhola na Stanford University, o então jovem Alexander Payne decidiu se arriscar em Cinema na University of California at Los Angeles. Formou-se em 1990, tendo quase 30 anos. A sua tese universitária foi o que o levou a realizar “Ruth em Questão”, então seu primeiro longa-metragem. Já nesta produção protagonizada por Laura Dern foi possível identificar elementos que tornariam Alexander Payne um dos maiores cineastas em atividade: o humor mordaz, a coragem em lidar com temas espinhosos com uma autêntica acessibilidade e a construção de personagens errantes capazes de contar com a nossa simpatia.

Em todos os filmes que dirigiu, Alexander Payne jamais abdicou de sua marca autoral, narrando histórias que têm uma proximidade muito forte com as suas origens.  Não seria diferente em “Nebraska”, filme ambientado no estado americano em que nasceu. Com o apoio do diretor de fotografia Phedon Papamichael (seu parceiro desde “Sideways – Entre Umas e Outras”), Alexander Payne conduz com muito afeto a saga de um filho que acompanha o seu pai em uma viagem para resgatar um prêmio inexistente, sempre evidenciando o tempo como um processo que devasta ou consolida memórias, relacionamentos e ações.

Outros indicados: Asghar Farhadi (O Passado) | Jonathan Glazer (Sob a Pele) | Tsai Ming-liang (Cães Errantes) | Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)

Em 2013: Alfonso Cuarón, por “Gravidade
Em 2012:
Michel Hazanavicius, por “O Artista
Em 2011: Denis Villeneuve, por “Incêndios
Em 2010:
Roman Polanski, por “O Escritor Fantasma
Em 2009: Yôjirô Takita, por “A Partida
Em 2008: Joe Wright, por “Desejo e Reparação”
Em 2007: William Friedkin, por “Possuídos

Prêmio Review | Melhores de 2014: Ator

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Eddie Marsan em Uma Vida Comum

Eddie Marsan, por “Uma Vida Comum

Você sabe que está diante de um grande ator quando o vê incorporando com maestria personagens extremamente opostos. Em 2009, elegemos o britânico Eddie Marsan como o Melhor Ator Coadjuvante por “Simplesmente Feliz”, em que vive um instrutor de autoescola em estado permanente de estresse. Dois anos depois, Eddie Marsan esteve em “Tiranossauro” incorporando um marido agressivo. Eis dois personagens que marcam pelos seus perfis extremamente negativos, mas que nunca impedem que o espectador crie alguns laços de empatia, ainda que o James de “Tiranossauro” seja um homem de um caráter indefensável.

É comovente ver Eddie Marsan em “Uma Vida Comum”, pois o seu John May é um sujeito solitário extremamente cordial. Há mais de 20 anos atuando em uma repartição pública que dá um destino a corpos sem vida de anônimos abandonados à própria sorte, John nunca desiste de dar uma cerimônia digna de despedida para cada uma dessas pessoas, talvez por já aceitar que está caminhando para um destino em que também será esquecido. É um desempenho maravilhoso e que se permite a ganhar novas cores conforme o personagem se abre a novas possibilidades.

Outros indicados: Ali Mosaffa (O Passado) |  Geoffrey Rush (O Melhor Lance) | Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste) | Steve Coogan (Philomena)

Em 2013: John Hawkes, por “As Sessões
Em 2012:
Jean Dujardin, por “O Artista
Em 2011:
Mikael Persbrandt, por “Em Um Mundo Melhor
Em 2010:
Nicolas Cage, por “Vício Frenético
Em 2009: Richard Jenkins, por “O Visitante
Em 2008: Philip Seymour Hoffman, por “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”
Em 2007: Toby Jones, por “Confidencial

Prêmio Review | Melhores de 2014: Atriz

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Emma Thompson em Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Emma Thompson, por Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Uma pena que as produções recentes da Disney preocupadas em desmitificar as suas fábulas não tenham sido abraçadas como o merecido. Se neste ano muitos se mostraram furiosos com o musical “Caminhos da Floresta”, ano passado “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” foi encarado como uma cinebiografia imprecisa quando a sua principal meta era enaltecer a arte como uma ferramenta para reparar o que a vida tratou de dissipar. Ainda mais incompreensível é o fato de Emma Thompson ter sido esnobada no Oscar, cuja penúltima edição rendeu ao filme somente uma menção na categoria de Melhor Trilha Sonora.

Nascida em Paddington, Londres, Emma Thompson é sem dúvida uma das maiores atrizes em atividade. Após estrear nos cinemas com “As Atrapalhadas de um Conquistador”, a veterana teve o seu melhor momento nos anos 1990, obtendo o Oscar de Melhor Atriz por “Retorno a Howards End” e Melhor Roteiro Adaptado por “Razão e Sensibilidade”. Emma continuou brilhando, mas os seus últimos trabalhos indicavam que ela envelheceria confortavelmente em papéis secundários. O papel de P.L. Travers, autora de “Mary Poppins”, veio em um momento certo, trazendo o desafio em revelar a humanidade de uma mulher a princípio amarga e impenetrável. Emma permite a todos se tornarem reféns de seus protestos ao adaptar a sua obra-prima literária e nos emociona ao revelar o propósito em estabelecer tantas barreiras: o desejo em não macular a imagem ficcional como um meio para preservar as qualidades de uma figura real que sucumbiu a um fim trágico.

Outras indicadas: Judi Dench (Philomena) | Leandra Leal (O Lobo Atrás da Porta) | Paulina García (Gloria) | Scarlett Johansson (Sob a Pele)

Em 2013: Jessica Chastain, por “A Hora Mais Escura
Em 2012:
Tilda Swinton, por “Precisamos Falar Sobre o Kevin
Em 2011:
Lubna Azabal, por “Incêndios
Em 2010:
Noomi Rapace, por “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres
Em 2009: Melissa Leo, por “Rio Congelado
Em 2008: Belén Rueda, por “O Orfanato”
Em 2007: Ashley Judd, por “Possuídos

Prêmio Review | Melhores de 2014: Ator Coadjuvante

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Matthew McConaughey em O Lobo de Wall Street

Matthew McConaughey, por “O Lobo de Wall Street”

Matthew McConaughey tinha acabado de sair de “Clube de Compras Dallas” quando rodou a sua breve participação em “O Lobo de Wall Street”. O ator entrou na segunda semana de filmagens e, assim como Uma Thurman em “Ninfomaníaca: Vol. 1″, aproveitou o seu tempo limitado em cena para entregar algo inesquecível. Como a versão ficcional de Mark Hanna, Matthew McConaughey funciona como uma prévia do homem que Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) se transformará, um zé-ninguém que chega ao topo do mundo perdendo o controle sobre tudo que construiu.

A consagração de Matthew McConaughey em 2014 serviu como uma comprovação da verdadeira transformação que esse texano de 44 anos forçou em sua carreira. Ao se recusar em continuar protagonizando as comédias românticas que banalizaram a sua trajetória (e a imagem de galã), McConaughey ficou praticamente um ano sem conseguir um emprego. Eis que veio “O Poder e a Lei” e tudo mudou. O destaque por “O Lobo de Wall Street” vem influenciado também pelo que fez em “Clube de Compras Dallas”, mas o humor que incorpora ao seu Mark Hanna – a batida no peito foi uma espécie de improviso – basta por si só.

Outros indicados: Geoffrey Rush (A Menina que Roubava Livros) | Jared Leto (Clube de Compras Dallas) | Robert Pattinson (The Rover – A Caçada) | Tom Hanks (Walt nos Bastidores de Mary Poppins)

Em 2013: Mikkel Boe Følsgaard, por “O Amante da Rainha
Em 2012:
François Damiens, por “A Delicadeza do Amor
Em 2011: John Hawkes, por “Inverno da Alma
Em 2010:
Pierce Brosnan, por “O Escritor Fantasma
Em 2009: Eddie Marsan, por “Simplesmente Feliz
Em 2008: Javier Bardem, por “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Em 2007:
 Jackie Earle Haley, por “Pecados Íntimos”

Prêmio Review | Melhores de 2014: Atriz Coadjuvante

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Uma Thurman em Ninfomaníaca - Vol. 1

Uma Thurman, por “Ninfomaníaca: Volume 1

Nunca houve dúvidas de que Uma Thurman é uma boa atriz. Nascida em Boston em 1970, Uma Karuna Thurman começou a carreira com o pé direito ao trabalhar com os cineastas Terry Gilliam (“As Aventuras do Barão de Münchausen”) e Philip Kaufman (“Henry & June”), além de viver Cécile de Volanges na adaptação de Stephen Frears para “Ligações Perigosas”, romance do francês Choderlos de Laclos.  Porém, os seus momentos inquestionavelmente brilhantes estão nas parcerias com Quentin Tarantino, diretor que lhe renderia a sua única indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Pulp Fiction” e também o papel de Beatrix Kiddo (vulgo A Noiva), dos dois volumes de “Kill Bill”. Mesmo voltando a ser uma sensação em 2003 e 2004, Uma Thurman mergulhou em um limbo do qual somente o dinamarquês Lars von Trier seria capaz de removê-la.

Com Mrs. H, a atriz assume pela terceira vez um papel recusado por Nicole Kidman e confere um peso inacreditável a uma personagem com uma presença que não toma mais do que dez minutos de “Ninfomaníaca: Vol. 1”. É um dos momentos mais brilhantes do filme, pois há no terceiro capítulo destinado à Mrs. H um humor furioso que somente um autor como Lars von Trier e uma atriz em estado de graça conseguiriam materializar com um exagero desconcertante.

Outras indicadas: Emily Watson (A Menina que Roubava Livros) | June Squibb (Nebraska) | Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão) | Sarah Paulson (12 Anos de Escravidão)

Em 2013: Helen Hunt, por “As Sessões
Em 2012:
Viola Davis, por “Histórias Cruzadas
Em 2011: Rosamund Pike, por “A Minha Versão do Amor
Em 2010:
Olivia Williams, por “O Escritor Fantasma
Em 2009: Diane Kruger, por “Bastardos Inglórios
Em 2008:
 Marcia Gay Harden, por “O Nevoeiro”
Em 2007: Toni Collette, por “Segredos na Noite”

Prêmio Review | Melhores de 2014: Elenco

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Ainda que Wes Anderson costume repetir parcerias com atores como Jason Schwartzman, Bill Murray, Owen Wilson, Bob Balaban, Adrien Brody e Willem Dafoe, é incrível como cada um deles consegue evitar a repetição no universo tão particular do cineasta. Embora o seu rigor seja mais do que reconhecido na condução de um filme, nota-se que há a criação de um ambiente criativo em que todos têm prazer em colaborar, algo muito evidente também na parcela de equipe técnica laureada com 4 Oscars neste último ano, todos reservando agradecimentos empolgados a Wes Anderson. “O Grande Hotel Budapeste” reuniu o melhor elenco em um lançamento de 2014 e o cuidado de cada trabalho se vê tanto no protagonismo assumido por Ralph Fiennes quanto em participações muito breves que deixam uma impressão muito forte, seja na sempre impagável Tilda Swinton como Madame D. ou mesmo Léa Seydoux vivendo a delicada serviçal Clotilde.

Vencedor:O Grande Hotel Budapeste

Outros indicados: “Nebraska” | “Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2” | “O Passado” | “Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Em 2013: Álbum de Família
Em 2012:
Histórias Cruzadas
Em 2011: Melancolia
Em 2010:O Escritor Fantasma
Em 2009: “Bastardos Inglórios
Em 2008: “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”
Em 2007:  “Bobby

Prêmio Review | Melhores de 2014: Filme Nacional

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Nas safras mais recentes do cinema nacional, talvez apenas três filmes atingiram um resultado revolucionário para de fato marcar a história de nossa cinematografia. O primeiro é “Tropa de Elite”, vitimado por uma pirataria que só ampliou a curiosidade em torno de seu desprendimento ao tratar de uma sociedade movida pela corrupção, marginalidade e desigualdade social tendo como centro o BOPE. O segundo é justamente a sua sequência, “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro”. Por fim, temos “O Som ao Redor”, produção modesta que colocou definitivamente o cinema pernambucano no radar de interesse nacional. É uma pena que “O Lobo Atrás da Porta”, superior não somente a qualquer outro filme exibido em 2014 como também aos três marcos citados, não tenha provocado o barulho que merecia, ainda que siga contabilizando prêmios e um ótimo desempenho em outros países. É um filme que insere o thriller brasileiro em um patamar ainda não atingido e que confirma Fernando Coimbra como o diretor e roteirista mais promissor a surgir recentemente.

Vencedor:O Lobo Atrás da Porta” (produzido por Caio Gullane, Débora Ivanov, Fabiano Gullane e Gabriel Lacerda)

Outros indicados:Confia em Mim” | “De Menor” | “Eles Voltam” | “O Homem das Multidões

Em 2013: O Abismo Prateado
Em 2012:
“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
Em 2011: Malu de Bicicleta
Em 2010:Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro
Em 2009: “Salve Geral

Resenha Crítica | Amantes Eternos (2013)

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Amantes Eternos | Only Lovers Left Alive

Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch

Antes figuras folclóricas, os vampiros se converteram em criaturas populares a partir de um processo de inserção literária que culminou na publicação em 1987 de “Drácula”. No que diz respeito ao universo vampírico, o romance de Bram Stoker segue insuperável, tendo colaborado para a consolidação do personagem no cinema através das sombras expressionistas arquitetadas pelo cineasta F.W. Murnau em “Nosferatu” ou pela encarnação de Bela Lugosi na adaptação homônima dirigida por Tod Browning.

No cinema contemporâneo, os vampiros se viram com o fôlego renovado não somente ao se verem inseridos em contextos atuais identificáveis pelo público juvenil, como também ao terem as suas raízes reformuladas por sucessos do cinema europeu, a exemplo de “Deixe Ela Entrar”. Uma possibilidade pouco explorada desse universo fantástico é a imunidade diante da passagem do tempo não como uma busca pelo amor eterno, mas como um estudo sobre o fardo em atravessar tantas gerações testemunhando a degradação humana.

Jim Jarmusch cunhou o seu nome na história do cinema independente americano desde o momento que pediu ao alemão Win Wenders os negativos armazenados em um freezer que restaram das filmagens de “O Estado das Coisas”, convertendo-os em “Estranhos no Paraíso”. Desde então, tem realizado obras com características bem particulares, com o interesse em enaltecer os dramas de gente comum através de narrativas preenchida por segmentos ou com um protagonista sempre em movimento.

Com “Amantes Eternos”, Jarmusch é reconhecido da primeira à última frame, mas há aqui um desejo de subverter a si mesmo e ao tema que está sendo trabalhado. Trata-se de sua primeira inclusão em um filme de terror, mas a informação não dá conta de dizer verdadeiramente o que é “Amantes Eternos”, principalmente por Jarmusch negar a chamar de vampiros dois indivíduos que carregam claras referências bíblicas, Adam (Adão) e Eve (Eva), interpretados respectivamente por Tom Hiddleston e Tilda Swinton.

Atualmente, Adam habita um apartamento de uma Detroit abandonada, encontrando na música um meio de aplacar a sua depressão. Já Eve circula por uma noturna Tânger, cidade do Marrocos, geralmente acompanhada por Marlowe (John Hurt), um sábio da sua espécie. Juntos há tantos séculos, é natural que Adam e Eve optem em pertencerem a destinos distintos, mas sempre preservando duas promessas: a de sempre se reencontrarem e a de se alimentarem somente do sangue obtido em bancos hospitalares ou meios ilegais.

Ainda que consigam controlar os próprios instintos, o casal pode não ser capaz de reverter as premonições de um infortúnio chamado Ava (Mia Wasikowska), a irmã mais nova de Eve. Com a aparência permanente de uma adolescente, Ava não compartilha os mesmos valores de sua irmã e de seu cunhado, saciando os seus desejos do modo mais primitivo possível. Temos assim a materialização do fruto proibido, a tentação que não é combatida diante da fome.

Novas analogias surgem com um desabafo de Adam para Eve, afirmando que a humanidade (ou os zumbis, como nós somos referidos) é a responsável pela destruição de seus maiores ídolos, como Pitágoras, Galileu e Tesla, e dos recursos naturais mais ricos. É, portanto, na busca pelo essencial para manter a sobrevivência que ambos vão direto à fonte para se alimentarem. Somos todos vampiros incorrigíveis prestes a cometer algum ato bárbaro, aponta Jarmusch ao final de “Amantes Eternos”.

Yves Saint Laurent (2014) Vs. Saint Laurent (2014)

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Yves Saint Laurent  Vs. Saint Laurent

Yves Saint Laurent, de Jalil Lespert
Saint Laurent, de Bertrand Bonello

Vítima de um câncer cerebral, o notável estilista Yves Saint Laurent deixou como herança não somente um império que revolucionou a moda, como também um histórico de vida cheio de capítulos polêmicos. Embora tenha morrido em 2008 aos 71 anos, seis anos se passaram até que Yves Saint Laurent se transformasse em um personagem de interesse para o cinema, que no ano passado o homenageou com duas produções: “Yves Saint Laurent”, de Jalil Lespert, e “Saint Laurent”, de Bertrand Bonello.

É verdade que o estilista tinha recebido em 2010 um documentário pelas mãos de Pierre Thoretton, “O Louco Amor de Yves Saint Laurent”. Entretanto, é a ficção que costuma garantir um registro com um alcance mais amplo. Ambos os filmes foram rodados quase simultaneamente, mas Jalil Lespert tomou a dianteira ao lançar “Yves Saint Laurent” antes de “Saint Laurent”. O que determinou a vitória de Lespert nesta disputa foi o fato de Bonello fazer uma cinebiografia não autorizada, o que rendeu uma produção conturbada com as constantes ameaças de processo emitidas por Pierre Bergé, o braço direito de Yves Saint Laurent nos negócios e com quem teve um caso amoroso.

Yves Saint LaurentPor falar em Pierre Bergé, Lespert também contou com o privilégio de trazer para a sua produção as versões verdadeiras dos figurinos assinados por Yves Saint Laurent, o que trouxe apuros para Anaïs Romand, que teve que desenhar para “Saint Laurent” peças que fizessem jus à opulência das coleções que marcaram a alta-costura. A vantagem é evidente na tela, pois “Yves Saint Laurent” mergulha com mais intensidade neste universo dos desfiles de moda e o processo trabalhoso de concepção de roupas sofisticadas, algo que “Saint Laurent” só dá uma pincelada em seu primeiro ato.

Os “concorrentes” também surpreendem ao darem perspectivas distintas sobre o mesmo personagem. No filme de Jalil Lespert, o pecado está ao trazer uma narrativa basicamente episódica como um modo de flagrar todas as facetas do estilista, ficando clara a instabilidade entre as cenas que trazem um Yves Saint Laurent com personalidades destoantes. Bertrand Bonello, que tem a seu favor o tempo (150 minutos) e a experiência por trás das câmeras em bons títulos como “O Pornógrafo” e “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”, também não promove muito interesse na construção do protagonista, carregando “Saint Laurent” de vícios que só dispersam o espectador, como o ponto da cena sempre demorando a se revelar.

Em termos de elenco, “Yves Saint Laurent” outra vez se mostra superior a “Saint Laurent”. Ainda que a estrutura comprometa a evolução do personagem, Pierre Niney faz um trabalho delicado, iniciando o filme com uma inibição que sugere as perturbações ainda provocadas por uma juventude não relatada como deveria (Saint Laurent passou um período em um sanatório após uma vivência traumática no exército francês) e passando para as fases posteriores com a liberdade vinda com a descoberta de sua verdadeira identidade e do sucesso como estilista. Ainda melhor é Guillaume Gallienne na pele de Pierre Bergé, se livrando de todas as amarras e afetações testemunhadas no terrível “Eu, Mamãe e os Meninos”.

Saint LaurentEm “Saint Laurent”, o refinamento do elenco não foi aproveitado na encenação. As participações especiais de Valeria Bruni Tedeschi e Brady Corbet não provocam uma forte impressão e os excelentes Léa Seydoux e Jérémie Renier, aqui responsável por dar vida a Bergé, são mal aproveitados. E se não bastasse Louis Garrel mais uma vez interpretar Louis Garrel, Gaspard Ulliel escorrega ao quase caricaturar Yves Saint Laurent. As belas feições do ator contemplam uma inconveniente cicatriz no rosto, na altura da bochecha esquerda, o que faz com que algumas expressões se assemelhem a caretas dignas de um sociopata.

No fim das contas, podemos dizer que as duas tentativas não foram suficientes para dar a Yves Saint Laurent o filme que ele merece. Na comparação, “Yves Saint Laurent” é o melhor, mas o seu resultado final é apenas razoável por fazer um desenho incompleto do estilista. Já “Saint Laurent” foi lançado com a promessa de mostrar uma versão sem censura dessa figura real. O que se vê é algo similar a um banho de água fria, uma vez que as expectativas criadas pelo material promocional não são cumpridas. Bertrand Bonello prometeu carícias, luxúria e entrega aos instintos mais ardentes e o que oferece é uma sexualidade insípida que configura “Saint Laurent” como um ponto baixo em sua carreira.

Uma boa conclusão é fundamental para uma boa série

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Lost

Em minha primeira colaboração para o Cine Resenhas – minha lista de séries prediletas de todos os tempos – deixei de fora outras que realmente me deixam entusiasmado em seu andamento atual. Porém, pelo fato de não terem sido concluídas ainda, seria irresponsável e prematuro inclui-las em meu top 5.

“Mad Men”, “Game of Thrones”, “The Walking Dead” e a recém-nascida “Better Call Saul” são séries que tenho muito apreço e que quero comentar aqui. Porém, ainda não devem ser consideradas obras prontas a ponto de botar a minha mão no fogo por elas. Esse é o barato de seriados. Eles precisam fechar o ciclo ou, caso contrário, correm o risco de causar uma decepção imensa no espectador.

Ora, existem centenas de obras cujos desenvolvimentos muitas vezes são mais importantes que a introdução ou a conclusão. Filmes, livros… Quem sabe até um concerto. Mas no caso de séries, o tempo demandado para você assistir todo o seu ciclo (em média quatro anos, se não for cancelada antes) é longo o suficiente para uma grande decepção. Posso citar pelo menos duas séries que me deixaram com uma amargura imensa em sua conclusão.

Não é raro pessoas desiludidas com a pop “Lost” (2004-2010). Desculpe, raro é quem colocaria Lost em seu top 5. Que final foi aquele? Apesar de que, no caso dessa série, a impressão que dava é que ela já estava perdida talvez desde a quinta temporada. Até achei um barato aquela onda de viagem no tempo. Mas não subestime o “seriéfilo”. Pode até ser que tenha ali uma resposta filosófica, religiosa ou o que for, mas o fato é que essa tal temática de bem e mal parece ter sido construída só no final da série. Foi um final broxante! Miraram a surpresa e acertaram a decepção.

Outra série, e dessa vez não é culpa dos roteiristas, cujo final foi mais triste que decepcionante é “Deadwood” (2004-2006). Por uma peleja entre criador da série e executivos da HBO a série simplesmente não teve fim! “Deadwood” tinha tudo para estar no meu top 5 com o inevitável incendido que encerraria a história da cidade, mas não aconteceu. A série simplesmente acabou em um anticlímax triste e repulsivo, que deveria ser considerado um antecedente penal para evitar outros possíveis crimes futuros – sim, aconteceu novamente em outras séries, mas, em alguns casos, foi justo pela péssima qualidade da obra.

Há diversas outras séries com finais dramáticos por serem ruins. No meu caso, tive mais sorte que azar e acompanhei aquelas que me apeteciam e cujo final foi bom. Isso também se deve pelo fato de eu não ter visto tantas séries até o final. Algumas por pouco, outras por muito. Deve ser algo relacionado ao intuito.

Mas quando eu encontrar essas séries com finais ruins com certeza alertá-lo-eis.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

Resenha Crítica | Força Maior (2014)

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Força Maior | Force Majeure

Force Majeure, de Ruben Östlund

Um dos maiores privilégios de um ser humano é a capacidade de raciocinar com clareza diante da tomada de decisões, sejam elas decisivas ou simplesmente corriqueiras. No entanto, muitas vezes essa virtude é negligenciada quando se impõe o instinto de sobrevivência, o que imediatamente nos lança no mesmo patamar dos animais selvagens que ilustram qualquer estágio de uma cadeia alimentar.

O diretor e roteirista Ruben Östlund mostra de forma bem imediato no prólogo de “Força Maior” uma família aparentemente perfeita, posando para inúmeras tentativas para conseguir um retrato digno de um espaço em cima de uma lareira. Tudo para dez minutos depois mostrar o progresso de como ela se desintegra quando o patriarca, Tomas (Johannes Kuhnke), abandona a esposa Ebba (Lisa Loven Kongsli) e o casal de filhos com a vinda de uma avalanche em direção ao restaurante do terraço em que almoçavam.

Sem mortos ou feridos, o fenômeno só não deixa intacta a reputação de Tomas, acusado por Ebba por não proteger a família. Pior: por ter fugido da situação sem antes levar consigo o seu par de luvas e o celular. E assim começam os constrangimentos, tanto pelo fato de Ebba desabafar sobre a atitude nada nobre do marido quanto pelo modo como Tomas se nega a admitir que a sua reação diante do fato pode não ter sido a mais adequada.

Vencedor do prêmio Um Certo Olhar na última edição do Festival de Cannes e lamentavelmente ignorado no Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, “Força Maior” busca tanto por panorâmicas de paisagens naturais e gélidas como representações da natureza do protagonista como também por planos que o capturam à distância, forçando uma pequenez que parece caçoar de sua masculinidade. Os suecos são ótimos em retratar as suas fraquezas sem qualquer reserva e as coisas não são diferentes para Tomas, nos fazendo criar uma empatia por um homem inegavelmente patético.

Há também a música de Vivaldi como um elemento narrativo, sempre repetida para alertar alguma  dissonância, como as interações entre o casal central com outros turistas hospedados no mesmo hotel, todas bradando o quão excepcionais seriam em uma situação de perigo. Um clímax encenado dentro de um ônibus e ainda mais angustiante que a avalanche inicial é carregado de uma ironia exemplar ao promover uma inversão de papéis.