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Resenha Crítica | Terra das Sombras (1993)

Shadowlands“Enquanto isso, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, tão feliz que não tem nenhuma necessidade Dele… e se volta para Ele com gratidão e louvor, é recebido de braços abertos. Mas vá até Ele quando estiver em desespero, quando tudo parece ter sido em vão, e o que encontrará? Uma porta fechada e o barulho de uma tranca sendo passada duas vezes. Depois disso, um silêncio. Você pode ir embora.”
C. S. Lewis – “A Anatomia de Uma Dor”.

Richard Attenborough tem uma notável colaboração para o cinema. Com uma carreira como ator em evolução aos 12 anos (hoje Attenborough tem 85 anos de vida), o seu primeiro passo como cineasta foi dado somente em 1969, com o musical “Oh! Que Bela Guerra”. De lá para cá seguiram-se somente onze títulos e na maioria deles foi dedicados a nomes bem famosos. Mohandas Karamchand Gandhi (“Gandhi”, 1982, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor), Steve Biko (“Um Grito de Liberdade”, 1987), Charles Spencer Chaplin (“Chaplin”, 1992), Ernest Hemingway (“No Amor e na Guerra”, 1996) e Archibald Belaney (“O Guerreiro da Paz”, 1999) são algumas pessoas que de fato existiram e que serviram para Attenborough contar a bela história de vida de cada um deles.

Clive Staples Lewis, o famoso autor de “As Crônicas de Nárnia”, é o personagem central de “Terra das Sombras”, drama baseado em um trecho de sua existência. Talvez seja o melhor filme de Richard Attenborough. E, se não fosse o suficiente, o melhor momento de Anthony Hopkins e Debra Winger em toda a carreira, com Winger recebendo a sua terceira nomeação ao Oscar de melhor atriz. Hopkins, como se imagina, é Lewis. No início da década de 1950 o escritor marca um encontro com Joy Gresham (Debra Winger) após receber uma correspondência descrevendo o grande fascínio dela pelo seu trabalho. Viajando ao seu encontro para a Inglaterra, Joy trás consigo o seu jovem filho Douglas (Joseph Mazzello, conhecido pelos sensíveis “A Cura” e “Pequeno Milagre”).

A intenção de Joy além de conhecer pessoalmente Lewis é ouvir a sua opinião sobre os seus poemas, afinal ela também apresenta aptidão pela escrita. O relacionamento entre eles, que resulta numa bela amizade, flui bem, mas Joy tem que voltar para o seu lar. Só que não demora para ela retornar à Inglaterra com uma proposta para Lewis, que é um casamento. Ela passa por problemas com o marido, extremamente violento e que vive com os vícios do álcool. E viver com Lewis na Inglaterra é um novo recomeço. Mas a princípio eles não se amam. Armam o casamento com Lewis concordando passivamente com as propostas de Joy. Eles não viveram como marido e mulher, somente como bons amigos. O ato da união entre os dois consegue ser até cômico. E o amor aparece e num momento bem delicado, quando Joy é diagnosticada com câncer nos ossos.

O roteiro indicado ao Oscar de William Nicholson, que por sua vez se baseia na encenação teatral de sua própria autoria, segue exatamente a linha deixada pelo verdadeiro C. S. Lewis. E Richard Attenborough tem uma direção primorosa. O cineasta capta sequências com uma sensibilidade comovente e não se esquece do tom que predomina as memórias do protagonista através dos seus relatos pessoas no livro “A Anatomia de Uma Dor”. Através de uma referência curiosa com “As Crônicas de Nárnia”, sendo o guarda-roupa escondido no sótão da casa de Lewis onde o filho de Joy não encontra mágica alguma daquela das aventuras dos irmãos Pevensie, “Terra das Sombras” apresenta o mundo como ele é. Um mundo onde todos passam por alegrias, fé e sonhos, mas também por tristezas, descrença e perdas. E com base nesses sentimentos tão contraditórios, Attenborough molda um filme cuja magnitude é tão infinita que avaliações ou mesmo quaisquer palavras não são capazes de representá-lo.

“Por que amar, se perder machuca tanto? Eu não tenho mais respostas: só a vida que eu vivi. Duas vezes nessa vida eu dei a escolha: como um garoto e como um homem.O garoto escolheu a segurança, o homem o sofrimento. A dor de então faz parte da felicidade de agora. Esse é o acordo.”
– Anthony Hopkins, como Clive Staples Lewis – “Terra das Sombras”.

Título Original: Shadowlands
Ano de Produção: 1993
Direção: Richard Attenborough
Elenco: Anthony Hopkins, Debra Winger, Edward Hardwicke, Joseph Mazzello, Peter Firth e Julian Fellowes.
Nota: 10

16 Comments

  1. Não conhecia este filme, mas, como fã de literatura, adoro películas que falam sobre a vida de grandes atores. Além disso, o Richard Attenborough é mesmo especialista nestas biografias, em filmes que se passam em tempos antigos.

    Bom final de semana!

  2. Que diálogo magnífico este de Hopkins! E o próprio trecho do livro de C.S. Lewis é bem digno. De qualquer forma, estou assumidamente intrigado pelo filme, dada sua resenha e sua nota 10 bem charmosa.

    Ciao!

  3. Kau Kau

    Conheço uns 4 trabalhos de Richard Attenborough. Mas não conheço este Terra das Sombras. VAle lembrar que achei seu texto ótimo e sua nota acende qualquer um, hahahahhaa.

    Ahhhhh, o Matheus me passou o podcast de vcs sobre o Oscar e achei brilhante!!!!

    Abs!

  4. Nunca vi este filme, mas já ouvi falar – e portanto estará na minha lista de prioridades.
    Ah, Alex, eu adorei o podcast de você e dos meninos lá no Blog “A Sala”… Sua voz estava mesmo “Wall-E”, mas tudo bem, você já se defendeu (culpando o microfone)… :-)
    E vocês malharam pouco a Halle Berry!
    Boneca inflável foi ÓTIMO!
    E o botox da Nicole atrapalhou – e muito.
    Abraço!

  5. Olá, Alex! Tudo bem?

    Não ouvi falar deste filme, mas agora irei atrás dele. A premissa me interessou bastante. ;)

    Beijos!

  6. P.S.: Parabens pela resenha inspirada e sua nota. E ainda mais com um trecho do livro de C.S. Lewis. ;)

  7. Eu nunca encontrei esse filme em locadora alguma, realmente é muito complicado. Não sabia que você era tão fã assim de “Terra das Sombras”, certamente foi uma resenha inspirada como a Mayara comentou!

  8. Marcelo Coldfer Marcelo Coldfer

    Não vi esse filme ainda. Lembro-me que ele passou raspando nos cinemas, quase ninguém viu. O que me faz querer ver esse filme é, principalmente sua nota.

  9. Marcelo Coldfer Marcelo Coldfer

    Me enganei Alex.
    O filme que eu disse ter passado raspando nos cinemas foi “Terra de Paixões” de Stephen Frears

  10. Alex Gonçalves Alex Gonçalves

    Kamila, na verdade, o C. S. Lewis era um escritor, não um ator. Bom domingo.

    Wally, não tinha como eu ignorar o trecho de “A Anatomia de Uma Dor” ou menos o diálogo de “Terra das Sombras”. Abraço.

    Anderson, espero que um dia o assista.

    Kau, nem me fale sobre o podcast. Estou traumatizado por causa da voz de Wall-E :( Abraços!

    Weiner, o senhor é muito malvado! Farei alguns testes com o meu microfone antes de me meter num novo podcast, rs. E todos os três foram muito malvados, também! Eu até defendi a Halle Berry, mas o Luciano cortou o meu trecho :( Abraço!

    Mayara, muito obrigado pelos elogios. Escrever uma resenha de um filme tão formidável como este é uma tarefa árdua. Espero ao menos ter conseguido transmitir a minha experiência com “Terra das Sombras”. Beijos!

    Vinícius, você não o encontra pelo simples fato de não existir em DVD :( Depois de muita procura eu encontrei o VHS em excelente estado de conservação e paguei somente R$2,50 por ele. No ato assisti e me emocionei.

    Marcelo, ainda não vi este do Stephen Frears, mas “Terra das Sombras” infelizmente não é um filme que se tornou popular com o tempo. Espero que a lembrança aqui tenha despertado a curiosidade de alguns que passaram e vão passar por aqui.

  11. Alex, vi “Terra das Sombras” há muitos anos, acredito que assim que vou lançado em vídeo. Mas lembro-me perfeitamente do quanto gostei do filme. Já procurei em várias locadoras, mas não o encontrei mais.

    Abração

  12. Alex Gonçalves Alex Gonçalves

    Demas, fico feliz por um dos leitores que comentaram tenha visto o longa. É um filme maravilhoso que deve ser assistido de qualquer maneira. Abraço!

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