Os Cinco Filmes Prediletos de Marcelo Ferreira

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Marcelo Ferreira, Alta Peliculosidade

Não importa quantos filmes um cinéfilo assiste, sempre haverá uma falta em sua bagagem devido a falta de oportunidades para explorar de modo completo uma cinematografia, uma vanguarda ou um período. Ao menos para cobrir um cinema alternativo contemporâneo, as indicações do Marcelo têm sido de grande valia. É também para exaltar sua paixão por essa linha de obras cinematográficas que ele lançou recentemente o blog Alta Peliculosidade, um espaço que privilegia os filmes que nem sempre recebem o destaque merecido na blogosfera.

Paulista formado em Publicidade e Propaganda, Marcelo acompanha a um bom tempo o Cine Resenhas. As interações através dos comentários neste espaço possibilitou a criação de uma amizade mantida com muito papo sobre cinema, literatura e algumas idas ao cinema. O convite para participar dessa sessão do nosso espaço já tinha sido pensado, mas a inauguração do Alta Peliculosidade foi perfeita para concretizá-lo.

A seguir, temos os cinco filmes prediletos de Marcelo extraídos de uma lista extensa de favoritos. São viagens surreais e emotivas que precisam ser conhecidas.

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Cinema ParadisoCinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore (idem, 1988)

Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que eu vi esse filme num festival de cinema vazio. Nunca mais esqueci da paixão com que Giuseppe Tornatore transmitiu sua história. Dificilmente um cinéfilo não se renda com uma das homenagem ao cinema mais puras da história. Dos inesquecíveis Alfredo e o menino Totó e, claro, da trilha sonora de Ennio Morricone. Foi em Cinema Paradiso também que deixei rolar a primeira lágrima numa sala de cinema. Então me digam: Como não amar esse filme?

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A ComilançaA Comilança, de Marco Ferreri (La grande bouffe, 1973)

A Comilança provavelmente foi a primeira grande crítica em forma de filme que eu assisti. Não entendi muito de imediato e mal comprei a ideia da história em que quatro amigos resolvem realizar um banquete e comer até morrer. Foi mesmo com o tempo que aceitei a proposta do italiano  Marco Ferreri e hoje é um daqueles filmes que mora no meu coração e na minha estante. Há quem diga que o filme é um catálogo do mal gosto, mas sou do time que adotou o fato de que se a obra faz você pensar e refletir, ela já alcançou um feito significativo!

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Estrada PerdidaEstrada Perdida, de David Lynch (Lost Highway, 1997)

Tudo aqui me encanta, me envolve, me destrói, me reconstrói e me quebra novamente. David Lynch, como de costume, ofereceu aquela experiência instigante para sonhar de olhos abertos com direito a cenas assustadoras como aquela de Bill Pullman ligando para Robert Blake. De presente, ainda temos Patrícia Arquette em dose dupla – loura e morena – e uma trilha sonora que vale a pena ouvir de cabo a rabo.

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A AntenaA Antena, de Esteban Sapir (La antena, 2007)

Quem me conhece pelo menos um pouquinho sabe que uma das coisas que mais me atrai é um filme sendo contado de maneira inovadora ou fora daquele convencionalismo que conhecemos. Pode nem ser inédito a forma que Esteban Sapír apresentou esse filme, mas me encantou instantaneamente e em cheio. Não sei se me identifiquei com ele por ser da área de comunicação, mas fiz um paralelo desse filme com nossa própria sociedade e época – o  sistema de repressão a qual somos submetidos, o poder da monopolização, o consumismo e por aí vai.

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Crash - Estranhos PrazeresCrash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg (Crash, 1996)

Antigamente, eu tinha vergonha de dizer que amava este filme, não sei se por medo de ser mal interpretado, mas a história do grupo de pessoas que tinha fetiche por cenários de reconstituição de acidentes parece mesmo coisa de desmiolado. E ficou a cargo de David Cronenberg nos conduziu pelas tortuosidades bizarras do livro J. G Ballard. A adaptação não poderia ter sido dirigida por outro cineasta a não ser esse canadense maluco.

O Cinema de Nicolas Philibert | 11 – 23 de Fevereiro

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Nicolas Philibert

Produzido em 2002, o documentário “Ser e Ter” rendeu ao cineasta francês Nicolas Philibert reconhecimento mundial ao exibir o processo de formação de um grupo de crianças como alunos de uma escola rural. Apesar dos louros, como nomeações ao César e ao Bafta, o restante da filmografia do documentarista permaneceu inédita em alguns países, como o Brasil. Felizmente, os paulistanos poderão ter acesso a oito longas produzidos antes e após “Ser e Ter” a partir de hoje, 11 de fevereiro, no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo.

Nascido no dia 10 de janeiro de 1951 na cidade de Nancy, Nicolas Philibert tem formação em Filosofia, mas o interesse por cinema se manifestou rapidamente, ampliado com a possibilidade de atuar como diretor assistente de Alain  Tanner e René Allio. Após co-dirigir com Gérard Mordillat “A Voz de Seu Mestre”, de 1978, e se envolver com projetos telesivos, Nicolas Philibert registrou em 1990 a sua primeira direção solo de um documentário em longa-metragem com  “A  Cidade  Louvre”.

Indicado ao César 2014 na categoria de Melhor Documentário, “A Estação de Rádio” representa a etapa mais recente da carreira de Nicolas Philibert. Assim como esse longa, todos os demais títulos da programação serão exibidos em 35mm e com legendas eletrônicas em português. Curador da Mostra O Cinema de Nicolas Philibert,  Fábio Savino acredita que esta é uma boa oportunidade de prestar tributo ao documentarista. “Homenagear um cineasta ainda em vida, e em atividade, é sempre importante por proporcionar uma visão contemporânea sobre os acontecimentos”, justifica.

O Cinema de Nicolas Philibert acontecerá até o dia 23 de fevereiro. A programação na íntegra está disponível a seguir, bem como informações sobre alguns dos filmes que serão exibidos e informações para chegar ao endereço. O site do Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo sobre a Mostra pode ser consultado aqui.

.:: PROGRAMAÇÃO ::.

11.02 – QUA 17h O País dos Surdos
19h A Estação de Rádio
12.02 – QUI 17h Ser e Ter
19h Nénette
13.02 – SEX 17h Um Animal, Os Animais
19h A Cidade Louvre
14.02 – SÁB 15h O Mínimo das Coisas
17h A Estação de Rádio
19h De Volta à Normandia
16.02 – SEG 15h A Cidade Louvre
17h Um Animal, Os Animais
18.02 – QUA 17h A Estação de Rádio
19h O Mínimo das Coisas
19.02 – QUI 17h Nénette
19h De Volta à Normandia
20.02 – SEX 17h Ser e Ter
19h O País dos Surdos
21.02 – SÁB 14h30 De Volta à Normandia
17h Um Animal, Os Animais
19h Nénette
22.02 – DOM 15h O Mínimo das Coisas
17h A Cidade Louvre
19h A Estação de Rádio
23.02 – SEG 17h O País dos Surtos
19h Ser e Ter

.:: FICHAS TÉCNICAS E SINOPSES ::.

A Cidade Louvre | La ville Louvre

A Cidade Louvre (La ville Louvre). França | 1990 | Cor | 75 min.
A que se assemelha um museu quando não há público? Na época da reforma do Grande Louvre, o museu revelou bastidores a uma equipe de cinema: penduram-se os quadros, reorganisam-se as salas, os guardas provam seus novos trajes. Pouco a pouco os personagens se multiplicam, cruzam-se para costurar o fio da narrativa. A vida secreta e engraçada de um dos maiores museus do mundo.

O País dos Surdos | Le pays des sourdsO País dos Surdos (Le pays des sourds). França | 1992 | Cor | 95 min.
A que se assemelha o mundo para milhões de pessoas que, desde seu nascimento, vivem no silêncio? Com Jean-Claude, Claire, Florent, Abou, Marie-Hélène e alguns outros, Nicolas Philibert nos faz penetrar e descobrir esse país longínquo, reinado pelos sistemas de comunicação específicos, onde tudo passa pelo olhar e pelo toque.

Um Animal, Os Animais | Un animal, des animauxUm Animal, Os Animais (Un animal, des animaux). França | 1994 | Cor | 57 min.
A galeria de zoologia do Museu Nacional de História Natural esteve fechada ao público desde 1965. Verdadeira arca de Noé, esse museu abrigava exemplos de tudo o que, em nosso planeta, voa, rasteja, nada ou anda. Rodado ao longo de sua renovação, de 1991 a 1994, o filme narra a ressurreição desses estranhos hóspedes e de seu museu. Restaurações de pelagens e plumagens, uma verdadeira renascença.

O Mínimo das Coisas | La Moindre des chosesO Mínimo das Coisas (La Moindre des choses). França | 1996 | Cor | 100 min.
Rodeados por comediantes e músicos, os pensionistas de La Borde preparam uma representação da Opereta, de Gombrowicz. Muito delicadamente, N. Philibert filma essa instituição “diferente das outras”. Nesse lugar, nossa visão sobre a doença muda e o trabalho de cada um se torna tão familiar que aplaudimos com o público as cenas finais da representação.

Ser e Ter | Être et avoirSer e Ter (Être et avoir). França | 2002 | Cor | 105 min.
Documentário sobre um escola na França rural onde os alunos, entre 4 e 11 anos, são todos educados pelo mesmo professor, Sr. Georges Lopez.

De volta à Normandia de Nicolas Philibert | Retour en NormandieDe volta à Normandia de Nicolas Philibert (Retour en Normandie). França | 2007 | Cor/P&B | 113 min.
Em 1975, Nicolas Philibert foi assistente de direção de René Allio em “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”, baseado num crime local descrito em livro pelo filósofo Michel Foucault. Filmado na Normandia, a alguns quilômetros de onde aconteceu o triplo assassinato, o traço mais especial do trabalho de Allio era o fato de que todos os personagens do filme foram interpretados por camponeses da região. Trinta anos depois, Philibert retorna à Normandia para reencontrar estes atores de ocasião, personagens da vida real.

NénetteNénette (idem). França | 2010 | Cor | 70 min.
Nénette acabou de fazer 40 anos. Morando no Jardin des Plantes em Paris, este orangotango é a maior estrela do lugar. Cada dia, ela vê passar centenas de pessoas à frente da sua gaiola, cada um comentando o espetáculo. Mas quem olha para quem?

A Estação do Rádio | La maison de la RádioA Estação do Rádio (La maison de la Rádio). França | 2013 | Cor | 103 min.
Um mergulho no coração da Radio France, descobrindo o que habitualmente escapa aos olhares: os mistérios e as cenas de um meio cuja própria matéria que utiliza (o som) é invisível.

 

.:: SERVIÇO ::.
Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro. Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô
Preços: R$ 4 e R$ 2 (meia)
Classificação indicativa: livre
Informações (11) 3113-3651

Resenha Crítica | O Jogo da Imitação (2014)

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O Jogo da Imitação | The Imitation Game

The Imitation Game, de Morten Tyldum

Finalista em oito categorias do Oscar, entre as quais Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado, “O Jogo da Imitação” é inspirado em dois fatos extraordinários envolvendo a figura de Alan Turing. O primeiro fato corresponde ao desenvolvimento de uma máquina que antecipou as estratégias nazistas ao ponto de encurtar a Segunda Guerra Mundial e que posteriormente se compactou até chegar aos computadores domésticos. O segundo fato foi o risco de lidar com a sua orientação homossexual em uma Inglaterra intolerante.

O norueguês Morten Tyldum é conhecido pelo ótimo thriller “Headhunters” e tudo indicava que ele possuía uma sofisticação europeia que seria muito bem-vinda para a direção de “O Jogo da Imitação”. O que se vê, no entanto, é o trabalho típico de um diretor de aluguel, que jamais ousa carregar as polêmicas de um roteiro mais reprimido que o seu próprio protagonista.

Flashbacks da infância de um Alan Turing vivido por Alex Lawther se alternam com o momento em que este já adulto – e interpretado por Benedict Cumberbatch – é convocado pelo Governo Britânico para integrar uma equipe incumbida de decifrar o Enigma, uma máquina de criptografia usada pelos nazistas para se comunicarem durante a Segunda Guerra Mundial. O montador William Goldenberg também se encarrega de adicionar flashfowards que revelam paulatinamente os últimos anos da vida de Alan Turing.

Em seus melhores momentos, “O Jogo da Imitação” investe na relação inusitada entre Alan Turing e Joan Clarke (Keira Knightley), uma jovem extremamente habilidosa com a resolução de problemas de lógica e que ambiciona um destino diferente de todas as mulheres de sua época. É uma interação que enriquece o personagem central ao ponto dele tornar mais aberta a sua preferência sexual. Também é preciso destacar os dilemas que serão enfrentados quando finalmente o Enigma é emulado pela criação de Turing batizada como Christopher – ou Bomba, na versão real e nada romantizada da história.

No mais, “O Jogo da Imitação” é movido por um formalismo que costuma ganhar muito respaldo de premiações cinematográficas representadas por um grupo de senhores conservadores, mas que pode frustrar o espectador que não tolera firulas. A importância que “O Jogo da Imitação” continha para fazer justiça a um gênio perdido pela ignorância daqueles que de algum modo salvou acaba se perdendo em ironias e no melodrama. Inexpressivo.

Resenha Crítica | Grandes Olhos (2014)

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Grandes Olhos | Big Eyes

Big Eyes, de Tim Burton

A história de Margaret Keane poderia muito bem se encaixar naquele padrão de artistas são reconhecidos tardiamente após uma trajetória brilhante que passou totalmente despercebida ou não valorizada como deveria. Com uma filha pequena, Margaret decidiu fugir do marido abusivo para reconstruir sua vida em outro lugar, levando consigo um portfólio com os seus belos retratos de crianças com olhos negros e ampliados. No entanto, o sucesso de seu trabalho veio de modo inacreditável.

Estamos em uma época em que a sociedade ainda encara a mulher como a dona do lar, com ambições que devem ser preteridas para centrar as suas atenções no bem-estar do marido e dos filhos concebidos com a união. Portanto, é compreensível que Margaret encontre o seu porto seguro em Walter Keane (Christoph Waltz) e se deixe levar pelo seu desejo de ser um pintor celebrado mundialmente, mesmo que isso a faça abrir mão da própria autoria para que Walter leve o crédito pelo seu trabalho.

Ainda que as telas de Margaret confiram as características da pintura expressionista, há elementos que vão ao encontro da estética gótica preservada por Tim Burton em sua filmografia. Portanto, a pintora e o cineasta pareciam formar uma dupla perfeita para dar vida à “Grandes Olhos”, um drama biográfico que se concentra exclusivamente nos conflitos entre Margaret e Walter até o momento em que a polêmica vem a público.

As expectativas denunciavam que Tim Burton voltaria a realizar um filme à lá “Ed Wood”, uma obra que o fez abrir mão de universos fantásticos para conduzir uma história real com encantos mais palpáveis. É admirável a escolha de Tim Burton em sair de sua zona de conforto e oferecer um bom acabamento para uma produção certamente viabilizada com dificuldades (o orçamento foi de apenas 10 milhões de dólares). No entanto, o resultado prova que ele não foi a escolha certa para dar vida ao bom roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander.

Algumas assinaturas de Burton são certeiras, como as cenas em que Margaret vê as pessoas ao seu redor com olhares reprovadores como a de suas crianças melancólicas. Outras são compreensíveis, mas não funcionam. Christoph Waltz é uma delas e os danos quase arruínam “Grandes Olhos”, pois o ator extrapola todos os tons ao se converter em uma caricatura nada sedutora ou amedrontadora. O prejuízo dessa presença inoportuna só não é irreversível porque Amy Adams garante a delicadeza exata para viver Margaret, um modelo que atua como um reflexo crível da mulher de sua época.

Resenha Crítica | Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | Birdman

Birdman, de Alejandro González Iñárritu

Quase como o seu intérprete Michael Keaton, Riggan Thomas era um astro em Hollywood que se consolidou ao viver um super-herói e que agora amarga uma espécie de ostracismo. A razão de seu declínio está na recusa em reprisar Birdman em uma quarta aventura do personagem nos cinemas. Muita coisa rolou desde então: a escassez de ofertas de trabalho, a falta de oportunidade de brilhar em um bom papel, o rompimento com a sua esposa Sylvia (Amy Ryan) e um relacionamento despedaçado com Sam (Emma Stone), sua filha única que acaba de sair de uma clínica de reabilitação.

Quando isolado em seu camarim, Riggan é assolado pela presença de Birdman, herdando aparentemente dele habilidades como flutuar durante uma meditação, apagar as luzes sem apertar a o interruptor, mover objetos e voar em Nova York como um Superman. Mas isso não basta, pois Riggan quer mesmo comprovar o seu talento artístico ao viabilizar uma nova montagem de “What We Talk About When We Talk About Love”, conto de Raymond Carver, na Broadway. Mas será se Riggan triunfará diante dos fantasmas de seu passado o acompanhando? Conseguiria manter o controle de seu co-protagonista, o temperamental Mike (Edward Norton)? Seria esmagado pela crítica da inflexível Tabitha (a extraordinária Lindsay Duncan, em um dos momentos mais brilhantes do filme)?

É estranho ver o nome do mexicano Alejandro González Iñárritu associado a um projeto como “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, uma comédia nervosa que nada se assimila com os seus dramas-corais (“21 Gramas”, “Babel”) e as relatos de indivíduos menos favorecidos (“Amores Brutos”, “Biutiful”). A mudança de ares é totalmente favorável ao cineasta, que mergulha com “Birdman” em um experimento arriscado, mas executado com uma excelência técnica de cair o queixo.

Contando com Chris Haarhoff como operador de Steadicam (a câmera acoplada ao corpo) e fotografia de Emmanuel Lubezki, “Birdman” promove a ilusão para o público de que a narrativa é filmada em um único plano-sequência, resultando em uma transição de intervalos ocultada pela dupla de montadores Douglas Crise e Stephen Mirrione que pouco tempo garante para que o fôlego seja retomado durante os bastidores turbulentos de “What We Talk About When We Talk About Love”. O compositor estreante Antonio Sanchez amplia essa atmosfera de urgência com uma música que se apropria apenas de uma bateria.

Além dos conflitos existenciais do próprio protagonista, há várias interações problemáticas disparadas com a velocidade de uma metralhadora em “Birdman”, como as crises com o produtor Jake (Zach Galifianakis), o fato de Lesley (Naomi Watts) e Mike, ex-namorados, contracenarem nos palcos e as investidas amorosas de Laura (Andrea Riseborough), a atriz que fecha o quarteto central de “What We Talk About When We Talk About Love”. São muitos temas para serem processados simultaneamente em uma estrutura raivosa e talvez por isso “Birdman” seja excepcional, pois o desejo em revisitá-lo é muito maior em comparação com a maioria das obras que surgiram neste último award season.

Resenha Crítica | A Teoria de Tudo (2014)

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A Teoria de Tudo | The Theory of Everything

The Theory of Everything, de James Marsh

O astrofísico Stephen Hawking é uma dessas figuras reais com uma história que deve ser obrigatoriamente levada aos cinemas. Além de um gênio, como comprova o cargo de diretor no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica (DAMTP) e de fundador do Centro de Cosmologia Teórica (CTC), Hawking é um verdadeiro exemplo de superação. Diagnosticado com a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) quando ainda era jovem, Hawking foi informado por especialistas de que resistiria por somente dois anos, mas sobreviveu aos infortúnios, tendo completado recentemente 73 anos.

Vencedor do Oscar pelo documentário “O Equilibrista”, James Marsh ainda não tinha obtido muita visibilidade como diretor de ficção, como demostram os poucos vistos “The King” (2006) e “Agente C – Dupla Identidade” (2012). Com “A Teoria de Tudo”, o britânico atinge uma nova etapa na carreira, embora não convertida em uma nomeação ao Oscar, premiação na qual o drama aparece em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora.

A primeira hora de “A Teoria de Tudo” é um primor. Todos os elementos que marcaram a vida de Stephen Hawking (Eddie Redmayne, excelente) em sua juventude em Cambridge são retratados com esmero e emoções controladas. As suas pesquisas científicas, convertidas no best seller “Uma Breve História do Tempo”, não são negligenciadas em uma narrativa que prioriza o seu relacionamento  com Jane Wide (Felicity Jones), a garota que desperta a sua atenção em uma festa entre amigos.

Ao contrário do que se espera, “A Teoria de Tudo” não centra as suas atenções na luta de uma doença irreversível nesta etapa de seu roteiro, mas na força que é reunida para enfrentar a adversidade. Portanto, comove a determinação de Jane em preservar o relacionamento com Stephen quando este anuncia a condição que irá limitar drasticamente o seu corpo e que promete resumir a sua existência. O amor opera realizações na vida deste casal, assegurando inclusive a construção de uma família.

Lamentavelmente, o roteirista Anthony McCarten não cobre a perspectiva mais enriquecedora da vida de Stephen Hawking, preferindo se deixar levar pelas memórias publicadas pela verdadeira Jane Wide para construir “A Teoria de Tudo”. O resultado é uma segunda metade em que várias armadilhas emocionais se sobrepõem às qualidades contempladas, uma mudança registrada com a entrada de Jonathan Hellyer Jones (Charlie Cox), um viúvo que dedica a sua vida à igreja e que desenha com Jane e Stephen um triângulo amoroso.

É evidente que um relacionamento como este não perduraria sem arranho, especialmente pelos desejos que precisam ser abdicados para preservá-lo, mas há um tom incômodo de piedade por personagens que se mostravam notáveis justamente pela resistência que externavam para evitá-lo. Restam assim a promessa de um filme realmente notável, os desempenhos de Eddie Redmayne e Felicity Jones e algumas escolhas de um mau gosto indesculpável, como a cena do apanhar de uma caneta.

Os 10 Piores Filmes de 2014

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Durante o ano de 2014, tomamos a decisão de não assistir a certos filmes. Como estamos livres da responsabilidade de veículos que exigem a cobertura completa do que chega ao circuito comercial, algo impossível de realizarmos devido aos compromissos particulares, decidimos passar títulos como “Transformers: A Era da Extinção”, “Vestido Pra Casar” e “Guardiões da Galáxia” com o intento de priorizar o destaque a obras com potencial de surpreender positivamente e que lamentavelmente não recebem o destaque merecido na blogosfera ou mesmo nos veículos mais consagrados.

Ainda assim, assistir a filmes com resultados que nos desagradam é inevitável. Os dez títulos a seguir foram selecionados por uma série de critérios, seja a falta de uma razão que justifique a sua existência como obra fílmica ou de mero entretenimento, as pretensões, as expectativas não correspondidas ou a ausência quase completa de virtudes que justifiquem o tempo que doamos e o valor que pagamos para vê-los. Atentem que há filmes com uma adição, sinal para a leitura da resenhas na íntegra presentes em nosso arquivo.

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Interestelar | Interstellar#01. Interestelar, de Christopher Nolan +

A escolha de “Interestelar” para ocupar o primeiro lugar da lista de piores filmes de 2014 pode soar como uma estratégia para criar uma interação conflituosa com uma maioria que defende o seu apreço por este mais novo filme de Christopher Nolan. Mas o critério de seleção veio de uma constatação básica: quanto maiores as pretensões de um filme, maior poderá ser a queda. Dito isso, é surpreendente a quantidade de alvos imaginados pelo diretor e o quão vacilante ele é ao mirá-los. Sem oferecer uma experiência de imersão em ambientes além do nosso alcance e tolo ao fazer uma costura de questões astrofísicas que se pretende complexa, “Interestelar” ainda falha vergonhosamente quando chega ao momento de efetivar todos os fatores humanos que movem uma premissa fantástica, apresentando um ato final que joga na lata do lixo as motivações pessoais que movem a jornada de Cooper (Matthew McConaughey). O tom lúgubre emanado do órgão de tubo presente na música de Hans Zimmer definitivamente vem bem a calhar.

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Machete Mata |Machete Kills#02. Machete Mata, de Robert Rodriguez

Amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodriguez sempre produziu um cinema que guarda muito proximidade com os métodos autorais do realizador de “Pulp Fiction – Tempos de Violência”. Rodriguez é movido por elementos que regeram o cinema B essencial para a sua formação como cineasta, obtendo sucesso em filmes como “Sin City – A Cidade do Pecado”, “O Mariachi” ou mesmo “Prova Final”. No entanto, há tempos passa batido pela sofisticação, flertando atualmente com o trash de pior qualidade sem mostrar a que veio. Com “Machete Mata”, Rodriguez extrapola todos os limites do tolerável , fazendo aquele que é o seu pior filme – e olha que isso parece impossível em um currículo que contempla “A Pedra Mágica” e o próprio “Machete” original. Embora incorpore o personagem-título, Danny Trejo não passa de palco para o desfile de inúmeros famosos em participações especiais, como Vanessa Hudgens, Charlie Sheen, Antonio Banderas e até mesmo a cantora Lady Gaga. Felizmente, o fracasso comercial deve impedir que “Machete Kills Again… In Space!” seja viabilizado.

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Alemão#03. Alemão, de José Carlos Belmonte +

Responsável por “A Concepção” e “Se Nada Mais Der Certo”, é inegavelmente estranho ver um cineasta alternativo como José Eduardo Belmonte cedendo aos projetos com um apelo mais popular. Se a comédia calcada na chanchada “Billi Pig” foi um dos piores filmes de 2012, “Alemão” atinge o feito de ser o único filme nacional a figurar nesta lista – isto em um ano carente de grandes títulos nacionais produzidos no país. Baseado em uma ideia do produtor Rodrigo Teixeira, “Alemão” reconstrói risivelmente um acontecimento verídico na história recente do Brasil: o processo de pacificação das favelas cariocas. “Alemão” erra em tudo. Os atores se mostram totalmente despreparados para viverem policiais ou traficantes. Cada personagem representa um esteriótipo grosseiro. O roteiro força situações somente para ampliar a tensão que inexiste em um cenário claustrofóbico. A trilha-sonora é estridente e a montagem chega a flertar com a linguagem de videoclipe barato. Que Belmonte tenha mais sucesso em suas próximas empreitadas.

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Uma Aventura Lego | The Lego Movie# 04. Uma Aventura Lego, de Christopher Miller e Phil Lord

Você sabe que uma indústria de cinema passa por uma época de crise criativa quando até mesmo jogos de tabuleiro ou brinquedos infantis se convertem em matéria-prima para a realização de longas-metragens. Peter Berg fez de “Battleship – A Batalha dos Mares” o pior filme de 2012 ao adaptar… Batalha Naval. Agora, é a vez de “Uma Aventura Lego” representar o que de ruim houve no cinema no ano passado ao se inspirar nas peças de plástico para montagem da empresa dinamarquesa Lego. Por incrível que pareça, essa espécie de animação classe Z encontrou o seu público ao lidar de modo banal com mensagens como o quão especial pode ser uma figura taxada como ordinária e o relacionamento entre pai e filho, representado do modo mais deslocado possível em um clímax com a participação de Will Farrell. Aos menos impacientes, a explosão extravagante de cores e a repetição insuportável da canção “Tudo é Incrível” podem ocasionar um ataque epilético digno do episódio proibido do seriado animado “Pokémon”.

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Eu, Mamãe e os Meninos | Les Garçons et Guillaume, à table!#05. Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Gallienne

Muitos reclamam das premiações americanas por valorizarem obras mais pelo modo que o seu tema reflete a sociedade estadunidense e menos pelo seu mérito artístico, a sua capacidade de atravessar gerações, de realmente marcar a sétima arte – um exemplo que ilustra os resultados do Oscar 2014, em que “Gravidade” foi preterido por “12 Anos de Escravidão”. Os europeus também têm o seu histórico de equívocos e o César talvez tenha cometido o maior deles ao premiar “Eu, Mamãe e os Meninos” nas categorias de Melhor Filme, Melhor Primeiro Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. Guillaume Gallienne (que está muito melhor como Pierre Bergé no médio “Yves Saint Laurent”) revê a sua própria vida para transformar em matéria-prima nesta comédia sobre um sujeito que desde a infância passa por uma crise de identidade, não sabendo definir seu gênero ou mesmo orientação sexual. O próprio Guillaume interpreta a mãe desse protagonista, que vê com maus olhos essa disfuncionalidade que se instaura em sua família. A comédia é uma ferramenta perfeita para inaugurar discussões sobre os efeitos de um comportamento pouco usual do protagonista, mas “Eu, Mamãe o Os Meninos” se empenha mais em encenar os constrangimentos da situação, investindo em cenas de humor nulo, como a sessão com uma massagista ou o exame médico ao se alistar no exército a contragosto.

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Mulheres ao Ataque | The Other Woman#06. Mulheres ao Ataque, de Nick Cassavetes

Em 1996, Nick Cassavetes estreou como diretor não apenas prestando uma bela homenagem sua mãe Gena Rowlands em “De Bem com a Vida”, como também ao seu pai John Cassavetes ao investir em um projeto que compreende as características de um cinema independente com um coração enorme. Não há problemas em se desvincular de suas raízes e Nick se mostrou interessado em outras possibilidades a partir de “Um Ato de Coragem”, drama de 2002 protagonizado por Denzel Washington. Com “Mulheres ao Ataque”, Nick força a barra ao trazer um trio feminino histérico que descobre ter um amor em comum: Mark King, bonitão interpretado por Nikolaj Coster-Waldau. O pobre astro dinamarquês se torna alvo de constrangimentos que vão do surgimento de mamas até idas imediatas ao banheiro após o consumo de laxante. É ótimo ver personagens machistas se dando mal, mas as personagens de “Mulheres ao Ataque” apresentam perfis tão imaturos que o ataque parece ferir mesmo é a mulher moderna. Como melhor elogio, Nick Cassavetes fez uma comédia compatível com uma tolice dirigida pelo seu pai chamada “Um Grande Problema”.

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Noé | Noah#07. Noé, de Darren Aronofsky

Mesmo com a badalação de “O Lutador” e “Cisne Negro”, é fato que Darren Aronofsky ainda não conseguiu superar os resultados obtidos com “Réquiem Para um Sonho”, o seu melhor filme. Diante disso, temos com “Noé” um diretor diante de uma crise. Primeiro porque é unânime que o projeto bíblico é uma derrapada embaraçosa em sua breve filmografia. Segundo porque Aronofsky integra com ele um grupo de cineastas corrompidos por estratégias comerciais após estreias independentes triunfantes, a exemplo de David Fincher e Christopher Nolan. Além das escolhas questionáveis (a importância da integridade familiar após uma tragédia de proporções literalmente bíblicas) e o modo canhestro como elas se efetivam (a possibilidade de Deus ser um delírio do protagonista), “Noé” é um filme involuntariamente hilário. Como Matusalém, Anthony Hopkins parece estar interpretando O Mestre dos Magos em uma versão live action de “A Caverna do Dragão”. Os anjos caídos que auxiliam o protagonista soam como Transformers arcaicos. Há ainda Tubalcaim como um vilão caricatural, a surpresa de uma concepção indesejada e a busca desenfreada de Cam por uma mulher para que possa reproduzir. Um verdadeiro freak show.

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Caçadores de Obras-Primas | The Monuments Men#08. Caçadores de Obras-Primas, de George Clooney

A falta de relevância de “Caçadores de Obras-Primas” como obra fílmica foi rediscutida recentemente com a polêmica dos vazamentos de informações sigilosas do estúdio Sony. Entre os e-mails vazados, há um em que George Clooney revela à presidente da Sony Amy Pascal estar com receios de ter decepcionado a todos após a enxurrada de críticas negativas para “Caçadores de Obras-Primas”. Tendo na função de diretor realizado bons filmes como “Boa Noite e Boa Sorte” e “Tudo Pelo Poder”, Clooney tem mesmo de se envergonhar por “Caçadores de Obras-Primas”, um filme que caricatura um episódio verídico na Segunda Guerra Mundial com potencial para render uma encenação poderosa sobre a importância da preservação da arte como documento de uma época. Em uma missão em que quadros e monumentos artísticos são mais importantes que as vidas dos soldados recrutados para resgatá-los, Clooney se entrega totalmente ao nonsense sem qualquer razão.

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Os Mercenários 3 | The Expendables 3#09. Os Mercenários, de Patrick Hughes +

Comprometido com o vazamento na Internet a um mês de sua estreia nos cinemas, “Os Mercenários 3” teve a sua arrecadação na bilheteria americana claramente afetada pelo público amplo que preferiu conferi-lo ilegalmente. Os valores obtidos mundialmente permitiram que Sylvester Stallone não cancelasse o seu desejo em fazer um quarto episódio, mas a verdade é que a franquia chega aqui desgastada. As inclusões de Wesley Snipes, Mel Gibson e Harrison Ford no elenco não ressoam diante do péssimo roteiro que dá a abertura para que nomes jovens entrem em ação. O resultado, ao contrário das aventuras anteriores, é maçante de se acompanhar e não há uma sequência imaginativa entre tiroteios, perseguições e astros de outrora buscando por uma recolocação no gênero.

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Sétimo | Séptimo#10. Sétimo, de Patxi Amezcua

Não há astro argentino mais aclamado no Brasil do que Ricardo Darín. Do recorte exibido aqui do que o seu país produz, uma grande fatia corresponde a obras que levam o seu nome nos créditos. Além de “Sétimo”, tivemos o lançamento comercial de outros dois filmes com o ator em 2014: “O Que Os Homens Falam” e “Relatos Selvagens”. Uma co-produção entre Argentina e Espanha, “Sétimo” traz Darín dividindo a cena com ninguém menos que Belén Rueda, uma musa dos thrillers latino-americanos. A parceria vai por água abaixo em uma trama de sequestro que se dá através de uma brincadeira inocente entre um pai e o seu casal de filhos, pois o cineasta Patxi Amezcua se mostra totalmente incapaz de conferir tensão em uma corrida contra o tempo e, com o roteirista Alejo Flah, prepara aquela que é a revelação mais estapafúrdia para um mistério, isentando de qualquer penalidade os envolvidos pela armação que encurrala o protagonista.

Resenha Crítica | O Crítico (2013)

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O Crítico | El Critico

El crítico, Hernán Guerschuny

A profissão de crítico de cinema pode ser um tanto solitária. Como bem ilustra Víctor Tellez, personagem vivido pelo excelente Rafael Spregelburd, a rotina desse profissional é agitada com a presença em exibições prévias de filmes para a imprensa sem a inclusão do público (as chamadas cabines), com os problemas em exercer uma atividade cada vez menos remunerada e glamorosa e entre as interações intelectualóides com colegas de profissão ou pessoas mais próximas.

Além desses empecilhos, Victor não é uma pessoa fácil. De mal com a vida, o crítico tem problemas de relacionamento (desfez recentemente o namoro com uma mulher que ainda o contata para solicitar ajuda com uma tese), não consegue encontrar um novo apartamento para viver e é pressionado pelo seu editor a ser mais maleável com os filmes – em tom de chacota, ele diz que a última vez que Victor deu “cinco poltronas” para um filme foi há vinte anos, convertendo a novidade em feriado nacional. Somente a sua sobrinha Ágatha (Telma Crisanti) consegue lidar com ele.

A graça de “O Crítico” começa a se manifestar com mais intensidade com a presença de Sofía (Dolores Fonzi), com quem iniciará uma disputa para obter um apartamento por um bom preço em um endereço excelente. Um verdadeiro detrator das comédias românticas, Victor sente que está inserido no gênero ao se aproximar da excêntrica Sofía, uma cleptomaníaca que parece estar cheia de assuntos mal resolvidos.

De uma hora para outra, todos os chavões do gênero comentados com desprezo em suas críticas cinematográficas começam a moldar a relação. Os melhores momentos são aqueles em que Victor se deixa levar por acontecimentos que tanto o irritam, como ver Sofía caminhando ao seu encontro em câmera lenta ou a famosa sequência chamada de clipe, em que um casal faz inúmeras coisas em público com uma música melosa como trilha sonora.

Mesmo que esse esforço em contestar as fórmulas mais manjadas do gênero faça com que o diretor e roteirista estreante Hernán Guerschuny incorra a alguns erros, como um clímax digno de um thriller envolvendo um cineasta outrora detonado por Victor, “O Crítico” consegue ser irresistível e compreende a importância da inverossimilhança como fuga de uma realidade que nem sempre contempla os encantos proporcionados pela sétima arte. Porém, há o endereçamento exclusivo para aqueles que de algum modo se dedicam, através da escrita, a antecipar para o público a valia de um filme.

As 10 Grandes Cenas de Cinema em 2014

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Let it go, let it go
And I’ll rise like the break of dawn
Let it go, let it go
That perfect girl is gone
Here I stand in the light of day
Let the storm rage on
The cold never bothered me anyway

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Mes chers parents, je pars
Je vous aime mais je pars
Vous n’aurez plus d’enfant
Ce soir

Je n’m’enfuis pas, je vole
Comprenez bien: Je vole
Sans fumée, sans alcool
Je vole. Je vole

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The Grand Budapest Hotel Gabelmeister's Peak

Você é o Monsieur Gustave do Grande Hotel Budapeste em Nebelsbad?

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O Passado | Le passé

Se você sente o aroma deste perfume, aperte minha mão, Céline.

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Under the Skin Opening

B-B-Buh- B-B-Buh, B-B-Beh, B-B-Beh, Bah

N-N-Nuh- N-N-Nuh, N-N-Nuh- No. N-N-Nuh

F- Feel- Field, Fill- Filled- Filts, Foil- Failed- Fell, Felds

Pill- Pills, Pall- Nall.

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Antes do Inverno | Avant l'hiver

Mordechai. Stania. Brinia. Stefka. Viktor. Shlomo Malek.

Talvez o tumor que o senhor irá tirar sejam eles.

 

Uma Thurman in Nymphomaniac Vol. 1

Tudo bem se eu mostrar às crianças a cama da prostituição? Afinal, eles têm uma parte nessa história.

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Walt nos Bastidores de Mary Poppins | Saving Mr. Banks

- Tudo bem, Sr.ª Travers. O Sr. Banks ficará bem, prometo.
- Não, não. É só que… Não posso tolerar desenhos animados!

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Are you, are you
Coming to the tree?
Where they strung up a man they say who murdered three
Strange things did happen here
No stranger would it be
If we met at midnight in the hanging tree

 

Mommy Wonderwall

Because maybe

You’re gonna be the one that saves me

And after all

You’re my wonderwall

Resenha Crítica | Antes de Dormir (2014)

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Antes de Dormir | Before I Go to Sleep

Before I Go to Sleep, de Rowan Joffe

Christine (Nicole Kidman) acorda diariamente sem saber o que aconteceu nos últimos anos de sua vida. Ben (Colin Firth), o homem deitado no outro lado da cama, se apresenta como o seu marido. Christine não o reconhece. Ben imediatamente a informa o que se passa: ela foi vítima de um acidente que a deixou com uma doença que a impede de reter na memória tudo o que vivenciou antes de dormir.

Dirigido e roteirizado por Rowan Joffe (de “O Pior dos Pecados”), a trama de “Antes de Dormir” é uma adaptação do romance homônimo de S.J. Watson. Nas páginas, o então escritor estreante usou uma estrutura fascinante para tornar ainda mais densa a amnésia de sua protagonista. Através da sugestão de um médico, o doutor Nasch (vivido no filme por Mark Strong), com quem se encontra em segredo, Christine mantém um diário em que anota todas as descobertas como um modo de fazer com que as suas lembranças sobrevivam no dia seguinte.

Além das novas informações encherem a trama de possibilidades (a revelação de um filho morto, a existência de uma melhor amiga, um passado como escritora), “Antes de Dormir” também questiona a índole de seus personagens a cada instante. Afinal, tudo indica que Christine teve um passado adúltero e Ben e Nasch apresentam boas intenções sempre questionáveis.

No cinema, essa dualidade é preservada e Rowan Joffe atualiza a história ao fazer com que Christine registre as suas confissões e suspeitas em uma câmera digital sempre escondida em um guarda-roupa após o uso. Ajuda o fato de Nicole Kidman e Colin Firth, que voltam a se encontrar como um casal após “Uma Longa Viagem“, serem os intérpretes a representarem as incertezas que rondam seus personagens.

O problema de “Antes de Dormir” é apresentar uma trama promissora que é incapaz de construir uma resolução sequer satisfatória. Talvez deslumbrado pela originalidade da ideia sobre uma mulher amnésica, S.J. Watson não se preocupou em submeter as suas últimas páginas para revisões que apagassem os furos multiplicados a partir do ponto em que o passado de Christine é revelado. Muito menos faz Rowan Joffe, que apenas os reprisa na tela de cinema. Um desperdício.

Resenha Crítica | Para Sempre Alice (2014)

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Para Sempre Alice | Still Alice

Still Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland

Alice Howland (Julianne Moore) comemora os seus 50 anos desfrutando uma felicidade plena. Professora universitária, Alice está muito bem consigo mesma. O seu marido John (Alec Baldwin) passa por uma fase muito próspera em sua profissão e sua filha Anna (Kate Bosworth) está realizada como a esposa de Tom (Hunter Parrish). Charlie (Shane McRae), o filho do meio, é um modelo exemplar de jovem bem-sucedido. O único fato que deixa Alice relativamente intrigada é a escolha profissional de Lydia (Kristen Stewart), a filha mais nova que investe em uma carreira como atriz teatral com um futuro incerto. Isto é patente quando Alice celebra o seu aniversário com a ausência de Lydia. É a peça que resta em uma vida perfeita que começa a desmoronar conforme progride a narrativa de “Para Sempre Alice”.

Sempre em pleno controle de suas faculdades mentais, Alice suspeita que há algo errado consigo mesma ao vacilar durante uma palestra. Porém, é ao se perder durante as suas costumeiras corridas vespertinas que Alice desmorona diante do marido, o que a faz procurar um médico para a realização de uma bateria de exames que confirmam o diagnóstico aguardado: Alzheimer. A doença abate Alice precocemente e o fato dela exercer forte uso de seu intelectual em seu trabalho fará que os danos sejam ainda mais devastadores.

Casados, os diretores Richard Glatzer (abatido pela esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que limita a articulação do corpo) e Wash Westmoreland lidam em “Para Sempre Alice” com um tema que lhe aparentam ser muito caro. Em seus melhores momentos, o filme possibilita uma experiência devastadora, como aquele em que Alice orienta a si mesma em uma gravação a acabar com a própria vida caso atinja um estágio em que seja incapaz de responder a três perguntas básicas e essenciais. Há também a tensão por traz da possibilidade de suas filhas Anna e Lydia contraírem uma doença genética.

Por mais claras que sejam as boas intenções de “Para Sempre Alice”, não há como não desconsiderar a sua falta de relevância como obra fílmica. Primeiro porque “Para Sempre Alice” adota soluções que mais o aproximam de um telefilme do que propriamente um projeto destinado ao cinema. Há também os chavões que tornam didático um drama que deveria arrebatar. É mesmo preciso mostrar Alice se deparando com um xampu guardado equivocadamente na geladeira? E o que dizer das folhas que despencam de um púlpito durante uma palestra motivacional? É certo que o espectador receberá uma recompensa maior caso se disponha a ver (ou rever) “Longe Dela”, um registro sobre o Mal de Alzheimer conduzido com o pulso mais firme de Sarah Polley.

Resenha Crítica | Caminhos da Floresta (2014)

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Caminhos da Floresta | Into the Woods

Into the Woods, de Rob Marshall

Passaram-se gerações e os contos de fadas foram adotando formas distintas de suas origens obscuras. A violência presente em histórias como “Chapeuzinho Vermelho” e “João e Maria” foram totalmente amenizadas para dar espaço a conclusões que valorizassem alguma moral. Agora voltado ao público infantil, os contos de fadas fizeram as meninas acreditarem na existência de um príncipe encantado e os meninos a se imaginarem como heróis destemidos.

A verdade é que a ingenuidade dos contos de fadas, especialmente no tratamento conferido às mulheres, que sempre dependem de um cavalheiro para lhe salvarem do perigo e garantir o felizes para sempre, já não convence uma geração de pequenos que andam perdendo a inocência de modo precoce. Fábrica de transformar a fantasia em realidade (leia-se filmes e atrações de parque temático), a Disney entendeu o recado e anda promovendo uma verdadeira revolução em seu baú de histórias.

Após a animação “Frozen – Uma Aventura Congelante” e “Malévola“, a Disney agora traz o musical da Broadway “Caminhos da Floresta”, lançando um olhar diferente do que conhecemos sobre os contos de fadas. No entanto, ao invés de subverter papéis, “Caminhos da Floresta” se mantém fiel justamente às raízes dos contos que se apropria, muitos antecipando as versões definitivas dos irmãos Grimm.

Há aqui Cinderela (Anna Kendrick) escapando diariamente de um príncipe encantado (Chris Pine), o padeiro e sua mulher (James Corden e Emily Blunt) em busca de uma vaca branca como leite, uma capa vermelha como sangue, um cabelo amarelo como milho e sapatos puros como ouro para desfazer o feitiço de feiura de uma bruxa (Meryl Streep) ao mesmo tempo em que ela promete compensá-los com a possibilidade de gravidez e um lobo (Johnny Depp em participação especial) obstinado em saciar a fome devorando uma menina com capuz vermelho (Lilla Crawford) e a sua avó (Annette Crosbie).

Há mais personagens conhecidos em “Caminhos da Floresta”, como Rapunzel (Mackenzie Mauzy) e o seu príncipe (Billy Magnussen), o pequeno João (Daniel Huttlestone) e sua mãe (Tracey Ullman) que o manda vender a vaca da fazenda e a madrasta de Cinderela (Christine Baranski) com as suas filhas histéricas, Florinda e Lucinda (interpretadas respectivamente por Tammy Blanchard e Lucy Punch). Todos buscando uma maneira de realizar os seus desejos particulares em uma floresta que será palco de encontros e desencontros, felicidades e tragédias.

Coreografo notável, Rob Marshall atingiu mais sucesso que Baz Luhrmann (“Moulin Rouge”) ao trazer os musicais para o século XXI com “Chicago”. Desde o feito, foi incapaz de entregar algo à altura, incluindo “Nine“, musical que prometia se equiparar ao seu vencedor do Oscar de Melhor Filme. “Caminhos da Floresta” ainda nos faz ter saudades dos números musicais esplendorosos de “Chicago”, mas traz o cineasta de 54 anos retornando à boa forma.

Embora contorne as linhas mais negras dos contos de fadas, “Caminhos da Floresta” se permite a parodiar com sucesso os seus esteriótipos mais conhecidos. É impossível não gargalhar diante da afetação do número “Agony”, em que os príncipes de Chris Pine e Billy Magnussen externam suas dores de amores em um riacho, bem como os desdobramentos de algumas decisões. Outro acerto está nos diálogos cantados de Stephen Sondheim, garantindo grandes momentos ao elenco, especialmente Meryl Streep, particularmente espetacular em “Stay With Me”.

Com fatalidades que surpreendem pela frieza como são encenadas, “Caminhos da Floresta” é a confirmação dos rumos mais maduros que a Disney tem imposto em seu arsenal de fantasias, podendo influenciar inclusive o aguardado “Cinderela”, dirigido por Kenneth Branagh e com estreia prevista para abril de 2015. Já era hora.

Resenha Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (2014)

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Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1 | The Hunger Games: Mockingjay - Part 1

The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, de Francis Lawrence

Suzanne Collins definitivamente não é uma grande escritora, mas não há dúvidas de que foi certeira nos desenvolvimento dos temas que trabalha na trilogia literária “jogos Vorazes”. A americana se cercou de boas referências ao criar um universo dividido em distritos controlados pelo President Snow (Donald Sutherland), que anualmente promove o massacre que dá título à franquia. Suzanne se apropriou de realities shows e da mitologia grega em busca de um diálogo com uma geração jovem cada vez mais sintonizada à política. O conteúdo é rico e exatamente por isso “Jogos Vorazes: A Esperança” se torna o primeiro filme a não sair prejudicado com uma divisão em duas partes.

A primeira metade do romance “A Esperança” é transposta aqui e há muitos acontecimentos reservados para 20 de novembro de 2015, data em que será lançada a derradeira “Parte 2″. Não há aqui a sensação de que o material foi esticado, um fenômeno que acometeu “Harry Potter” e “Crepúsculo” nos capítulos finais e agora “O Hobbit“, cujo livro relativamente curto foi transformado em uma trilogia com aproximadamente oito horas de duração. Só há dois equívocos originalmente concebidos por Suzanne Collins e lamentavelmente mantidos pelo cineasta Francis Lawrence e os seus roteiristas: a ridícula busca por Prim (Willow Shields) após o seu desaparecimento em um instante de reclusão forçado e um discurso desnecessário de Finnick Odair (Sam Claflin) usado no clímax de “A Esperança – Parte 1″.

Começa exatamente do ponto em que terminou “Em Chamas” essa sequência que substitui o colorido deslumbrante da qual a franquia é notória para um ambiente acinzentado de guerra permanente. Nada mais adequado para ilustrar o Distrito 13, antes dado como destruído e agora em funcionamento para iniciar uma revolução contra o Presidente Snow. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) promoveu involuntariamente uma esperança para mudar o estado das coisas e não estando ciente das suas habilidades de liderança, aceita o convite da Presidente do Distrito 13 Alma Coin (Julianne Moore) para incorporar o Tordo, o símbolo de uma revolução enfim posta em prática por uma maioria oprimida desde a sua existência.

Além de maior ênfase em Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), vértices que formam com Katniss um triângulo amoroso que jamais soa aborrecido, há a entrada importante de Cressida (Natalie Dormer), jovem que abandonou as firulas de Capitol para derrubar Snow. Sua missão é inserir Katniss em campos de batalha e flagrar com câmeras as suas reações mais espontâneas para converter em conteúdo de propaganda política. Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), Beetee (Jeffrey Wright), Boggs (Mahershala Ali), Effie Trinket (Elizabeth Banks, inserida digitalmente após filmar a sua participação isoladamente em estúdio) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) fecham o grupo de principais aliados de Katniss.

Ainda que o principal foco de “A Esperança – Parte 1″ seja o resgate dos vitoriosos em Capitol (incluindo Peeta, capturado por Snow no instante em que Katniss é resgatada pelo Distrito 13 na conclusão de “Em Chamas”), o filme é feliz ao mostrar uma heroína mais vulnerável do que se espera, um reflexo da máxima de que grandes símbolos de revolução nada mais são do que mártires para que aqueles nos bastidores possam exercer plenamente as suas ideologias. Acompanhar as respostas de outros distritos pelo declínio de um totalitarismo rende também grandes momentos, em especial aquele em que a explosão da represa que alimenta a energia de Capitol é embalada por uma canção de Katniss, “A Árvore do Enforcamento”. Que “A Esperança – Parte 2″ venha para cumprir a promessa de ser um encerramento espetacular para a franquia “Jogos Vorazes“.

Resenha Crítica | Relatos Selvagens (2014)

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Relatos Selvagens | Relatos salvajes

Relatos salvajes, de Damián Szifrón

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

No mundo globalizado de hoje, é impossível não vivermos a todo o instante à beira de um ataque de nervos. Qualquer coisa é capaz de provocar o nosso estresse, seja o trânsito, a fila enorme do supermercado, as burocracias dos procedimentos para atendimento ao cliente, o barulho ocasionado pelo vizinho em horário inadequado… Primeiro trabalho de Damián Szifrón a receber lançamento no Brasil, “Relatos Selvagens” é exatamente sobre esses empecilhos do cotidiano que nos fazem rebelar com irracionalidade.

Também autor do roteiro, Damián Szifrón criou seis segmentos que mostram personagens que se comportam dos modos mais inesperados quando a paciência se dissipa. Os passageiros de um voo turbulento que descobrem conhecer uma pessoa em comum é a história que dá o tom ao filme. Não tão inspirado, o próximo segmento mostra uma garçonete (Julieta Zylberberg) revendo um sujeito desprezível (Cesar Bordon) que logo vira alvo de uma cozinheira (Rita Cortese) com passagem pela cadeia.

No quase cartunesco “O Mais Forte”, Leonardo Sbaraglia vive um homem de negócios totalmente deslumbrado com o seu novo Audi, o que o faz inclusive provocar o motorista (Walter Donado) de um Peugeot modesto. A reviravolta é digna de “Encurralado”, de Steven Spielberg, com a diferença que o vilão não tem medo de esconder a própria face. Em “Bombita”, o astro Ricardo Darin é Simon, um engenheiro responsável pela demolição de edifícios que vive um dia de cão a partir do instante que o seu veículo é guinchado pela prefeitura.

Há mais dois relatos selvagens. Em “A Proposta”, os risos fazem um intervalo para acompanhar a teia de manipulações que o milionário Mauricio (Oscar Martinez) se envolve quando tenta livrar a barra de seu filho Santiago (Alan Daicz), que matou uma mulher grávida ao dirigir imprudentemente. “Até que a Morte nos Separe” fecha “Relatos Selvagens” com chave de ouro ao trazer Romina (Erica Rivas) descobrir sobre a infidelidade de seu companheiro Ariel (Diego Gentile) em plena festa de casamento.

Ao contrário do que estamos cansados de testemunhar em nove a cada dez longas-metragens moldados a partir de micro roteiros, “Relatos Selvagens” não apresenta um desequilíbrio de qualidade abissal. Excetuando as resoluções pouco impressionantes dos seguimentos protagonizados por Julieta Zylberberg e Oscar Martinez, Damián Szifrón obtém bons resultados com as suas histórias. O problema está na estrutura. Sem ter um elo mais forte do que as ações selvagens cometidas por cada personagem central, o longa sempre apresenta sinais involuntários de exaustão em meio a explosões de fúria que receberiam melhor destino caso comportados individualmente como curtas-metragens.

Resenha Crítica | Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014)

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Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo | Foxcatcher

Foxcatcher, de Bennett Miller

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

O título nacional é quase um spoiler para o espectador desavisado. Ao menos que se conheça o escândalo protagonizado pelo milionário John du Pont, “Foxcatcher” é um daqueles filmes em que o melhor a ser feito é vê-lo no escuro. No entanto como é “Uma História que Chocou o Mundo”, o público saberá de antemão que algo muito nebuloso acontecerá em algum instante do filme.

Seja como for, conhecer ao menos a premissa não deverá estragar qualquer surpresa. Em boa parte de “Foxcatcher”, é Mark Schultz (Channing Tatum) que se apresenta como o grande protagonista da história. Ainda que se dedique em tempo integral à luta livre, é evidente que Mark se sinta inferiorizado diante de seu irmão mais velho, Dave Schultz (Mark Ruffalo), uma referência no meio olímpico.

Descoberto por John du Pont (Steve Carell), multimilionário filantrópico que o patrocina ao inseri-lo no Time Foxcatcher de luta livre, Mark encontra a oportunidade para ascender, o que o faz partir para uma interatividade de competitividade com Dave. O que torna perigosa a proximidade desses personagens é a ambição de John du Pont em atingir uma glória perdida, algo muito claro diante dos olhares desaprovadores de sua mãe Jean (Vanessa Redgrave), que desejava um herdeiro que desse continuidade ao tradicionalismo da família du Pont.

Premiado em Cannes como Melhor Diretor, Bennett Miller é um cineasta com um estilo clássico de condução. Ainda que o resultado final possa ser frio, sua virtude está na paciência e pleno controle da história. Não há pressa para contá-la e os personagens são beneficiados com a construção plena de seus perfis.

Em “Foxcatcher”, Bennett Miller também continua se mostrando um grande diretor de elenco ao oferecer papéis de uma carga dramática pesada para atores pouco prestigiados quando lidam com gêneros mais densos. É graças a Miller que o saudoso Philip Seymour Hoffman pôde ser realmente levado a sério após viver Truman Capote, figura real que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator. O mesmo aconteceu com Jonah Hill em “O Homem que Mudou o Jogo” e agora com Steve Carell e Channing Tatum – se o primeiro foi nomeado um sucessor de Jim Carrey ao estourar com ‘O Virgem de 40 Anos”, o segundo prova que pode ser mais do que um astro sem personalidade.

Uma vez exaltada todas essas qualidades inquestionáveis, é também preciso dizer que “Foxcatcher” não é o filme irretocável que Bennett Miller promete entregar. Há o respeito a uma estrutura infalível diante do julgamento daqueles que colaboram para a entrada de uma produção em um circuito de premiações, mas o fator humano que determina a relevância de um grande filme parece esquecido em um terceiro ato que não se apropria do potencial psicológico que impulsiona algumas ações drásticas.

Resenha Crítica | Acima das Nuvens (2014)

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Acima das Nuvens | Clouds of Sils Maria

Clouds of Sils Maria, de Olivier Assayas

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo não sendo um grande cineasta, o francês Olivier Assayas é dono de um prestígio que o faz produzir os seus filmes com liberdade, como se vê em títulos como “Depois de Maio”, em que Assayas compartilha uma história que revela muitos elos com as suas experiências particulares da juventude. Em “Acima das Nuvens”, o diretor e roteirista se mostra ousado em uma observação perspicaz sobre as distinções que separam os meios de produção europeia e hollywoodiano.

É impossível não criar associações com “Irma Vep”, o melhor filme de Assayas. Nesta produção de 1996, a chinesa Maggie Cheung é contratada por um cineasta francês temperamental para estrelar a refilmagem de “Os Vampiros”, uma das primeiras produções de horror do cinema a ganhar notoriedade. Em “Acima das Nuvens”, é Juliette Binoche que vive dilemas com a proposta de estrelar a nova versão de uma peça que a alçou à fama.

Em viagem para discursar sobre um prêmio em homenagem a Wilhelm Melchior, Maria Enders (Juliette Binoche) recebe no meio do caminho a notícia de que ele faleceu. Junta de sua assistente Valentine (Kristen Stewart), Maria tenta processar e perda do artista que a revelou com a peça “Maloja Snake” em meio às dificuldades particulares, como um divórcio e as ofertas para voltar a interpretar. Eis que o luto é usado como pretexto para ressuscitar “Maloja Snake” pelas mãos do promissor Klaus (Lars Eidinger), que convida Maria, eternizada por incorporar a jovem Sigrid, para interpretar a antagonista Helena, uma mulher madura e amarga.

Típica estrelinha rebelde de Hollywood, Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz, ainda com dificuldades de lidar com papéis de uma complexidade que não corresponde ao seu talento limitado) é selecionada para viver Sigrid na releitura, o que frustra a vontade de Maria em participar de algo que seja tão bom quanto a versão original. Como todo bom drama metalinguístico, a narrativa recebe direcionamentos imprevisíveis.

Juliette Binoche, que passava por uma fase desapontadora após receber o prêmio de melhor atriz em Cannes por “Cópia Fiel“, é uma atriz que jamais entrega algo abaixo do extraordinário quando está envolvida em um projeto de qualidade. No entanto, é com Kristen Stewart que Binoche atinge os níveis mais altos. A sintonia entre as atrizes é implacável e os conflitos em viver uma Helena com uma identidade que destoa daquela que concebeu em seu íntimo são potencializados quando ambas contracenam juntas.

Mordaz ao reproduzir um verdadeiro embate entre gerações, “Acima das Nuvens” ainda toca em dois temas delicados em debates sobre os rumos que a produção comercial toma. Há um deboche em cima da linha de blockbusters estrelados por Jo-Ann Ellis, de uma precariedade intelectual que faz Maria Enders diminuir ainda mais a jovem intérprete. Outro ponto é como a idade provoca um efeito devastador em grandes talentos, como bem ilustra a cena em que todos os flashes de câmeras fotográficas são voltados unicamente para Jo-Ann Ellis quando ela e Maria saem de um encontro em um bar. Para Maria Enders, resta se dispor a um sistema artístico do qual não tem forças para se rebelar.

Resenha Crítica | Livre (2014)

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Livre | Wild

Wild, de Jean-Marc Vallée

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quem já encarou uma trilha, seja ela breve ou longa, conhece a experiência que ela propicia. Mais do que o contato raro com a natureza em um momento em que acompanhamos a urbanização dos ambientes que nos cercam, há também a introspecção. Encaramos a caminhada que fazemos para atingir o destino almejado como um desafio, como um silêncio para dialogarmos com mais liberdade com o nosso próprio interior.

É muito evidente que foi exatamente por isso que Cheryl Strayed deixou tudo temporariamente para trás ao enfrentar uma trilha de aproximadamente 1.770 quilômetros pela Pacific Crest Trail, totalizando mais de três meses de isolamento. Também é claro que Cheryl acumulou muitos pensamentos e acontecimentos para partilhar, o que resultou em “Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço”, livro já publicado no Brasil com o selo da editora Objetiva. Dirigido por Jean-Marc Vallée após “Clube de Compras Dallas“, “Livre” expande a força da história de Cheryl permitindo que sintamos sua exaustão não somente física, mas também emocional.

O recomeço também acontece para Reese Witherspoon. Excelente atriz, Reese se perdeu totalmente ao definir as suas escolhas profissionais tendo como peso uma estatueta do Oscar obtida com o seu trabalho em “Johnny & June”, drama musical produzido há quase dez anos. Excetuando o bom trabalho como coadjuvante em “Amor Bandido”, o brilho obtido a partir de sua participação em “Eleição” tinha se apagado. Sem artificialismo e vaidade ao interpretar Cheryl, Reese Witherspoon merece voltar ao circuito de premiações.

Na primeira cena de “Livre”, nos deparamos com uma Cheryl no meio de sua jornada e diante de uma situação que pode fazê-la abrir mão de tudo. A seguir, os fragmentos que Martin Pensa e o próprio Jean-Marc Vallée organizam buscam decifrar paulatinamente esta jovem, evidentemente atingida por uma perda drástica que a fez assumir uma série de impulsos inadequados.

Entre cada percalço da trilha, Cheryl rememora um passado presente marcado pela relação com a mãe (a extraordinária Laura Dern, uma atriz que faz valer cada segundo em que aparece), os desentendimentos com o ex-marido (Thomas Sadoski), uma infância de violência com o pai (Jason Newell) e o vício por drogas pesadas em uma fase longa de desolação. Tudo apresentado com uma sintonia pouco vista em narrativas que se arriscam em estabelecer dois tempos para sincronizá-los.

Evitando o erro visto em filmes similares como “Na Natureza Selvagem”, em que o protagonista é involuntariamente reduzido com o realce exacerbado conferido aos personagens secundários, “Livre” se mantém concentrado totalmente em Cheryl, o que garante força à aventura que ela mergulha. Há também o trabalho musical, com canções selecionadas a dedo pelo roteirista Nick Hornby (britânico mais conhecido como o autor dos livros “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”) para embalar os passos de Cheryl, firmes o suficiente para tornar palpáveis as novas possibilidades com o fim de um percurso existencial.

Resenha Crítica | Dois Dias, Uma Noite (2014)

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Dois Dias, Uma Noite | Deux jours, une nuit

Deux jours, une nuit, de Jean-Pierre  Dardenne e Luc Dardenne

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne se tornaram célebres ao realizar obras que investigam as batalhas diárias enfrentadas por indivíduos de classes menos favorecidas, quando não à margem da sociedade. Alguns registros em particular foram importantes para alçá-los a posição de grandes cineastas autorais do cinema mundial, como os vencedores da Palma de Ouro em Cannes “Rosetta” e “A Criança”.

Há quem se comova com as histórias narradas às vezes de modo visceral pelos Dardenne, mas uma análise geral na filmografia dos cineastas revela uma redundância. Mudam-se os personagens e as situações-limite, mas as soluções, os percalços e as conclusões que trazem algum conforto se repetem a cada novo filme. Obviamente, as coisas não são diferentes com “Dois Dias, Uma Noite”, raro exemplar dos Dardenne a sair sem louros do Festival de Cannes.

Como consolo, “Dois Dias, Uma Noite” pode até ser considerado o melhor filme dos irmãos. Marion Cotillard está ótima como Sandra, uma mãe e esposa que precisou se afastar do trabalho em uma fábrica de painéis solares em razão de uma depressão. Preparada para voltar ao batente, ela é surpreendida com uma votação promovida pelo seu chefe Dumont (Baptiste Sornin) que a desligará da instituição. Explica-se: os seus 16 colegas de trabalho deveriam decidir entre manter Sandra trabalhando ou preteri-la para o recebimento de um bônus salarial e uma jornada de trabalho alongada.

Incentivada por Juliette (Catherine Salée), Sandra solicita uma nova votação, pois acredita que o primeiro resultado (somente três pessoas votaram por sua permanência) foi influenciado por Dumont. Com a resposta positiva para a sua solicitação, Sandra começa a visitar cada um de seus colegas com a motivação se convencê-los a abrir mão do bônus salarial para que possa continuar trabalhando. É claro que os Dardenne não poderiam reprisar aquilo em que são mais notórios: transformar a jornada em formato “de porta em porta” em uma verdadeira via-crúcis.

É singular o modo como “Dois Dias, Uma Noite” reflete sobre a devastação causada por uma sociedade capitalista, desta vez com as lentes de aproximação voltadas ao sistema do mercado de trabalho. Claro que muitos se mostram solidários a uma Sandra que a cada visita recorre aos antidepressivos para se manter em pé, mas o dinheiro sempre fala mais alto e as boas intenções são esquecidas para preservar o individualismo em um cenário que cria pateticamente a noção de um funcionamento em coletivo.

Mesmo com o frio na espinha que o público tem a cada instante que Sandra aborda um colega de trabalho (a decisão de filmar esses encontros em um único plano-sequência comprovam o domínio dos cineastas) e de um clímax que levanta questões sobre dignidade e ética, “Dois Dias, Uma Noite” lamentavelmente se sustenta com muitas muletas. A passividade de Manu (Fabrizio Rongione), marido de Sandra, as explosões de temperamentos e as tomadas de decisões bruscas de personagens secundários empobrecem um filme que deveria se equiparar à perseverança de sua protagonista.

Resenha Crítica | Grace: A Princesa de Mônaco (2014)

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Grace: A Princesa de Mônaco | Grace of Monaco

Grace of Monaco, de Olivier Dahan

A mesmo tempo em que Grace Kelly recebeu o Oscar de Melhor Atriz por “Amar é Sofrer” em 1955, o príncipe Rainier Louis veio ao seu encontro em uma edição do Festival de Cannes. A informalidade da aproximação se transformou em uma união no ano seguinte que mudaria totalmente as prioridades de Grace Kelly. Os conflitos entre o seu marido com o presidente francês Charles de Gaulle eram intensos e a luta das gerações passadas em manter o principado independente ameaçava chegar a um fim indesejado.

Com a união de uma das maiores divas do cinema com o príncipe Rainier III, muitos afirmaram que Grace se aproximara daquilo que pode ser chamado de um conto de fadas sendo materializado na vida real. Ao contrário do que a ficção insiste, o final feliz não existe e o recorte da vida de Grace Kelly feito pelo roteirista Arash Amel para “Grace: A Princesa de Mônaco” é a comprovação dessa desilusão.

Desde que foi escolhida em “Os Outros” para viver a personagem Grace Stewart (junção do nome e sobrenome dos astros de “Janela Indiscreta”, Grace Kelly e James Stewart), ficou evidente que seria uma mera questão de tempo para que Nicole Kidman fosse a primeira escolhida para interpretar nos cinemas a musa de Alfred Hitchcock. No entanto, “Grace: A Princesa de Mônaco” não se comporta como uma cinebiografia. A Grace Kelly aqui é vista em seu momento de maior crise, este que não depende da delineação de seu passado artístico ou de seu futuro trágico no acidente automobilístico que resumiu sua existência.

O modo glorioso como Grace Kelly encerra sua participação em “Ladrão de Casaca” é também o seu último ato como intérprete. Bem, ao menos no cinema, como compreende Olivier Dahan, o diretor de “Grace: A Princiesa de Mônaco”. Tentada por Hitchcock (interpretado por Roger Ashton-Griffiths) a retomar sua carreira como a protagonista de “Marnie – Confissões de Uma Ladra”, Grace se vê presa em tempo integral no papel de princesa de Mônaco. Acertar a oferta de Hitchcock confirmaria os boatos da imprensa de que o seu casamento com Rainier III (Tim Roth) estaria em crise, bem como o seu descaso com os assuntos políticos de Mônaco.

Conselheiro de Grace, o padre Francis Tucker (Frank Langella) diz que esta é a deixa para ela exercer o papel de mãe carinhosa, de esposa devota e de mulher engajada em causas humanitárias. O papel mais desafiador do que qualquer um daqueles que representou no cinema e na tevê. O papel de sua vida. Teria Grace Kelly jogo de cintura para sustentar esta personagem para o resto de sua vida? Conseguiria preencher com convicção cada um de seus discursos? Os sacrifícios para manter sua família valeriam a pena?

Já tendo encenado de modo muito irregular a história da cantora Edith Piaf, Olivier Dahan mostra progresso como cineasta em “Grace: A Princesa de Mônaco”, mas lhe falta sutileza ao transformar este período tão tumultuado para Grace Kelly em um drama de proporções cinematográficas. A atmosfera de thriller de espionagem (supõe-se que a privacidade de Grace Kelly e Rainier III era acompanhada à distância por Charles de Gaulle) não ganham tanta ressonância diante do apego de Dahan pelos frufrus de sua mise-en-scène. Nem mesmo a presença de Paz Vega como Maria Callas confere alguma densidade ao filme.

Melhores são os instantes em que Olivier Dahan e, consequentemente, Nicole Kidman compreendem Grace Kelly incorporando o mito por trás de sua figura pública. É onde a opulência dos closes denunciam que Grace Kelly não está movida unicamente por suas emoções mais verdadeiras, como também por um script que deverá seguir para promover a harmonia entre Mônaco e França e em sua vida conjugal. É uma situação que requer que muitos sentimentos sejam forjados, mas o único que Daham permite que sua autenticidade seja questionada é a de arrependimento.

Cine Resenhas | 8 Anos

Hoje há duas comemorações. A primeira é o aniversário do Cine Resenhas, que completa oito anos de vida. A segunda é um feito de seu editor, com 1/3 de sua existência dedicando o tempo livre compartilhando nesse espaço as suas impressões sobre cinema.

Entre altos (a popularidade de alguns textos e o aprimoramento desses com o tempo, o ingresso em grupos de cinema) e baixos (alguns períodos de baixo-astral que ameaçaram a continuidade de atualizações da página), chegamos neste episódio marcante de nossa história fortalecidos e com a proposta de uma mudança estética.

A partir das próximas atualizações, tingiremos de preto e branco as ilustrações de nossas publicações. A opção irá ao encontro de uma das intenções de nosso endereço: tratar com a mesma seriedade e sem preconceitos as cinematografias e gêneros que nos disponibilizamos a avaliar.

Agradecemos a todos que têm participado de algum modo por todo esse tempo e que este marco possibilite ao espaço o incentivo a se arriscar em novos formatos atualmente em estudo. Contaremos com a sua visita e leitura.

Resenha Crítica | Sem Pena (2014)

Sem Pena

Sem Pena, de Eugenio Puppo

Embora os Estados Unidos e a China estejam na liderança de países com o maior número de presidiários, o Brasil aparece como o destaque em uma pesquisa nada lisonjeira: trata-se do país com a população carcerária mais cresce no mundo. Em “Sem Pena”, o documentarista Eugenio Puppo busca desvendar o fenômeno com depoimentos que confirmam a precariedade de um sistema penitenciário ainda mais assustador do que aquele do qual temos conhecimento.

Juízes, promotores, advogados, especialistas do sistema de justiça criminal e anônimos com passagem pela cadeia são os personagens selecionados por Eugenio Puppo para darem depoimentos que constroem um panorama sobre como a justiça é aplicada em um país marcado pela desigualdade. Penitências iguais são aplicadas para criminosos que executaram ações com distinções gritantes e o enclausuramento que deveria funcionar como uma “reeducação” para um preso um dia ser reintegrado na sociedade acaba por agir de modo inverso.

Sem exibir a face daqueles que descrevem a deficiência de nosso sistema, Eugenio Puppo promove uma experiência quase sensorial ao apresentar fragmentos do estado degradante das penitenciárias intercalados com alguns flagras reveladores, como o de uma senhora que responde pelo crime de tráfico ao ter um pacote com uma substância ilícita encontrado em frente a sua residência. Revela com isso o preconceito por trás da reclusão de uma classe desfavorecida, o que, como bem dito através de um entrevistado, se configura em uma “faculdade” bancada pela população em que o preso não se reconstrói, mas sim aprende a como se manter através da criminalidade.

Resenha Crítica | No Limite do Amanhã (2014)

No Limite do Amanhã | Edge of Tomorrow

Edge of Tomorrow, de Doug Liman

Polêmicas de práticas ligadas à Cientologia a parte, a verdade é que não há um ator que esteja mais confortável no papel de astro que Tom Cruise. O cinquentão traçou o caminho de sucesso quase sem tropeços: encarou papéis juvenis com expressividade, comprovou que era um intérprete sério ao aceitar propostas que lhe garantiram prêmios (ele acumula três indicações ao Oscar) e é o principal chamariz de blockbusters, como a franquia “Missão: Impossível”.

O problema do Tom Cruise que acompanhamos nos últimos dez anos foi certa preguiça na composição de um personagem, o que permitiu a impressão de que não havia apenas a repetição de nomes (Cruise incorporou dois Jack em sequência – em “Jack Reacher: O Último Tiro” e “Oblivion”), mas também a de trejeitos. Ainda bem, o Tom Cruise de “No Limite do Amanhã” parece renovado, embora o público não tenha sido expressivo para assistir a esse grande filme de Doug Liman, talvez a melhor coisa produzida pelo cinema pipoca em 2014.

Assinada por Hiroshi Sakurazaka, a novela “All You Need Is Kill” é adaptada pelo trio de roteiristas Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth. Na trama, Cage (Cruise) é um oficial militar jogado involuntariamente em um campo de batalha em que soldados são eliminados em questão de minutos por criaturas de outro planeta. Ao ser atingido por uma delas, Cage recebe o dom de retroceder o dia assim que é morto em conflito. Sendo esse fato ignorado solenemente pelos seus colegas, Cage recorre à Rita (Emily Blunt), líder das Forças Especiais que o auxiliará no preparo físico e nas estratégias para vencer o inimigo.

Com montagem brilhante da dupla James Herbert e Laura Jennings, “No Limite do Amanhã” injeta humor e adrenalina nas inúmeras tentativas em que Cage aproveita para tomar as decisões corretas e encerrar um embate entre humanos e alienígenas. Além do mais, o filme se mostra ousado ao abandonar uma estrutura bem-sucedida, preparando com isso um terceiro ato carregado de riscos e surpresas. E por fim, há uma química irretocável entre Tom Cruise e Emily Blunt.