Resenha Crítica | Joy: O Nome do Sucesso (2015)

Destacado

Joy - O Nome do Sucesso (Joy)

Joy, de David O. Russell 

O sucesso exacerbado de alguns artistas da indústria americana carrega um grau tão alto de exposição que muitos chegam ao ponto de terem as suas imagens desgastadas diante do público e da crítica. Esse momento chegou para o diretor David O. Russell e a atriz Jennifer Lawrence, que estabelecem em “Joy: O Nome do Sucesso” a terceira parceria em suas carreiras.

Se “O Lado Bom da Vida” os moveram do território independente para as massas, “Trapaça” foi inicialmente tomado por um êxtase extremamente breve, algo confirmado com a derrota em todas as 10 categorias para o qual foi indicado ao Oscar. Uma pena que a dissociação do que é feito por quem o fez tenha impedido que “Joy: O Nome do Sucesso” fosse abraçado com mais entusiasmo, pois O. Russell e Lawrence entregam o melhor diante do desafio de uma premissa nada cinematográfica.

Em termos de ficção, não há nada de atrativo na trajetória de Joy Mangano para ser convertido em uma obra de entretenimento. Dona de dezenas de patentes, Joy foi quem inventou o esfregão para limpeza, feito de fibra de algodão e com cabo de plástico ajustável. Agora, como se debruçar sobre a invenção do objeto para criar um filme consistente em suas duas horas de duração?

Indicada ao Oscar pelo roteiro de “Missão Madrinha de Casamento”, a melhor comédia americana dos últimos tempos, Annie Mumolo foi quem descobriu na história de Joy o potencial para dramatizá-la no cinema. É a persistência da protagonista que dita o tom do texto, emoldurado por elementos presentes em fábulas com uma conotação adulta. Para David O. Russell, restou o acréscimo de personagens que descaracterizassem a produção como uma cinebiografia de Joy Mangano.

Severamente criticada por ser jovem demais para viver a esposa de Christian Bale em “Trapaça”, Jennifer Lawrence deixa qualquer traço de imaturidade para trás como Joy, retratada como uma jovem mãe de duas crianças que lidera um lar ainda habitado pelo seu ex-marido Tony (Edgar Ramirez), a mãe deprimida Terry (Virginia Madsen), o pai desmotivador Rudy (Robert De Niro) e a avó Mimi (Diane Ladd), esta também uma narradora dos percalços atravessados por Joy. Meia-irmã de Joy, a desagradável Peggy (Elisabeth Röhm) fecha o círculo dessa família disfuncional.

Com o desenho de cada personagem estabelecido, manifesta-se um sentimento de perseverança. Em uma situação-limite, Joy decide que só irá sair do fundo do poço se investir em seu potencial como inventora. Já tendo criado uma coleira antipulgas com a qual não prosperou por não tê-la patenteado, Joy visualiza em um pequeno acidente doméstico a inspiração para desenvolver um esfregão que promete facilitar a vida de donas de casa como ela, uma ideia comprada com muita resistência por sua nova madrasta, a milionária Trudy (Isabella Rossellini), e Neil Walker (Bradley Cooper), diretor de um canal televisivo local destinado ao lançamento de novos produtos.

Ocasionalmente cômico, “Joy: O Nome do Sucesso” acerta principalmente com o cuidado em que narra a luta de sua personagem-título. As burocracias e as pressões familiares estagnam Joy sempre que uma oportunidade promete resultar em êxito, com Jennifer Lawrence trazendo em cena as frustrações a os sinais de esperança com uma empatia que somente as grandes atrizes podem corresponder.

“Joy” é também um ponto de equilíbrio para David O. Russell. Geralmente afeito a excessos, a sua condução aqui não apenas convida a nos conectarmos com os sucessos e fracassos de Joy, como também obtém alguma serenidade que se comporta quase como uma poesia em meio à tormenta. É como se traduzisse no sopro de flocos de isopor aquela chuva de neve que todos buscam para o final feliz de suas próprias fábulas.

Resenha Crítica | Brooklin (2015)

Destacado

Brooklin (Brooklyn)

Brooklyn, de John Crowley

Estima-se que 10% da população dos Estados Unidos é composta por irlandeses. A comunidade de imigrantes veio com o período colonial no país no século XVI, sendo ampliada com o período batizado como “a grande fome”, ocorrida de 1845 a 1849, e a vinda do século XX. Mesmo em uma nação com os seus preconceitos imutáveis, os irlandeses ainda assim conseguiram o seu lugar ao sol, com mãos trabalhadoras que colaboraram para o progresso dos americanos e o compromisso de prosperarem com o ingresso em universidades.

Como bem ilustra o diretor John Crowley em “Brooklin”, por meio do roteiro da autoria de Nick Hornby (baseado no romance homônimo de Colm Tóibín), essa fatia de cidadãos ainda foi capaz de driblar o trabalho exaustivo e quase ininterrupto para manter viva algumas tradições, como as missas e os festejos. Ainda assim, é o dilema da protagonista Eilis (Saoirse Ronan) que ganha ressonância: a indecisão em fazer a vida na Irlanda natal ou nos Estados Unidos.

Atendente em uma pequena mercearia, Ellis recebe a oportunidade de um padre também irlandês (interpretado por Jim Broadbent) para morar em uma hospedaria do Brooklin enquanto trabalha em uma loja de departamentos e estuda contabilidade. Ela diz sim a proposta com uma grande dor no coração, pois precisará deixar para trás a irmã mais velha (Fiona Glascott) e a mãe viúva (Jane Brennan), duas pessoas que sempre a tiveram como um pilar para manter as suas estruturas emocionais.

O processo de adaptação se dá de modo esperado. Nas primeiras semanas, Ellis chora e tem o desejo em escrever cartas todas as noites antes de dormir. No entanto, logo enxerga as pequenas maravilhas ao seu redor, retribuindo-as com um sorriso franco. É com ele que conquistará Tony (Emory Cohen, em uma interpretação irresistível lamentavelmente ignorada na atual temporada de prêmios), filho de imigrantes italianos esforçado em liderar um pequeno empreendimento e de construir a sua própria família.

É possível que desde Rachel McAdams e Ryan Gosling em “O Diário de Uma Paixão” que não vemos um casal tão agridoce em um romance de época e “Brooklin” cresce a cada cena em que Saoirse Ronan e Emory Cohen contracenam juntos. Também como nas grandes histórias de amor, surge uma fatalidade que ameaça uma união e Ellis se vê novamente na Irlanda após uma perda que a faz priorizar a atenção para a sua inconsolável mãe.

Vem assim a segunda metade de “Brooklin”, no qual Ellis constata em seu regresso um lugar com novas cores e possibilidades. É a história reprisando o que já havia estabelecido, mas sem o efeito encantador e com movimentos programados demais, como a vinda de Jim (Domhnall Gleeson) como um interesse romântico sem qualquer química com Ellis. De qualquer modo, o filme (e Saoirse Ronan) não deixa de nos mover, especialmente ao compreender o lar como uma conquista que carrega todas as amarguras dos desapegos que precisamos nos sujeitar para progredir.

Prêmio Review | Melhores de 2015: Indicados

Destacado

Não somos votantes em nenhuma premiação de cinema. O que não significa que não curtirmos essa brincadeira de escolher os nossos favoritos do ano, algo praticado desde o início deste endereço.

A nossa ansiedade para compartilhar com vocês a nossa lista de 2015 foi tão grande que até nos antecipamos em mais de um mês em comparação com a edição de 2014, que pode ser revista clicando aqui. No entanto, as postagens sobre os favoritos comentados começarão na próxima semana, pois ainda temos alguns lançamentos que desejamos avaliar antes de ceder atenção exclusiva ao Prêmio Review, como foi batizada o nosso Oscar particular.

Ano passado, quatro títulos se destacaram de modo muito especial para nós, sendo justamente aqueles que recebem mais menções entre as 21 categorias formuladas. Sicario: Terra de Ninguém é o filme com o maior número de indicações, nove. A seguir, temos Mad Max: Estrada da Fúria, com sete menções. No topo dos melhores filmes do primeiro semestre de 2015Whiplash: Em Busca da Perfeição vem com seis indicações, bem como Expresso do Amanhã. Os demais selecionados podem ser vistos a seguir.

Prêmio Review 2015 - Melhor Filme

MELHOR FILME

A Gangue
A Lição
A Pele de Vênus
Força Maior
Livre
Mad Max: Estrada da Fúria
Mistress America
O Julgamento de Viviane Amsalem
Sicario: Terra de Ninguém
Whiplash: Em Busca da Perfeição

Prêmio Review 2015 - Melhor Direção

MELHOR DIREÇÃO

Damien Chazelle | Whiplash: Em Busca da Perfeição
Denis Villeneuve | Sicario: Terra de Ninguém
George Miller | Mad Max: Estrada da Fúria
Miroslav Slaboshpitsky | A Gangue
Roman Polanski | A Pele de Vênus

Prêmio Review 2015 - Melhor Ator

MELHOR ATOR

Brendan Gleeson | Calvário
Eddie Redmayne | A Teoria de Tudo
François Damiens | Se Fazendo de Morto
Michael Keaton | Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Tommy Lee Jones | Dívida de Honra

Prêmio Review 2015 - Melhor Atriz

MELHOR ATRIZ

Emily Blunt | Sicario: Terra de Ninguém
Gugu Mbatha-Raw | Nos Bastidores da Fama
Margita Gosheva | A Lição
Reese Witherspoon | Livre
Ronit Elkabetz | O Julgamento de Viviane Amsalem

Prêmio Review 2015 - Melhor Ator Coadjuvante

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Benicio Del Toro | Sicario: Terra de Ninguém
Evan Bird | Mapas Para as Estrelas
J. K. Simmons | Whiplash: Em Busca da Perfeição
Jason Statham | A Espiã que Sabia de Menos
Joel Edgerton | O Presente

Prêmio Review 2015 - Melhor Atriz Coadjuvante

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Franziska Weisz | 14 Estações de Maria
Hilary Swank | Dívida de Honra
Julianne Moore | Mapas Para as Estrelas
Laura Dern | Livre
Tilda Swinton | Expresso do Amanhã

Prêmio Review 2015 - Melhor Elenco

MELHOR ELENCO

A Espiã que Sabia de Menos
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Dívida de Honra
Expresso do Amanhã
Mapas Para as Estrelas

Prêmio Review 2015 - Melhor Roteiro Original

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Lição
Força Maior
Mistress America
O Julgamento de Viviane Amsalem
Sicario: Terra de Ninguém

Prêmio Review 2015 - Melhor Roteiro Adaptado

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

A Pele de Vênus
Caminhos da Floresta
Expresso do Amanhã
Livre
Whiplash: Em Busca da Perfeição

Prêmio Review 2015 - Melhor Animação

MELHOR ANIMAÇÃO

As Memórias de Marnie
Cada Um na Sua Casa
Minions
O Conto da Princesa Kaguya
Shaun, O Carneiro – O Filme

Prêmio Review 2015 - Melhor Filme Nacional

MELHOR FILME NACIONAL

A Vida Privada dos Hipopótamos
Cássia Eller
Que Horas Ela Volta?
Trinta
Últimas Conversas

Prêmio Review 2015 - Melhor Documentário

MELHOR DOCUMENTÁRIO

A Vida Privada dos Hipopótamos
Amy
Cássia Eller
Nick Cave – 20.000 Dias na Terra
Últimas Conversas

Prêmio Review 2015 - Melhor Trilha Sonora

MELHOR TRILHA SONORA

A História da Eternidade
Amy
Corrente do Mal
Longe Deste Insensato Mundo
Sicario: Terra de Ninguém

Prêmio Review 2015 - Melhor Canção

MELHOR CANÇÃO

Cada Um na Sua Casa | “Feel The Light
Dois Lados do Amor | “No Fate
Grandes Olhos | “I Can Fly
Nos Bastidores da Fama | “Grateful
Velozes & Furiosos 7 | “See You Again

Prêmio Review 2015 - Melhor Figurino

MELHOR FIGURINO

A Colina Escarlate
Caminhos da Floresta
Cinderela
Grace de Mônaco
Uma Nova Amiga

Prêmio Review 2015 - Melhores Efeitos Visuais

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Evereste
Ex-Machina: Instinto Artificial
Força Maior
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte

Prêmio Review 2015 - Melhor Fotografia

MELHOR FOTOGRAFIA

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Expresso do Amanhã
Mad Max: Estrada da Fúria
O Duplo
Sicario: Terra de Ninguém

Prêmio Review 2015 - Melhor Maquiagem

MELHOR MAQUIAGEM

Caminhos da Floresta
Expresso do Amanhã
Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
Mad Max: Estrada da Fúria
Sr. Turner

Prêmio Review 2015 - Melhor Direção de Arte

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

A Colina Escarlate
Caminhos da Floresta
Cinderela
Expresso do Amanhã
Sr. Turner

Prêmio Review 2015 - Melhor Montagem

MELHOR MONTAGEM

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Livre
Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém
Whiplash: Em Busca da Perfeição

Prêmio Review 2015 - Melhor Som

MELHOR SOM

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém
Sniper Americano
Whiplash: Em Busca da Perfeição

Resenha Crítica | Amy (2015)

Destacado

Amy

Amy, de Asif Kapadia 

Publicada no Brasil pela Editora Globo, a biografia de Amy Winehouse assinada pelo jornalista britânico Chas Newkey-Burden chegou em um momento em que a cantora atravessava um momento conturbado na carreira e na vida privada. Porém, embora a sua pesquisa tenha trazido ao público informações curiosas sobre Amy, havia um excesso de enaltecimento, encarando as transgressões da artista como justificáveis em uma cena musical em que homens as protagonizam sem uma penitência.

Conhecido pela direção do documentário “Senna”, Asif Kapadia faz uma cobertura muito mais interessante e completa sobre a cantora e compositora, quatro anos após a sua morte por intoxicação de álcool. Tece, na realidade, um panorama crítico sobre a fama e o quanto ela atinge negativamente quem não a deseja e o quanto a mídia colabora para aprofundar ainda mais um poço no qual está uma figura pública.

Ao se aproximar dos primeiros anos de Amy, a famosa “levada da breca” dá lugar a uma garota que desde a pré-adolescência apresentava indícios de depressão a partir do divórcio de seus pais. Atingiu a maioridade já chamando a atenção de produtores musicais por sua voz inigualável, preenchendo com energia as próprias composições, que tinham como matéria-prima as frustrações e a paixão por jazz, gênero que apreciava desde pequena ao lado do pai, Mitchell Winehouse, então um taxista e cantor amador.

Tendo “Stronger Than Me” como o seu primeiro single, Amy veio a estourar mesmo em seu segundo álbum, “Back to Black”. Com as divulgações em rádios e programas televisivos, ganhou fãs em todo o mundo e a consagração no meio artístico, recebendo em 2008 cinco prêmios Grammy. Ápice que teve um custo, como a presença 24 horas de paparazzi para registrar a sua intimidade, geralmente ao lado de Blake Fielder-Civil, seu marido na época.

O respeito à memória de Amy Winehouse não está ao negar a sua trajetória errante, documentada em noticiários que exploraram exaustivamente o seu alcoolismo e o vício por drogas pesadas que a levaram a uma transformação física assustadora. Kapadia compreende que ninguém se atira ao abismo a troco de nada e conecta a autodestruição de Amy com as inadequações de um meio com pessoas que deveriam protegê-la ao invés de expô-la.

Não apenas Blake sugou toda a vitalidade de Amy ao inseri-la em um caminho sem volta, mas também o seu pai e agentes, forçando-a a seguir com um cronograma de shows em circunstâncias de maior fragilidade, vindo um histórico de apresentações interrompidas por suas indisposições física e psicológica. Mitchell inclusive autorizou ao Channel 4 as gravações para um projeto televisivo que viria a ser batizado como “My Daughter Amy”, isso em pleno 2010, período em que Amy se isolava para uma nova reabilitação.

Ainda que alguns acontecimentos importantes traziam a esperança de volta por cima, como o dueto com Tony Bennett para “Body & Soul”, o acúmulo de feridas emocionais era insuportável demais para reanimá-la, tornando-a um novo nome para a lista de grandes talentos que partiram aos 27 anos. Kapadia registra a despedida sem a intromissão de escândalos, oferecendo a artista algum conforto após a tormenta. “Amy para sempre”, suspira a eulogia do brasileiro Antonio Pinto.

Resenha Crítica | Filho de Saul (2015)

Destacado

Filho de Saul (Saul fia)

Saul fia, de László Nemes

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

No prólogo de “Filho de Saul”, o cineasta estreante László Nemes encena aquela que é, desde já, uma das cenas mais pesadas já feitas sobre o Holocausto. É quando Saul, interpretado por Géza Röhrig, conduz centenas de pessoas nuas à câmara de gás. Sem nenhum corte, testemunhamos não apenas o enclausuramento, como também os gritos de desespero e os barulhos provocados pelas batidas nos portões por aqueles judeus que morrerão em segundos.

Além de repetir esse impacto em outras ocasiões, “Filho de Saul” também expõe um comportamento que procedia em campos de concentração. Trata-se da colaboração de judeus no auxílio para eliminar os seus pares como um subterfúgio para prolongar a sobrevivência durante aquele terror. Entre as “tarefas” de Saul, está recolher roupas e pertences de algum valor e empilhar cadáveres para serem incinerados.

Durante esse processo, vê um garoto dando os seus últimos suspiros e o reconhece como o seu próprio filho. Vem assim a obstinação em ocultar o seu corpo e localizar entre outros judeus um rabino que possa sepultá-lo com alguma dignidade. Uma busca que irá durar dois dias, exibida em razão 1.37: 1.

Além de uma estética que reproduz a angústia desse confinamento que veio a se tornar um dos maiores crimes da humanidade, “Filho de Saul” se aprisiona no contexto sem que consiga propagar as suas observações para fora dele. Um trabalho primoroso que, ao mesmo tempo, se impede da libertação das amarras do segmento tradicional “filmes sobre o Holocausto”. Fecha-se em si mesmo, sem imaginar a mesma desesperança sobre o que vem a seguir avaliada em outros longas recentes, como “A Espiã” e “Os Falsários”.

Resenha Crítica | A Rainha do Deserto (2015)

Destacado

A Rainha do Deserto (Queen of the Desert)

Queen of the Desert, de Werner Herzog

Gertrude Margaret Lowthian Bell, ou simplesmente Gertrude Bell, foi uma mulher que não permitiu que o comodismo de uma vida privilegiada lhe limitasse a alçar voos altos. Com um relacionamento muito próximo com o seu pai, Hugh Bell, por consequência da morte prematura de sua mãe, Mary Shield, Gertrude não tinha o desejo de seguir as convenções do matrimônio, ainda que tivesse amores verdadeiramente intensos. O seu desejo era conhecer o mundo, ampliado com os estudos de primeira qualidade, ainda que restritivos para uma jovem que desejava usufruir da liberdade.

Mais do que saciar os seus caprichos, Gertrude promoveu expedições que desafiaram a arqueologia no início do século passado. A aproximação com líderes e o registro escrito e fotográfico de destinos visitados a transformaram em um elemento essencial para a redefinição do Oriente Médio, que testemunhou a dissolução do Império Otomano após seis séculos como potência que se apropriar de tribos.

Seja na ficção (“Fitzcarraldo”, “Aguirre, a Cólera dos Deuses”), seja no documentário (“O Homem Urso”, “A Caverna dos Sonhos Esquecidos“), Werner Herzog parecia ser a escolha certa para levar Gertrude Bell aos cinemas com “A Rainha do Deserto”, uma espécie de versão de saias de “Lawrence da Arábia” – ainda que Bell seja considerado por muitos estudiosos uma figura ainda mais influente que T. E. Lawrence. Isso porque o cineasta alemão sabe como poucos transformar esse contato com a natureza, bem como a cultura afastada da civilização, em verdadeiras experiências cinematográficas.

Mesmo com essa distinção, uma apuração denuncia contra Herzog: a ausência de uma obra no qual apresente uma mulher como protagonista à altura de Gertrude Bell. Por isso mesmo, é desapontador o tratamento que ele confere a essa personagem interpretada por Nicole Kidman. A destreza, o pioneirismo e as demais virtudes pelas quais Bell é conhecida deram lugar a uma mulher que ocupa o seu tempo com lamúrias sobre relacionamentos não efetivados durante as desgastantes viagens com dromedários em meio a tempestade de areia do deserto.

Um tempo precioso é depositado na crença de que o gatilho que dispara Gertrude para o mundo é o diplomata Henry Cadogan, personagem ficcional interpretado por James Franco com um risível sotaque britânico. Hugh Bell (David Calder) não dá a sua benção para que ambos se casem, pois deseja que sua filha se relacione com partidos mais sofisticados. Uma fatalidade acontece e, três anos depois, Gertrude já é vista rumando para Amã. “Pela primeira vez, eu sei quem eu sou e o meu coração só pertence ao deserto”, vem a narração em off durante um close na face impecável de Nicole Kidman. Mais tarde, os atritos com um major casado, Charles Doughty-Wylie (Damian Lewis), se transformam em gentilezas, temperando o romance.

Com diários passionais e diálogos com xeiques com tensões que se dissipam em segundos, resta pouco espaço para as panorâmicas do diretor de fotografia Peter Zeitlinger terem uma função além da transição, do breve respiro de contemplação. Além do mais, “A Rainha do Deserto” não cumpre nem mesmo a intenção de se corresponder com “Lawrence da Arábia”, fazendo do encontro entre Gertrude Bell e T. E. Lawrence (Robert Pattinson) somente uma oportunidade para desmitificar a encarnação de Peter O’Toole. E o nosso desejo de ressuscitar David Lean para presentear Gertrude com uma aventura digna.

Resenha Crítica | O Quarto de Jack (2015)

Destacado

O Quarto de Jack (Room)

Room, de Lenny Abrahamson 

No início de “O Quarto de Jack”, temos uma jovem (Brie Larson) e o seu filho Jack (Jacob Tremblay) confinados em um quarto sem janelas e com uma porta somente destravada com o dígito correto de seu segredo. Somente uma claraboia permite a passagem de luz e todos os cômodos de uma residência, como a cozinha e o banheiro, estão compactados neste ambiente com aproximadamente cinco metros quadrados.

A sutileza em como esse minúsculo cenário é explorado, bem como os personagens que ele habitam, já sugere o que é preciso saber sem que isso precise ser claramente verbalizado. Há aqui uma mulher vítima de um sequestro sem solução, suportando há sete anos um cativeiro com um filho que acaba de completar cinco. O único contato com o mundo exterior é uma televisão que perturba a imaginação de Jack, bem como o Velho Nick (Sean Bridgers), o responsável pelo cárcere.

Cineasta irlandês, Lenny Abrahamson parece ter se renovado em “O Quarto de Jack” em comparação ao mediano “Frank”. Principalmente ao confiar em Emma Donoghue para adaptar o seu próprio romance, “Quarto”, publicado no Brasil pela editora Verus. Toda a descrição necessária à literatura é suprimida para atender a uma linguagem que prima por estratégias para enriquecer personagens e os recursos visuais que o contexto permite.

Dito isso, Abrahamson consegue criar em “O Quarto de Jack” dois momentos que se correspondem a partir de divergências. Um universo de possibilidades foi criado na convivência solitária no “quarto” enquanto o “mundo lá fora” sufoca, gera grandes proporções a explosões emocionais que surgem com o trauma e a dificuldade de readaptação.

É preciso um elenco exemplar para dar conta desse turbilhão de contradições. É o que se vê em William H. Macy como um avô que se nega a reconhecer o seu neto, em Joan Allen em preservar a gentileza que de algum modo condenou a sua filha e em Brie Larson, quase tão intensa quanto em “Temporário 12”, ao comprovar que o papel de mãe é um pilar que precisa sustentar mesmo diante de sua ruína.

Ainda assim, é o pequeno Jacob Tremblay quem realmente move “O Quarto de Jack”. A sua vulnerabilidade, a princípio preservada com o colo materno, os óculos escuros e as máscaras, aos poucos dá lugar para aquela curiosidade de quem está assimilando novos códigos e as novas figuras que o rondarão. É na inocência de Jack que esta versão ficcional de tantas histórias reais consegue reascender aquela luz de esperança tão necessária após uma tragédia pessoal tão difícil de desvincular.

Resenha Crítica | A Garota Dinamarquesa (2015)

Destacado

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

The Danish Girl, de Tom Hooper

Na Hollywood lamentavelmente careta de hoje em dia, é muito comum um projeto como “A Garota Dinamarquesa” ser uma vítima de uma série de reveses. Há quase dez anos, o projeto estava nas mãos de Nicole Kidman, com interesse em produzir e protagonizar a história sobre a transexual Lili Elbe. No entanto, mais do que as dificuldades em levantar o financiamento, Nicole não conseguiu alguém para viver Gerda Wegener, a companheira de Lili, um papel declinado por atrizes como Charlize Theron, Gwyneth Paltrow e Rachel Weisz.

Agora, “A Garota Dinamarquesa” ganha formas com Tom Hooper no comando, mas com todas as modificações perceptíveis em uma produção que passou por um sem número de mãos. Isso porque essa encenação sobre o pintor Einar Mogens Wegener e a sua decisão em ser a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de mudança de sexo se preocupa menos com esse dado e mais na potencialidade romântica que ele gera.

Com uma fisionomia pouco atrativa e, ao mesmo tempo, singular, Eddie Redmayne tem também uma androgenia que o torna uma escolha perfeito para viver Einar/Lili. E se restava alguma dúvida sobre o seu talento desse vencedor do Oscar “A Teoria de Tudo”, em “A Garota Dinamarquesa” o vemos novamente em um trabalho extremamente meticuloso de composição.

É ainda como Einar que o vemos no primeiro ato, casado com a também pintora Gerda (Alicia Vikander). Enquanto ele é especializado no registro de paisagens, Gerda busca decolar ao fazer retratos. Na inocência de substituição parcial de uma modelo, Einar adota com naturalidade os adereços femininos e, paulatinamente, reconhece o próprio corpo como algo que não corresponde à mulher que descobre habitar o seu ser, a qual batizará como Lili.

Agora notório por suas composições questionáveis de imagem, como o flerte descuidado com o plano holandês e o uso de grande angular com os atores como assunto, Tom Hooper até poderia recorrer a essas escolhas estéticas como uma representação da distorção de seu protagonista. Não é o que acontece, pois o seu preenchimento inadequado de quadro resiste até o final. Notem não apenas os elementos cenográficos que emolduram as imagens, como também os planos e contra planos com personagens totalmente alinhados à esquerda ou direita quando o ponto de contato visual está centralizado.

Por outro lado, é preciso conferir mérito a Hooper pelo despudor em explorar o corpo de Eddie Redmayne, algo tão importante para compreendermos a natureza verdadeira de sua personagem. Até porque “A Garota Dinamarquesa” resulta como uma experiência frustrante justamente por Lucinda Coxon fazer um uso inadequado tanto do romance de David Ebershoff quanto da própria biografia de Einar, infantilizando a complexa situação a um mero jogo de onde está Einar e onde está Lili, como se o primeiro fosse uma entidade que pudesse reaparecer a cada clamor de Gerda.

Resenha Crítica | O Regresso (2015)

Destacado

O Regresso (The Revenant)

The Revenant, de Alejandro González Iñárritu

Alejandro González Iñárritu venceu nada menos que três estatuetas do Oscar por “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Essa consagração artística também marcou uma ruptura do cineasta mexicano de 52 anos com temas que lhe eram caros, como a incomunicabilidade humana e as distinções sociais. Talvez fosse melhor ter se rendido novamente a eles em “O Regresso”, pois são só algumas das abordagens à parte em um roteiro ausente de substância.

Em adaptação parcial do romance homônimo de Michael Punke, “O Regresso” resgata a figura real Hugh Glass, geralmente associada a um mito. Na pele de Leonardo DiCaprio, Glass se vê envolvido ao lado de seu filho Hawk (Forrest Goodluck) em meio a um conflito para a caça de pele. De um lado, há os subordinados ao capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Do outro, a tribo de índios Arikara. Ao ver todos os homens de Henry sendo selvagemente massacrados, Glass age em sua defesa.

O problema está no mal estar que a presença de Hawk provoca, um sujeito de origem indígena com um passado obscuro. Os atritos são especialmente gerados por John Fitzgerald (Tom Hardy), que pode não ser tão leal a Henry quanto proclama e que logo se converterá em um grande pesadelo para Glass ao assumir uma postura que o atingirá intimamente.

O ponto em que os papéis de herói e inimigo são integralmente assumidos por Hugh Glass e John Fitzgerald é exatamente aquele em que “O Regresso” passa a evidenciar os seus limites. É ainda mais grave isso já ocorrer quando o segundo ato sequer se aproximou, expondo as fragilidades de um texto do qual Iñárritu e o seu parceiro Mark L. Smith são incapazes de contornar.

A cena em que Glass é quase morto por um urso recriado em CGI espanta pela brutalidade e a transparência como exibe cada um dos danos físicos provocados. A falha está em recorrer a esse choque, ao impacto visual que isso provoca, não como um recurso dramático e sim como uma muleta para permitir que “O Regresso” atinja algum progresso insistindo na tentativa de provocar uma forte impressão, algo que ficará intolerável quando um cantil com uma espiral desenhada pelo personagem vivido por Will Poulter retornar como um objeto que abrirá as portas para o clímax.

A decisão seria muito mais sensata caso fosse somente confiado a Emmanuel Lubezki a exploração desse território inóspito e selvagem, que usa grandes angulares que contornam cada entorno, obtendo um efeito quase circular. Quando a intenção é ir além das consequências de uma luta pela sobrevivência, que implica a interação entre desiguais e os testes dos próprios limites físicos e psicológicos, “O Regresso” não funciona.

É possível de fato perceber o empenho de Leonardo DiCaprio ao papel, especialmente com a dificuldade em encarar uma temperatura fria extrema e o diálogo em uma língua indígena na maior parte do tempo. No entanto, faltam camadas ao personagem, enfraquecido por um Tom Hardy novamente unidimensional como o seu “oponente” e os flashbacks e os devaneios poéticos que extrapolam as barreiras do pieguismo.

São fatores que preenchem a jornada de Glass com inverossimilhança, milagrosamente pulando estágios de uma recuperação definitivamente impossível estabelecidas as barreiras climáticas e o curso extremamente breve até o seu destino pretendido. Opaca-se assim a força de uma história real, que seria mais enriquecida se Iñárritu compreendesse mais as distinções e as particularidades dos inúmeros coletivos que exibe e menos os subterfúgios de um espetáculo nem sempre honesto em suas intenções.

Resenha Crítica | Carol (2015)

Destacado

Carol

Carol, de Todd Haynes

A escritora Patricia Highsmith é dona de uma bibliografia recheada de thrillers sofisticados. É ela a criadora de Tom Ripley, personagem encarnado no cinema por cinco grandes intérpretes: Alain Delon (“O Sol por Testemunha”), Dennis Hopper (“O Amigo Americano”), Matt Damon (“O Talentoso Ripley”), John Malkovich (“O Retorno do Talentoso Ripley”) e Barry Pepper (“Ripley no Limite”).

Mesmo debutando com o romance que inspiraria Hitchcock a realizar “Pacto Sinistro”, Highsmith veio a seguir com “Carol”, estranho diante de uma retrospectiva de sua obra. Publicado em 1952 como “O Preço do Sal” sob o pseudônimo de Claire Morgan, o livro foi assumido por Highsmith somente em 1990, cinco anos antes de seu falecimento. Com “Carol”, Todd Haynes faz o seu primeiro longa-metragem em oito anos para continuar com um tema recorrente em sua filmografia: a descoberta da própria identidade.

Inebriada de delicadeza, a sua direção traz à tona a atração entre Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara) a princípio com apenas algumas trocas de olhares, com todos aqueles planos e contraplanos que exaltam o cinema como uma arte especial em conferir a profundidade de um oceano a pequenos gestos, geralmente ignorados com a banalidade da existência humana. Carol é uma mulher madura e visivelmente entediada com o curso que leva a sua vida e Therese é a materialização de sua vivacidade perdida, bem como a da ingenuidade que lhe permitia se doar ao novo com intensidade.

O encontro entre essas duas mulheres acontece na loja em que Therese trabalha como atendente, havendo nele uma troca de cordialidades que aos poucos recebem contornos íntimos. Em evidência, há também a presença masculina como uma figura que reprime, que sufoca, que castra. Therese tem como companheiro Richard (Jake Lacy), um sujeito bem-intencionado, mas que não percebe que ela não deseja corresponder ao seu amor. Já Carol sabe que efetivar uma separação com Harge (Kyle Chandler) lhe trará consequências graves, como a de não acompanhar o crescimento de sua pequena filha, Rindy (papel revezado pelas gêmeas Sadie e Kk Heim).

Como o esperado, Todd Haynes cerca “Carol” com todas as virtudes esperadas de um bom drama/romance de época permeado por preconceitos, como bem fez em “Longe do Paraíso”. A adaptação do texto pelas mãos de Phyllis Nagy (do telefilme “Mrs. Harris”) consegue captar os costumes da Nova York de 1950, enquanto a fotografia de Edward Lachman, a direção de arte de Jesse Rosenthal e os figurinos de Sandy Powell são apenas algumas das peças que se encaixam com harmonia para reproduzir as ambientações pretendidas.

Porém, o choque físico entre duas personagens de classes sociais distintas traz consequências negativas ao filme. Para o momento em que se espera uma entrega justamente sem amarras, o que se tem é um sexo evidentemente ensaiado, pouco arrebatador. O mesmo pode ser dito da escolha em honrar a literatura de Patricia Highsmith com um suspense ingênuo, sem consequências. Resta após esses desdobramentos um ato final que volta a envolver ao rememorar as convenções daquele contexto que ainda ganha reflexo na contemporaneidade e o quão importante é desafiá-las para um amor pleno.

Os 10 Piores Filmes de 2015

Destacado

Alguns compromissos e estudos nos fizeram preterir os lançamentos por alguns clássicos e filmografias em particular no curso de 2015. Portanto, somente nas últimas semanas do ano nos preparamos para uma repescagem, com tudo aquilo de essencial que perdemos durante a passagem no circuito comercial ou mesmo em homevideo.

O empenho em correr atrás desses filmes que devem ser vistos antes de fechar uma lista de melhores nos tranquilizou, no sentido de que a nossa relação de piores está inalterada desde agosto. Portanto, a meta de ser mais seletivo surtiu um efeito positivo, com potenciais bombas sendo evitadas.

Ainda assim, elas existem e podem se revelar até mesmo em filmes que aguardamos com alguma expectativa ou no desafio da cobertura jornalística em um lançamento. Grande parte dos títulos a seguir se encaixa nessas condições e, por isso mesmo, buscamos (des)privilegiar o que houve de pior no cinema em 2015, seja no circuito alternativo, seja em títulos que predominam as salas de shoppings.

.

Adeus à Linguagem#01. Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard +

Como um experimento, “Adeus à Linguagem” pode se comportar como um estudo curioso (e nada mais do que isso) sobre a predominância do digital e o quanto as transições do cinema fazem muitos diretores reavaliarem as novas possibilidades para contar uma história. Como cinema, “Adeus à Lingaugem” é um registro triste sobre Jean-Luc Godard desaprendendo o seu ofício, acreditando que vomitar citações de Darwin, Faulkner e Sartre e de distorcer as músicas de Bethoveen e Tchaikovsky são recursos para engrandecer personagens que carecem de uma alma. Uma agressão aos sentidos.

.

Loucas Pra Casar#02. Loucas Pra Casar, de Roberto Santucci

Existe extremismo quando se fala das comédias com o selo Globo Filmes, como se todas fossem abomináveis ou meras transposições para o cinema de projetos televisivos. A verdade é que títulos como “Até que a Sorte nos Separe” e “Minha Mãe é Uma Peça – O Filme” fazem sucesso devido às premissas com temas que conseguem cativar, como a dificuldade de administração de fortunas daqueles que enriquecem da noite para o dia ou os exageros do zelo maternal. Não é o que acontece em “Loucas Pra Casar”, uma comédia que só nos perturba com o embate entre três mulheres histéricas para conquistar o mesmo homem. A surpresa final, que chegou a ser comparado com “O Sexto Sentido” por Ingrid Guimarães, só embaraça o que já estava irreversivelmente constrangedor. Além do mais, é impossível não namorar com a tecla “ejetar” quando “Happy”, de Pharrell Williams, é tocada pela enésima vez.

.

O Amuleto#03. O Amuleto, de Jeferson De

Filmes estrangeiros de terror fazem um sucesso imenso no Brasil. Ainda assim, a nossa produção pena para produzir os seus próprios representantes do gênero. As coisas estão mudando um pouco, mas ainda há muito a ser feito. A existência de “O Amuleto” é um exemplo. Sem nenhuma experiência prévia que comprove o seu tino para o gênero, Jeferson De (“Bróder”) subverte as “regras” ao antecipar para o primeiro ato os danos de seu mistério somente para rechear as consequências dessa escolha com chavões surrados. Além de adolescentes aborrecidos, os personagens centrais de “O Amuleto” são daqueles que não conseguem demonstrar qualquer amadurecimento nos diálogos que entonam e ainda têm uma facilidade risível de se perderem em meio a floresta a partir de ações como tirar a água do joelho. Para cada Marco Dutra ou Rodrigo Aragão, haverá sempre um “O Amuleto” para retardar o nosso progresso.

.

Cinquenta Tons de Cinza#04. Cinquenta Tons de Cinza, de Sam Taylor-Johnson

Existia alguma esperança de que a adaptação do best seller  “Cinquenta Tons de Cinza” fosse capaz de superar a caretice que impera em Hollywood com o seu inevitável sucesso comercial. Ledo engano. As peripécias sexuais da então virginal Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o seu amado milionário Christian Grey (Jamie Dornan) provam que o cinema americano regrediu aproximadamente 30 anos. A ousadia de cineastas como Adrian Lyne e Paul Verhoeven é um passado lamentavelmente castrado, dando lugar a cenas de sexo pudicas que não dialogam com o perfil aparentemente perturbador de seu protagonista. A equipe com pedigree, como o diretor de fotografia Seamus McGarvey (“Desejo e Reparação”), o compositor Danny Elfman (“Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”) e até mesmo a colaboração da montadora Anne V. Coates (“Lawrence da Arábia”), são meros adereços para a escritora E.L. James, que detém o controle artístico da adaptação de seu romance homônimo, um patético conto de fadas às avessas.

.

Qualquer Gato Vira Lata 2#05. Qualquer Gato Vira Lata 2, de Roberto Santucci +

Novamente, Roberto Santucci tem um de seus filmes citados nesta lista de piores, desta vez dividindo a desonraria com Marcelo Antunez para que “Qualquer Gato Vira Lata 2” pudesse ser confeccionado mais rápido. É uma curiosidade importante, pois cada vez Santucci se assemelha mais a um empresário e menos como um diretor, tendo despontado como uma promessa após o regular “Bellini e a Esfinge”. Na verdade, o que mais incomoda nesta sequência protagonizada por Cléo Pires, Malvino Salvador e Dudu Azevedo é a total cara de pau em surrupiar a premissa de comédias americanas de sucesso, como “Esposa de Mentirinha”. E preparem-se, pois logo mais “Um Suburbano Sortudo” pintará nas telonas.

.

Deixa Rolar#06. Deixa Rolar, de Justin Reardon

Mais que um mero galã. Chris Evans conseguiu a cobiçada posição de astro hollywoodiano, graças ao sucesso de “Capitão América” e um contrato confortável com a Marvel. Porém, fora desse universo de super-heróis, anda tendo dificuldades para ser levado a sério – excetuando, claro, o formidável “Expresso do Amanhã”.  “Deixa Rolar” marca os seus primeiros passos como produtor após uma experiência inexpressiva na direção de “Before We Go”. Evans é também o protagonista, um boa-pinta desinteressado em relacionamentos sérios. Bom, isso até aparecer Michelle Monaghan, aquela graça de mulher que vai desencadear tudo o que estamos exaustos de ver em comédias românticas vulgares e esquemáticas: as indecisões quanto ao homem que ela deve escolher, alguns dramas inócuos que buscam justificar a cafajestice do protagonista, a corrida para impedir um casamento, o discurso constrangedor ao final… Somente a presença engraçadinha de Topher Grace torna o humor mais tolerável.

.

O Rio nos Pertence#07. O Rio nos Pertence, de Ricardo Pretti +

Parte de uma trilogia denominada como Operação Sônia Silk, “O Rio nos Pertence” é inspirado em um projeto da produtora Belair, no qual Júlio Bressane e Rogério Sganzerla se desdobraram durante três meses para conceber sete filmes. Assim como no passado, o resultado não passa de um exercício pretensioso, com “O Rio nos Pertence” certamente representando a ponta mais frágil do triângulo. Mesmo que seja curioso observar a instável protagonista de Leandra Leal em um cenário carioca despovoado e nada tropical, o que se tem é aquele velho caso de um artista presunçoso com o desejo de compartilhar histórias com relevância apenas para si mesmo.

.

Amaldiçoado#08. Amaldiçoado, de Alexandre Aja

Americano de 43 anos, Joe Hill continua avançando para ser um sucessor à altura de seu pai, Stephen King. Os sucessos de “A Estrada da Noite”, “Nosferatu” e “O Pacto” provam que Hill está andando no caminho certo. Em contrapartida, a adaptação de “O Pacto”, batizada como “Amaldiçoado” em seu lançamento no Brasil direto em homevideo, prova que precisará tomar mais cuidado ao vender os direitos de seus romances. Isso porque o francês Alexandre Aja, que não faz nada digno desde “Viagem Maldita”, parece não saber o que fazer com o material. Na mistura de fantasia, terror e comédia, “Amaldiçoado” se arrasta durante duas horas que penam para chegar ao fim, trazendo ainda uma direção atroz de atores – Max Minghella está especialmente terrível no papel do melhor amigo do protagonista vivido por Daniel Radcliffe.

.

Rua Secreta#09. Rua Secreta, de Vivian Qu +

Exibido na 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o chinês “Rua Secreta” certamente ocupou a oportunidade de lançamento em circuito comercial de algum dos inúmeros títulos superiores que infelizmente se perdem após a passagem por festivais. Isso porque esse debut de Vivian Qu na direção e roteiro acompanha com desinteresse um jovem que se vê enroscado em uma teia conspiratória ao se sentir atraído por uma jovem que atua em uma empresa misteriosa. Embora a premissa seja uma grande promessa para um thriller, com o protagonista não identificando em seus equipamentos de mapas digitais alguns locais em que seu interesse amoroso transita, Qu contenta-se com uma condução em banho-maria e uma conclusão em aberto propenso a gerar mais frustrações do que questões para o seu enigma.

.

Vício Inerente#10. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson não é um cineasta dos mais ativos, chegando a atingir cinco anos de intervalo entre a realização entre um filme e outro. Dois anos após “O Mestre”, o americano vem com “Vício Inerente” esquecendo-se de uma máxima sobre a obra do excêntrico Thomas Pynchon: inadaptável. PTA não entendeu o recado, camuflando com a boa reconstituição de uma época o ritmo claudicante de uma história não compatível com a narrativa cinematográfica. Além do mais, o extremo formalismo de sua condução não tem ressonância com a decadência que contamina toda a história, muito distante da estética pornográfica de “Boogie Nights: Prazer Sem Limites”.

Resenha Crítica | The Lobster (2015)

Destacado

The Lobster

The Lobster, de Yorgos Lanthimos

Para “The Lobster”, o diretor, roteirista e produtor grego Yorgos Lanthimos constrói um cenário paralelo ao nosso, com autoridades invisíveis em que os rumos são ditados por anônimos submissos ao poder estabelecido sem que estes percebam a própria relevância. Popularizada na ficção pelo britânico George Orwell com “1984”, essa premissa é revista com muita originalidade nesta co-produção entre Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Irlanda e Reino Unido.

O que move a sociedade em “The Lobster” são os relacionamentos. Aqueles que não encontram a chamada alma gêmea ou simplesmente a perderam são classificados como Solitários. Rejeitados, precisam se submeter a um “resort” em que terão somente 45 dias para encontrarem um parceiro. Caso não tenham sucesso no curso desse prazo e não sejam eliminados em um massacre em que os Solitários são os caçadores e as caças, terão como destino a transformação permanente em um animal, cuja escolha partirá de cada um.

Embora Yorgos Lanthimos a todo o momento insira indícios de que os traços fantásticos de sua narrativa possam ser questionados, é nela que David (Colin Farrell) se vê enclausurado.  É preciso encontrar uma parceira que corresponda às características pouco usuais que o integram: a miopia, as dores insuportáveis na coluna e a inabilidade para curá-la com as próprias mãos e o irmão que o acompanha, agora nas formas de um cachorro.

Há dois momentos distintos em “The Lobster”, o primeiro com a narração pouco apaixonada de Rachel Weisz sobre os passos dados por David e o segundo marcando o encontro desses dois personagens em uma floresta que divide os mundos dos Solitários e dos casais que vivem pacificamente na cidade. Não que a paz esteja estabelecida neste refúgio, uma vez que a liderança dos Solitários, nas formas da francesa Léa Seydoux, pune com rigor aqueles que assumam um relacionamento.

Em distopias, o amor surge como o instrumento de salvação de um planeta que ruma para o fim da humanidade. Em “The Lobster”, essa máxima é revirada. Estaria o amor realmente presente na repetição das convenções, que padroniza a constituição de uma família como o alcance da felicidade plena? Estamos todos condicionados a compartilhar um lar e a intimidade com aqueles que nos interessam por mera compatibilidade ou por sentimentos que superam as distinções vigentes?

É uma surpresa que uma premissa repleta de tantas estranhezas consiga transcender com questionamentos que não apenas nos dizem respeito, como contaminam o nosso âmago, trazendo ainda uma conclusão desconcertante e desesperançosa que revê as contradições complexas de um ser humano por traz de suas decisões, regidas mais pela necessidade de preenchimento do que por amor. É um alívio que Yorgos Lanthimos não tenha recuado nem um pouco na autoria que imprime em seu cinema ao elevá-lo a um novo patamar em um idioma não materno.

Resenha Crítica | Os Oito Odiados (2015)

Destacado

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

The Hateful Eight, de Quentin Tarantino

Na sequência de créditos iniciais de “Os Oito Odiados”, Quentin Tarantino mantém em primeiro plano a escultura de Jesus Cristo crucificado. Coberta pela neve, a imagem é posicionada à parte da carroça que transporta Marquis Warren (Samuel L. Jackson), John Ruth (Kurt Russell) e Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma alusão ao inferno que esses e outros personagens irão se concentrar, materializado em uma casa de madeira, o cenário principal de “Os Oito Odiados”.

Marquis é um caçador de recompensas que traz consigo o cadáver de dois criminosos, só não tão valiosos quanto Daisy, a qual John leva para embolsar 20 mil por sua captura. Como o destino dela será a forca, deduz-se as barbaridades de seus atos, ainda que a brutalidade com a qual é silenciada possa criar alguma compaixão. Antes de uma parada obrigatória para que os cavalos possam repousar até a nevasca recuar, vem a bordo Chris Mannix (Walton Goggins), que se apresenta como o xerife que recepcionará John e a cabeça a prêmio de Daisy.

Quem os abriga são Oswaldo Mobray (Tim Roth) e Joe Gage (Michael Madsen), além do mexicano Bob (Demian Bichir) e o ex-general idoso e racista Sandy Smithers (Bruce Dern). Condutor de John, O.B Jackson (James Parks) fecha esse grupo de indivíduos que se estranham, às vezes por razões óbvias e em outras por motivações que em algum tempo deixarão de ser omitidas. É Marquis, imunizado por uma carta que diz ser escrita por Abraham Lincoln, quem assume o protagonismo da situação, fazendo com que as máscaras que revestem a face de cada um despenquem – inclusive as suas.

Oito é também o número de longas-metragens de Tarantino, que parece convicto da decisão em encerrar a sua carreira como cineasta quando atingir o décimo projeto por trás das câmeras. Tarantino se justifica com o medo de passar a não entregar filmes que não supram as expectativas geradas pelo seu nome, mas é também a denúncia de um certo esgotamento criativo.

O que não se pode dizer de “Os Oito Odiados” é que ele não seja um ótimo filme. Retomando parcerias com velhos conhecidos (Samuel L. Jackson, Tim Roth, Michael Madsen et cetera) ao mesmo tempo em que introduz intérpretes até então estranhos em seu universo (Jennifer Jason Leigh, Demian Bichir e Channing Tatum em papel surpresa), Tarantino prossegue explorando a potencialidade de seu elenco transformando cada um em figuras maliciosas, quase cartunescas.

Fator que sempre moveu a sua obra, a violência é também revista como um elemento cômico, mas também de denúncia, permitindo que “Os Oito Odiados” dê continuidade a temas centrais de “Django Livre”, como o enraizamento do preconceito racial e a vingança como a possibilidade ficcional de apaziguação. É também um primor a exteriorização atingida com os embates verbais, que modelam a partir do confinamento a realidade transitada por cada personagem.

Avaliada todas essas camadas, é justo ainda assim dizer que “Os Oito Odiados” tem uma base extremamente simples, sendo ela ainda mais evidente com um capítulo final norteada por um longo flashback que denuncia o roteiro de Tarantino como uma peça pautada por reviravoltas que contornam inúmeros caminhos para sempre chegar ao mesmo destino. “Os Oito Odiados” não entediará o público, mas a repetição de negociações, a narração em off como uma prenda e a inconstância da moralidade de Mannix são apenas algumas provas de que Tarantino é melhor quando visualiza alguma parcimônia em meio ao excesso.

Resenha Crítica | Até Que A Casa Caia (2015)

Destacado

Até que a Casa Caia

Até que a Casa Caia, de Mauro Giuntini

Quatro anos após a sua estreia como diretor de longa-metragem com “Simples Mortais”, Mauro Giuntini faz, ao menos a princípio, um bom estudo de Brasília, a capital federal do país e cidade em que reside. Isso porque o cenário esplendoroso, notório por suas construções modernas, algumas assinadas por Oscar Niemeyer, é visto quase em ruínas ou em estado degradante.

Protagonistas de “Até que a Casa Caia”, Marat Descartes e Virginia Cavendish são Rodrigo e Ciça, um casal legalmente divorciado que habita o mesmo apartamento. Mesmo com um filho, Mateus (Emanuel Lavor), ambos são cientes do acordo em levar uma vida independente, sem precisar dar satisfações sobre os novos parceiros que possam surgir.

A implicação quanto a conviverem juntos diz mais respeito a um problema de renda, pois as más remunerações para as atividades que exercem – ele é professor, ela é massagista/vidente/taróloga – são suficientes para arcar com as despesas domésticas quando unidas. Tudo caminha no limite do tolerável até Rodrigo responder a uma episódio de ciúme com o relacionamento sério que assume com Leila (Marisol Ribeiro), secretária de um gabinete em que ele apresenta propostas para projetos de lei.

Os desajustes de infraestrutura dos ambientes, que incluem um buraco na parede que separa os quartos dos ex-cônjuges e as goteiras que interrompem as aulas de Rodrigo, ressoam como rachaduras na moralidade de personagens de um território com um custo de vida tão altíssimo que o impossibilitam de preservar a própria integridade e privacidade em um teto todo seu. Leila é também enriquecida nesse processo, passando de mera amante para uma jovem com motivações que ficam mais claras com a aproximação do último ato.

A deficiência do texto assinado por Lu Teixeira é acreditar que o paralelo de estrutura do espaço com os limites emocionais não é o suficiente para “Até que a Casa Caia”, avolumando o filme com impasses com resoluções insatisfatórias e a inserção de humor. Além de se perder com o posicionamento de Mateus em meio a todo o conflito conjugal, há uma ingenuidade extrema ao trazer Rodrigo como um sujeito corruptível e Ciça com toda uma passividade implausível tanto ao tolerar Leila quanto ao trazer uma senhora estranha para o seu lar. São problemas ignorados em tratamentos de roteiro que nenhuma tentativa de fazer graça consegue contornar.

Resenha Crítica | Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

Destacado

Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road)

Mad Max: Fury Road, de George Miller

Uma série de contratempos pesou contra “Mad Max: Estrada da Fúria”. Em planejamento desde a virada do século, a quarta aventura pós-apocalíptica centrada na figura de Max Rockatansky foi adiada inúmeras vezes e ainda perdeu Mel Gibson, com carisma e talento decisivos para transformar o personagem em um dos heróis mais celebrados do cinema. Mais: gravado durante o verão de 2012, o lançamento do filme foi adiado em quase dois anos, algo que denuncia o fracasso de várias grandes produções.

Seja como for, George Miller não desistiu do sonho de prosseguir com a sua franquia, essencial por colocar a Austrália no mapa do cinema mundial, e todo esse empenho, de algum modo comovente para um veterano de 70 anos, é a força que move “Estrada da Fúria”. Além disso, o tempo extenso que separa a filmagem da exibição provavelmente fez Miller e os seus roteiristas Brendan McCarthy e Nick Lathouris realizarem não somente algumas cenas adicionais como também repensar o ritmo da ação, este sendo um dos principais alicerces para o sucesso do filme.

Ainda que encarada como a quarta aventura de Max Rockatansky, “Estrada da Fúria” também se comporta como um reboot para a série. Não só por Tom Hardy, que substitui Gibson, como também por uma premissa que, na maior parte do tempo, não está inclinada aos acontecimentos dos três episódios anteriores, produzidos entre 1979 e 1985. O ressurgimento do ator Hugh Keays-Byrne, que incorporava outro personagem no longa original, os flashes sobre o passado traumático de Max e a aridez do deserto são os elementos mais fortes que nos reconectam a encarnação anterior do herói.

Como raramente (nunca?) se vê em uma sequência, “Estrada da Fúria” não tem tempo para conversa fiada. O seu prólogo já engata a última marcha, sem nunca vacilar neste frenesi que rege o filme. Membros da gangue War Boys capturam Max com o intento de utilizar o seu sangue como suprimento. Por traz não somente desse coletivo de peles pálidas como também de toda a população que restou está Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que detém toda a água que restou e tem planos para dominar todo o combustível de Gas Town. É a Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) a principal responsável por essa “expedição”, mas logo conhecemos o seu verdadeiro plano: salvar cinco mulheres capturadas para parir os herdeiros de Immortan Joe e encontrar refúgio no sagrado Green Place.

Além de apresentar perseguições que se sobressaem com facilidade como as melhores sequências de ação no cinema pipoca deste ano, George Miller sabe o efeito devastador causado com a presença de figuras anômalas, totalmente condizentes com o contexto de sua história e com uma força visual certeira. Como o tão comentado Coma-Doof Warrior, insano guitarrista que embala a guerra sobre rodas.

O que transformará “Estrada da Fúria” em clássico, no entanto, é a virada de expectativas que é proposta a partir de seu segundo ato. É preciso muita coragem para transformar Max em um coadjuvante de sua própria história, algo que George Miller faz sem qualquer cerimônia ao avaliar a potencialidade de sua Imperatriz Furiosa. É ela a face que os personagens íntegros precisam como um novo líder e a inteligência em confirmar esse desejo permite ao filme caminhar para um encerramento implacável.

Resenha Crítica | A Visita (2015)

Destacado

A Visita (The Visit)

The Visit, de M. Night Shyamalan

Provavelmente, desde Michael Cimino que Hollywood não testemunha uma ascensão e queda tão vertiginosa quanto a de M. Night Shyamalan. O indo-americano havia produzido dois longas (“Praying with Anger” e “Olhos Abertos”) que ninguém viu e abalou as estruturas do cinema com “O Sexto Sentido”. Os sucessos posteriores de “Corpo Fechado” e “Sinais” o tornaram capa da revista Newsweek, onde se lê a chamada “The Next Spielberg”, o próximo Steven Spielberg. Hoje, a previsão é encarada como uma piada quase tão hilária quanto os últimos filmes do diretor.

Se a fábula “A Dama na Água” e o mistério ecológico “Fim dos Tempos” ainda é defendido com fervor por alguns fãs, o mesmo não pode ser dito sobre os desastres fantásticos “O Último Mestre do Ar” (adaptação da minissérie animada “Avatar”) e “Depois da Terra”. Neste ano, Shyamalan parece finalmente ensaiar uma volta por cima, lidando com projetos menores após a rejeição dos grandes estúdios. Investiu na tevê como produtor executivo de “Wayward Pines”, com uma temporada de 10 episódios com boas críticas – ele próprio dirigiu o piloto. Com “A Visita”, consegue o feito de ter um dos lançamentos mais lucrativos do ano.

Com o desejo de retomar o controle criativo de seus filmes, Shyamalan produziu “A Visita” quase na surdina, com o orçamento minúsculo de 5 milhões de dólares e dentro da estética do found footage. Na história, Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) são irmãos enviados pela mãe (Kathryn Hahn) para a casa dos avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie), pois ela passa por um período delicado e decide entrar em férias para relaxar um pouco.

Becca e Tyler têm conhecimento das desavenças que a mãe deles passou com os seus avós ao abandoná-los ainda na juventude, o que já estabelece certa tensão quando eles chegam por conta própria na casa deles. Amáveis, Nana e Pop Pop sequer se incomodam com o fato de Becca trazer consigo uma câmera para a realização de um documentário – ela tem o desejo de atuar profissionalmente como uma diretora quando mais velha. Os problemas se concentram nos hábitos estranhos desse casal de idosos, ainda mais sinistros no curso da noite.

Como em seus grandes filmes, M. Night Shyamalan confere em “A Visita” as suas maiores virtudes como diretor e roteirista. Como poucos, constrói uma linha progressiva de tensão com ameaças palpáveis. Também extrai o melhor de seu elenco, com destaque especial para Ed Oxenbould, Kathryn Hahn e a assustadora Deanna Dunagan. Só não vai mais adiante justamente pelo formato, que parece aprisioná-lo no desenrolar de alguns acontecimentos que seriam ainda mais assustadores caso a câmera tivesse posicionada em um ponto mais privilegiado.

Não poderia faltar a “reviravolta Shyamalan”, aquela que desconcerta o público ao pegá-lo totalmente desprevenido diante de uma revelação difícil de se antecipar. Felizmente, ela vem carregada com uma brutalidade arrepiante e com um discurso contundente e emotivo sobre famílias destroçadas, tema caro na filmografia de Shyamalan. Ressalvas à parte, é um belo retorno à boa forma.

Resenha Crítica | Olhos da Justiça (2015)

Destacado

Olhos da Justiça (Secret in Their Eyes)

Secret in Their Eyes, de Billy Ray

Ótimo diretor, Billy Ray acabou pendendo mais para o ofício de roteirista, sendo indicado no Oscar nesta função com o texto adaptado de “Capitão Phillips”. Não se sabe as razões dessa decisão, pois “O Preço de Uma Verdade” e “Quebra de Confiança” foram recebidos com entusiasmo pelo público e crítica. O seu retorno na direção de um longa-metragem vem com “Olhos da Justiça”, talvez o movimento mais ousado de sua carreira.

O título original tenta esconder, mas todos já sabem que estamos diante da refilmagem americana para o argentino “O Segredo dos Seus Olhos”, filme de Juan José Campanella laureado em 2010 com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Novas versões para obras ainda frescas no imaginário coletivo raramente rendem resultados positivos, como bem provam “Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, “Quarentena” e “Deixe-me Entrar”.  Felizmente, “Olhos da Justiça” sabe ser fiel ao material original e escolheu um bom contexto para situar as duas linhas do tempo que correm paralelamente.

No período atual, temos o protagonista Ray (Chiwetel Ejiofor) flagrado em um momento em que uma descoberta o faz se reconectar a pessoas essenciais quando exercia o papel de investigador do FBI, sendo elas a supervisora Claire (Nicole Kidman), pelo qual tem um amor não declarado, e os parceiros Jess (Julia Roberts), Bumpy (Dean Norris) e Siefert (Michael Kelly). Simultaneamente, a trama retrocede 13 anos para sabermos o que atingiu este núcleo.

Já no primeiro ato, o mistério é elucidado. 2002 foi um ano sensível para os Estados Unidos, com o país em situação de alerta após os atentados do 11 de setembro. Um assassinato é investigado pela equipe de Ray e revela-se que a vítima foi Kit (Lyndon Smith), a única filha de Jess. O principal suspeito é o jovem Marzin (Joe Cole), que atua como informante em uma mesquita com membros que o FBI julga como terroristas em potencial. Esse fato prejudica o andamento de uma punição, pois uma autoridade da unidade, Martin Morales (Alfred Molina), não quer arruinar a sua reputação como líder de uma operação com a exposição de um colaborador com potencial de psicopata. Daí a narrativa não seguir uma ordem cronológica, pois Ray retorna crente de que encontrou Marzin, que aparentemente se submeteu a uma cirurgia plástica para não ser reconhecido e detido.

As comparações com o original são inevitáveis quando Billy Ray reprisa cenas-chave. O fabuloso plano-sequência de uma perseguição no estádio de futebol é reencenada em “Olhos da Justiça” com cortes e sem a mesma tensão. Também não soma a trilha sonora de Emilio Kauderer, compositor em “O Segredo dos Seus Olhos”. De qualquer modo, Billy Ray, que conseguiu trazer Juan José Campanella a bordo para a produção executiva, acerta nas atualizações e conta com grandes nomes para os papéis principais.

Chiwetel Ejiofor é um ator pelo qual nos envolvemos com facilidade, representando o desejo da audiência em desrespeitar regras de interesse para cumprir o desejo de se fazer justiça. O carisma também é um dos fortes de Dean Norris, que colhe os frutos com a sua participação em “Breaking Bad” com várias propostas para cinema – esteve excelente no também recente “Memórias Secretas”. Por fim, há Nicole Kidman e Julia Roberts, sendo aquelas que mais refletem em cena o peso que o tempo teve para as suas personagens. São também submetidas a momentos de maior densidade, como o da Claire de Nicole no interrogatório com Marzin e a Jess de Julia ao abraçar o corpo sem vida de sua filha em uma caçamba. A sobriedade presente na conclusão surpreendente também colabora para “Olhos da Justiça” deixar uma impressão forte e positiva.

 

Resenha Crítica | Mistress America (2015)

Destacado

Mistress America

Mistress America, de Noah Baumbach

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Hoje um dos principais expoentes do cinema independente americano, Noah Baumbach está mantendo um ritmo de trabalho impressionante. No último ano, nada menos do que quatro projetos com a sua assinatura já chegaram ao público. Além de “Enquanto Somos Jovens”, Baumbach é produtor de “Um Amor a Cada Esquina” e divide com Jake Paltrow a direção do documentário “De Palma”, sobre o extraordinário cineasta de “Scarface” e “Carrie – A Estranha”. O quarto e último projeto é “Mistress America”, que estreia dia 19 de novembro nos cinemas brasileiros e o melhor trabalho desse realizador nascido no Brooklyn.

Mesmo com seguidores fiéis, Baumbach continua sendo desprezado por uma parcela de audiência, talvez incômoda com o painel de figuras nem um pouco modestas com as bagagens intelectuais que carregam e com a amargura que destilam diante da constatação de que estagnaram na vida. As irmãs vividas por Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh em “Margot e o Casamento” parecem usar as frustrações pessoais como combustível para se ferirem e o fracasso sempre ofusca o espírito contagiante de Greta Gerwig em “Frances Ha”.

Em “Mistress America”, Lola Kirke (de “Garota Exemplar” e uma mistura de Elizabeth Olsen com Rashida Jones) e Greta Gerwig descobrem-se meias-irmãs quando a mãe da primeira anuncia que se casará com o pai da segunda. Lola é Tracy, caloura em uma universidade prestigiada de Nova York obstinada em entrar com o seu colega Tony (Matthew Shear) em um rígido clube de leitura. E Greta é Brooke, trintona que se revela uma profissional multifacetada ao atuar em vários campos, mas ainda com dificuldades em seguir uma linha reta para ir até o fim com uma única meta, sendo a da vez a abertura de um restaurante.

Tracy nunca teve a atenção de alguma pessoa que exercesse uma forte influência em suas tomadas de decisões. Brooke vem para não somente preencher esse vazio, como também servir de modelo para a criação de “Mistress America”, o conto com o qual pretende arrebatar as atenções de seus colegas universitários. Porém, a Brooke de sua história não é construída de modo muito lisonjeiro, mas a inevitável revelação disso será apenas uma das várias bombas que irão explodir quando ela decidir retomar um assunto mal resolvido de seu passado.

Explica-se: Brooke ainda guarda ressentimentos de sua ex-melhor amiga, Mamie-Claire (Heather Lind). Brooke não apenas alega que ela roubou a sua ideia próspera de estampas para camisas, como também uma antiga paixão, Dylan (Michael Chernus). Eis que ela vai ao encontro desse agora casal para uma reconciliação e um acordo de viabilização para o seu restaurante.

Longe do aconchego do apartamento de Brooke e do campus universitário que Tracy habita, Noah Baumbach seleciona uma bela casa de vidro como o principal cenário de “Mistress América” a partir do segundo ato. E é nela que o filme, que já estava excelente, atinge um estado de graça irretocável, introduzindo ainda outros personagens secundários, como a namorada controladora de Dylan, Nicolette (Jasmine Cephas Jones), Harold (Dean Wareham), o vizinho bisbilhoteiro, e a amiga gestante de Mamie-Claire, Karen (Cindy Cheung).

Nunca se viu Noah Baumbach tão certeiro na mise-en-scène e nos diálogos, estes também assinados por Greta Gerwig e disparados como balas de uma metralhadora. E é exatamente aí que “Mistress America” vai deixando um gosto amargo. É um filme tão sincero e espontâneo em suas intenções que 84 minutos de duração parecem insuficientes. O desejo é o de ficar acompanhando esses personagens instáveis o dia inteiro.

Resenha Crítica | A Bruxa (2015)

Destacado

A Bruxa (The Witch)

The Witch, de Robert Eggers

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

“A Bruxa” tem provocado alvoroço desde a sua passagem pela última edição do Sundance Film Festival. Saindo desse festival de cinema independente com o prêmio de Melhor Direção, Robert Eggers vem sendo considerado uma grande promessa. As expectativas foram ampliadas com o material da produção sendo cuidadosamente divulgado e com o acúmulo de novas críticas positivas com as exibições no Festival de Toronto.

Tendo o brasileiro Rodrigo Teixeira como um dos produtores, “A Bruxa” assegurou exibições na 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo antes de seu lançamento comercial no Brasil e no mundo, programado para fevereiro de 2016. Foi um dos filmes mais disputados em toda a programação e a expectativa era de ver o terror mais assustador entre os mais recentes que vieram a público. A verdade é que o resultado não foi uma unanimidade, ainda que uma grande fatia tenha celebrado “A Bruxa” com o mesmo entusiasmo da imprensa internacional.

A competência técnica é inquestionável, assegurando a atmosfera de misticismo que cerca e amedronta Thomasin (Anya Taylor-Joy), a protagonista de “A Bruxa”, uma jovem que muda com a família para uma fazenda próxima a uma floresta obscura por desrespeitarem os preceitos de uma aldeia religiosa. Estamos na Nova Inglaterra do século XVII e o isolamento é o pior temor que Thomasin, os seus pais (Ralph Ineson e Kate Dickie) e irmãos (Harvey Scrimshaw, Lucas Dawson e Ellie Grainger) poderiam vivenciar.

Pior do que as plantações que não prosperam e o inverno rigoroso é o mal que parece enraizado no ambiente, que rapidamente causa o desaparecimento do caçula desta família, um recém-nascido capturado e morto por uma bruxa. Thomasin era a responsável pela sua guarda quando o bebê lhe foi tomado, mas, não tendo visto nada, deduz se tratar de um lobo. Mas eis que novos eventos se manifestam e todos os dedos são apontados para a inocente Thomasin.

Bruxaria, magia negra e possessão são alguns dos fenômenos principais da narrativa de “A Bruxa”, roteirizado a partir de lendas do mesmo período que recria. Era um contexto de uma sociedade movida por superstições e com verdadeiras caças às bruxas. Robert Eggers encontrou grande potencial no material, tendo respeitado inclusive o inglês agora antiquado das figuras representadas por Thomasin e sua família.

Mesmo fazendo bom uso de paisagens mortas, de uma música de Mark Korven que acentua o horror e de imagens que geram um desconforto antecipado (como o do impotente bode preto que aparentemente se comunica com os irmãos gêmeos interpretados por Dawson e Grainger), existe em “A Bruxa” a exploração não muito convincente dos credos como uma repressão, como uma impotência para confrontar os perigos que se materializam. É como se chegássemos ao final de “A Bruxa” sem acreditar integralmente no dilema entre prosseguir com as amarras da fé e a liberdade advinda do nefasto.

Resenha Crítica | Magical Girl, A Garota de Fogo (2014)

Destacado

Magical Girl, A Garota de Fogo (Magical Girl)

Magical Girl, de Carlos Vermut

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Com apenas 35 anos, o espanhol Carlos Vermut até então era reconhecido como ilustrador e autor premiado de graphic novels. Desde 2009, estudou uma mudança de carreira com a realização dos curtas “Michirones”, “Maquetas” e “Don Pepe Popi”, bem como o longa “Diamond Flash”. Se não obteve com eles grande visibilidade, Carlos Vermut consegue com “Magical Girl, A Garota de Fogo” provar o extremo domínio que possui da linguagem cinematográfica.

Neste thriller recheado de reações desconcertantes, quando não extremas, há tudo que dignifica um grande filme. Desde o princípio, Carlos Vermut estabelece uma relação de cumplicidade com o público ao confiar em sua inteligência. Portanto, em “Magical Girl, A Garota de Fogo”, nós vemos o que é preciso ser visto, enquanto as lacunas são preenchidas com a imaginação que esse quebra-cabeça propõe.

Temos aqui três protagonistas, cada um dominando um dos atos. Aparentemente desconexa, a primeira cena de “Magical Girl, A Garota de Fogo” traz a pequena Bárbara (Marina Andruix) pregando uma peça em seu professor, Damián (José Sacristán). Guarde este momento na memória, pois acompanhamos outro período em que ele será crucial para os minutos finais.

A seguir, acompanhamos o drama de Luis (Luis Bermejo), um professor desempregado de literatura obstinado em realizar os últimos desejos de Alicia (Lucía Pollán), sua filha de 12 anos com leucemia. Os livros vendidos em um sebo não são o suficiente para Luis arrecadar uma boa quantia e comprar o figurino de Yuriko, a protagonista do anime “Magic Girl” a qual Alicia é uma grande admiradora.

As necessidades de Luis se cruzam com a instabilidade de uma já madura Bárbara (Bárbara Lennie, extraordinária e assustadora), que passa os seus dias trancafiada no apartamento de seu marido rico e insensível Alfredo (Israel Elejalde). Uma relação sexual entre os dois dá vazão a uma interação movida por chantagens, depravações e um acerto de contas com um personagem que mudará o rumo de tudo.

Carlos Vermut adota a estrutura de fragmentos para o seu roteiro, sem que necessariamente intervenha na cronologia dos acontecimentos. Isso garante interesse a “Magical Girl, A Garota de Fogo”, que amplia o interesse pela antecipação de ações e que vai além das expectativas não somente com o clímax explosivo, como também com uma conclusão sarcástica que fecha de forma circular este que talvez seja o melhor filme exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Resenha Crítica | A Senhora da Van (2015)

Destacado

A Senhora da Van (The Lady in the Van)

The Lady in the Van, de Nicholas Hytner

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Famoso dramaturgo britânico de 81 anos, Alan Bennett passou ele próprio por uma situação digna de ficção: entre os anos 1970 e 1980, ele abrigou em sua garagem Miss Shepherd, uma senhora que tinha uma van caindo aos pedaços como único lar. Conhecido por “As Loucas do Rei George”, peça de 1991 que três anos depois seria levado aos cinemas pelo então estreante Nicholas Hytner, Alan não poderia deixar de relatar como artista a sua convivência com uma velhinha aparentemente com alguns parafusos a menos.

O resultado é “A Senhora da Van”, antes narrado na BBC Radio 4, transformado em romance e agora encarnado em um longa-metragem. É também Nicholas Hytner que se encarregou em compartilhar essa história no cinema atrás das câmeras, que inicia com Miss Shepherd (Maggie Smith), uma senhora religiosa envolvendo-se em um acidente. Só se houve o barulho da batida de um sujeito contra a sua van e, na sequência, a sua fuga do local e das autoridades.

O destino fez Miss Shepherd estacionar o seu veículo em um bairro cercado de vizinhos que adoram fofocar uns com e sobre os outros. De faixada em faixada, Miss Shepherd acaba estacionando permanentemente na residência Alan Bennett (interpretado por Alex Jennings), ainda em uma fase em que não atingiu o ápice da consagração como autor. Ao mesmo tempo em que respeita o passado de Miss Shepherd (ele parece a última pessoa da Terra curioso em remexer as circunstâncias que a deixaram em um estado tão desolador), Alan entra em conflito consigo mesmo quando vê na situação um belo argumento para a escrita de um novo romance.

É inevitável não pensar em “Philomena” ao avaliar “A Senhora da Van”, pois há uma série de coincidências que os aproximam. Entre os principais, temos a vida de uma idosa voltando a ganhar movimento com o acesso a um homem intelectual e alguns traumas ou perdas que serão revividos para que uma solução seja encontrada.

Lamentavelmente, a sensibilidade de Nicholas Hytner ficou nos tempos de “As Loucuras do Rei George” e “As Bruxas de Salem”, pois a história de “A Senhora da Van” recebe aqui um tratamento descuidado e desinteressado. Sem que os protagonistas sejam submetidos a qualquer processo de envelhecimento, fica difícil acreditar que o convívio entre Alan Bennett e Miss Shepherd tenha durado nada menos que 15 anos. Pesa também a condução em banho-maria, com tiradas tipicamente britânicas e um clímax revelador que não elevam a pulsação de uma história real extraordinária.

Wes Craven e o prazer do medo

Destacado

Wes Craven

Wesley Earl Craven
✰ 2/8/1939
✝ 30/8/2015

.

Os filmes de terror são como um campo de treinamento para a psique. Na vida real, os seres humanos são embalados nas mais frágeis embalagens, ameaçados por eventos reais e às vezes horríveis, como Columbine. Mas a forma narrativa coloca esses medos em uma série gerenciável de eventos. Dá-nos uma maneira de pensar racionalmente sobre os nossos medos.

.

Muito antes da adolescência, inúmeras dúvidas nos cercavam e éramos incapazes de formular as questões certas para saná-las. Temendo a autoridade de nossos pais, estes também com dificuldades em nos ensinar sobre a vida, lançamo-nos a outros subterfúgios, como a troca de confidências com os amigos que brincávamos nas ruas ou com materiais impróprios e proibidos.

De certo modo, o cinema foi o primeiro “objeto” que tive acesso para me oferecer as respostas para uma série de questões, principalmente sobre sexo e o medo. Para compreender o primeiro tema, esperava toda a minha família dormir para ligar a tevê, apertar a tecla mude e assistir aos filmes do Cine Band Privé, atração de filmes eróticos da Rede Bandeirantes que entrava ao ar na madrugada de sábado para domingo. Para compreender o segundo tema, o medo, não era preciso tanto segredo, bastava pedir para as minhas irmãs alugarem filmes de terror ou aguardar pelo TV Terror, programa exibido aos sábados pela RedeTV.

Eu realmente não me importava com as advertências de que aquelas histórias macabras que me fascinavam poderiam me tirar o sono. Como o esperado, em alguns momentos tive muitas dificuldades para dormir, mas era o prazer pelo desconhecido que realmente valia a experiência obscura. Portanto, era natural alguns mascarados ou deformados dos slasher films serem figuras cativas desde a terceira infância. Como Freddy Krueger, o sujeito repleto de queimaduras por todo o corpo que trucidava jovens com uma garra enquanto se viam imersos em seus inconscientes.

Nascido em 2 de agosto nos subúrbios de Cleveland, Ohio, Wes Craven foi um dos cineastas mais devotos ao terror, gênero no qual debutou em 1972 com o cult “Aniversário Macabro”. Excetuando “Música do Coração”, drama convencional estrelado por Meryl Streep, as perturbações de Wes sempre o direcionaram para as narrativas que tinham como combustível o fantástico ou os crimes em série. Na maioria das vezes, muito atento ao cenário em que estava inserido. Os vilões de “Quadrilha de Sádicos” são mutações de uma sociedade alienada pela guerra e os personagens de “A Hora do Pesadelo” estão às voltas com as consequências de abraçar as libertinagens de uma juventude com os hormônios em ebulição.

Se tudo isso não fosse o suficiente, Wes Craven ainda ousou ao rever o legado que deixou com todas as suas obras máximas. Brincou com a metalinguagem em “O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger” quando a franquia tinha entrado em declínio e ressuscitou o gênero que o formou com “Pânico”, produção que inaugurou um novo ciclo de produções de terror. Também foi brilhante com títulos sem grande repercussão, como “Benção Mortal” e “A Maldição dos Mortos-Vivos”, e ainda proporcionou um divertimento honesto até mesmo em seus piores trabalhos – como não recordar da cabeça da veterana Anne Ramsey explodindo ao ser atingida por uma bola de basquete em “A Maldição de Samantha”?

Mesmo diagnosticado com um câncer cerebral e sem um novo projeto assegurado como diretor, Wes Craven continuou ativo até o seu último suspiro, atuando como produtor executivo da versão em série de tevê de “Pânico” e de mais dois longas-metragens em fase de pós-produção, “The Girl in the Photographs” e “Home”. Prestou uma contribuição exemplar para o gênero, como quase nenhum outro o fez, ao elevá-lo como um canal para identificarmos todos os nossos temores internos e externos e finalmente enfrentá-los, mesmo a principio com as luzes acessas. No fim de sua existência, Wes Craven finalmente pode repousar sem que nenhuma alegoria monstruosa o perturbe.

.

5 filmes essenciais de Wes Craven:

– Quadrilha de Sádicos, 1977
Benção Mortal, 1981
– O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, 1994
Pânico, 1996
Pânico 4, 2011

Resenha Crítica | Que Horas Ela Volta? (2015)

Destacado

Que Horas Ela Volta?

Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

As empregadas domésticas vivaram um alvo de interesse na ficção brasileira, especialmente com a conquista de leis trabalhistas que surgiram para favorecer uma profissão até então isenta dos mesmos direitos de outros empregados com registro em carteira.  Porém, o ponto de interesse está em como a relação entre uma patroa e a sua empregada reflete um país atingido por contrastes sociais, pelas posições de autoridade e de subordinação.

Em “Que Horas Ela Volta?”, temos duas mulheres que ilustram essas divergências. De um lado, temos Val (Regina Casé), há anos uma empregada doméstica em uma casa situada no Morumbi e longe de sua única filha, Jéssica (Camila Márdila). Do outro, há Bárbara (Karine Teles), mãe de Fábio (Michel Joelsas) e a figura que exerce poder em um território cuja figura masculina, o marido Carlos (Lourenço Mutarelli), é desmotivada, passiva.

Com a vinda de uma já adolescente Jéssica pedindo abrigo para estudar para um vestibular de arquitetura em São Paulo, “Que Horas Ela Volta?” passa a dar contorno mais fortes nas linhas que separam os universos de Val e Bárbara. É Jéssica que irá ultrapassar as barreiras imaginárias deste convívio: as acomodações, os ambientes de estar, os produtos alimentares, o servir e o ser servida.

Diretora extremamente habilidosa ao confinar as suas histórias em um único cenário, como se viu em “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”, Anna Muylaert cria planos minuciosos para estabelecer essa divisão. Nas cenas de jantares, temos somente um olhar parcial da família reunida à mesa, pois há à direita a parede da cozinha e à esquerda temos a porta, a passagem para Val transitar entre os dois cômodos.

Essa perspectiva sobre o direito de pertencimento a determinados ambientes pela posição social é extremamente original e “Que Horas Ela Volta?” se permite a questionar sobre como elas determinam as funções que exercemos em um tabuleiro – aparentemente ingênua, o momento em que Val “descasa” um conjunto de xícaras é uma representação de nosso status quo. Sem a necessidade de fazer discursos que caricaturam os seus personagens, Anna Muylaert faz um belo alerta sobre algumas posturas ainda enraizadas em nossa cultura e ainda explora o tema da maternidade com muita ternura. É, sem dúvida alguma, um forte representante ao título de melhor filme nacional deste ano.

Publicamos nesta semana uma conversa com a diretora e roteirista Anna Muylaert.  Para conferir, basta clicar aqui.

Resenha Crítica | Strangerland (2015)

Destacado

Strangerland, de Kim Farrant

Habitada por um calor que não dá trégua, animais peçonhentos bizarros e paisagens desoladoras, a Austrália sempre se mostrou um cenário perfeito para a encenação de histórias que buscam desvendar o instinto humano, as desigualdades de uma sociedade e o quanto a nossa pequenez é capaz de devastar todo um território. Portanto, “Strangerland”, “terra estranha”, não é um nome genérico para batizar a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem.

Temos aqui uma história que se (des)constrói a partir de um desaparecimento, com contornos muito distintos aos de “Um Grito no Escuro”, um aussie drama com Meryl Streep e Sam Neill sempre rememorado quando se fala do que é produzido na terra dos cangurus. Matthew e Catherine Parker (Joseph Fiennes e Nicole Kidman) são os pais de Tommy e Lilly (Nicholas Hamilton e Maddison Brown), ambos às voltas com as descobertas nem sempre agradáveis da adolescência.

O histórico dos Parker foi para a lama assim que o relacionamento de Lilly com o seu professor veio à tona, com este quase morrendo pelas mãos de Matthew. Restou a eles a mudança para uma cidade insossa, com fácil acesso a uma série de regiões desérticas e montanhosas. A dinâmica familiar se dissipou e o sentimento, como bem aponta Lilly, é a de que cada um vive encarcerado.

Fica evidente que algo está errado com cada membro desta família quando Catherine acorda em um dia como qualquer outro sem que os filhos estejam na cama. Eles não foram à escola e todos os vizinhos afirmam que não os viram durante o período matutino. Matthew viu que ambos pularam a cerca do quintal durante a madrugada, mas nada fez para impedi-los a abandonarem o lar. Vem literalmente a tempestade de areia, um anúncio das tragédias que vão testar o casal.

Nem um pouco satisfeito em acompanhar as investigações sobre o desaparecimento pelo detetive David (interpretado por Hugo Weaving), a dupla de roteiristas Fiona Seres e Michael Kinirons insere algumas insinuações sobre o caráter de cada personagem. Se David é capaz de eliminar evidências que podem comprometer Burtie (Meyne Wyatt ) o filho de sua namorada (Lisa Flanagan), o que esperar dos Parker? A truculência ou completa passividade de Matthew importunam e alguns comportamentos de Catherine a denunciam como uma versão adulta de Lilly, uma jovem de 15 anos preenchida por uma libido incontrolável.

Quase ninguém parece saber exatamente o que está fazendo em “Strangerland”, uma vez que Kim Farrant farta a todos com inúmeras sugestões que só tornam penosa uma experiência que quase totaliza duas horas de duração. As belas panorâmicas captadas pelo diretor de fotografia P.J. Dillon não têm qualquer ressonância em uma narrativa que sequer se soluciona entre quatro paredes e há até mesmo flertes com misticismos locais para incrementar a história. Resta o grito desesperador de Nicole Kidman que ecoa na penumbra da terra estranha, implorando por uma resolução que se desenha do modo mais insatisfatório possível.

Resenha Crítica | Grace de Mônaco (2014)

Destacado

Grace: A Princesa de Mônaco | Grace of Monaco

Grace of Monaco, de Olivier Dahan

A mesmo tempo em que Grace Kelly recebeu o Oscar de Melhor Atriz por “Amar é Sofrer” em 1955, o príncipe Rainier Louis veio ao seu encontro em uma edição do Festival de Cannes. A informalidade da aproximação se transformou em uma união no ano seguinte que mudaria totalmente as prioridades de Grace Kelly. Os conflitos entre o seu marido com o presidente francês Charles de Gaulle eram intensos e a luta das gerações passadas em manter o principado independente ameaçava chegar a um fim indesejado.

Com a união de uma das maiores divas do cinema com o príncipe Rainier III, muitos afirmaram que Grace se aproximara daquilo que pode ser chamado de um conto de fadas sendo materializado na vida real. Ao contrário do que a ficção insiste, o final feliz não existe e o recorte da vida de Grace Kelly feito pelo roteirista Arash Amel para “Grace: A Princesa de Mônaco” é a comprovação dessa desilusão.

Desde que foi escolhida em “Os Outros” para viver a personagem Grace Stewart (junção do nome e sobrenome dos astros de “Janela Indiscreta”, Grace Kelly e James Stewart), ficou evidente que seria uma mera questão de tempo para que Nicole Kidman fosse a primeira escolhida para interpretar nos cinemas a musa de Alfred Hitchcock. No entanto, “Grace: A Princesa de Mônaco” não se comporta como uma cinebiografia. A Grace Kelly aqui é vista em seu momento de maior crise, este que não depende da delineação de seu passado artístico ou de seu futuro trágico no acidente automobilístico que resumiu sua existência.

O modo glorioso como Grace Kelly encerra sua participação em “Ladrão de Casaca” é também o seu último ato como intérprete. Bem, ao menos no cinema, como compreende Olivier Dahan, o diretor de “Grace: A Princiesa de Mônaco”. Tentada por Hitchcock (interpretado por Roger Ashton-Griffiths) a retomar sua carreira como a protagonista de “Marnie – Confissões de Uma Ladra”, Grace se vê presa em tempo integral no papel de princesa de Mônaco. Acertar a oferta de Hitchcock confirmaria os boatos da imprensa de que o seu casamento com Rainier III (Tim Roth) estaria em crise, bem como o seu descaso com os assuntos políticos de Mônaco.

Conselheiro de Grace, o padre Francis Tucker (Frank Langella) diz que esta é a deixa para ela exercer o papel de mãe carinhosa, de esposa devota e de mulher engajada em causas humanitárias. O papel mais desafiador do que qualquer um daqueles que representou no cinema e na tevê. O papel de sua vida. Teria Grace Kelly jogo de cintura para sustentar esta personagem para o resto de sua vida? Conseguiria preencher com convicção cada um de seus discursos? Os sacrifícios para manter sua família valeriam a pena?

Já tendo encenado de modo muito irregular a história da cantora Edith Piaf, Olivier Dahan mostra progresso como cineasta em “Grace: A Princesa de Mônaco”, mas lhe falta sutileza ao transformar este período tão tumultuado para Grace Kelly em um drama de proporções cinematográficas. A atmosfera de thriller de espionagem (supõe-se que a privacidade de Grace Kelly e Rainier III era acompanhada à distância por Charles de Gaulle) não ganham tanta ressonância diante do apego de Dahan pelos frufrus de sua mise-en-scène. Nem mesmo a presença de Paz Vega como Maria Callas confere alguma densidade ao filme.

Melhores são os instantes em que Olivier Dahan e, consequentemente, Nicole Kidman compreendem Grace Kelly incorporando o mito por trás de sua figura pública. É onde a opulência dos closes denunciam que Grace Kelly não está movida unicamente por suas emoções mais verdadeiras, como também por um script que deverá seguir para promover a harmonia entre Mônaco e França e em sua vida conjugal. É uma situação que requer que muitos sentimentos sejam forjados, mas o único que Daham permite que sua autenticidade seja questionada é a de arrependimento.

Resenha Crítica | Expresso do Amanhã (2013)

Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

Snowpiercer, de Joon-Ho Bong 

Ah, se tivéssemos mais filmes como “Expresso do Amanhã” no cinema pipoca… Adaptação de “O Perfuraneve”, história em quadrinhos publicada pela Editora Aleph no ano passado, o filme de Joon-Ho Bong é constituído de tudo o que falta neste cenário atual amontoado de projetos da Marvel: um sentimento genuíno de ameaça, uma fórmula que nos leva a caminhos imprevisíveis e todas as excentricidades que a mídia de origem tem direito.

O perfuraneve abriga os últimos sobreviventes da Terra, tomada por uma era permanente de gelo. Em suas divisões traseiras, o perfuraneve abriga a classe menos favorecida, reduzida à escravidão por uma tropa de soldados que responde às ordens de Mason (Tilda Swinton). Com a situação intolerável, Curtis (Chris Evans) lidera uma rebelião com a intenção de dominar a ponta frontal do perfuraneve.

Com muitos sacrifícios, Curtis, acompanhado por Edgar (Jamie Bell), Tanya (Octavia Spencer), Andrew (Ewen Bremner), Grey (Luke Pasqualino), Minsoo (Song Kang-ho), Yona (Ko Ah-sung), entre outros, descobre que se estabeleceu na estrutura vertical uma nova sociedade dividida pelo seu poder aquisitivo, com cada divisão sendo adornada por luxos e privilégios superiores ao anterior. Assim como há também um “deus” representado por um indivíduo enclausurado na cabine de controle.

Realizador de “Memórias de Um Assassino”, “O Hospedeiro” e “Mother – A Busca Pela Verdade”, Joon-Ho Bong faz o seu primeiro filme falado em inglês sem em nenhum momento ceder as convenções da indústria americana. Além das filmagens em um estúdio da República Checa, seu elenco é formado por intérpretes de várias nacionalidades e raças, dando credibilidade a sua visão de organização de mundo e de seus habitantes como marionetes de uma força maior.

Claro que os irmãos Weinstein (sempre eles) não compreenderam o potencial de “Expresso do Amanhã”, adquirindo os direitos de distribuição no mercado internacional com sugestões de mudanças, como a extração de 20 minutos de material do corte final e a adição de monólogos. Joon-Ho Bong bateu o pé, transformando “Expresso do Amanhã” em um sucesso estrondoso na Coreia do Sul e um filme disponível aos americanos somente no circuito de arte e em plataformas de vídeo sob demanda. Um detalhe que não impedirá “Expresso do Amanhã” a atingir o status de cult.