Resenha Crítica | O Lutador (2008)

É extremamente comum no cinema hollywoodiano testemunharmos vários intérpretes de incrível talento ter as suas carreiras rapidamente destruídas por escolhas equivocadas tanto na vida profissional quanto pessoal. Mickey Rourke é um entre vários casos existentes. Embora nunca tenha demonstrado em cena um empenho visceral, extraordinário, Rourke conquistou vários espectadores em filmes da década retrasada, como “Coração Satânico”, “9 e ½ Semanas de Amor” e sua ponta em “Corpos Ardentes”. Já nos anos 1990 veio o abismo. O casamento com a sua parceira de cena em “Orquídea Selvagem”, Carré Otis, resultou em denúncia de violência doméstica e acabou abandonando a carreira de ator para investir na de boxeador. É verdade que houve chances de renascimento quando Rourke foi convidado a participar do elenco de apoio de filmes como “Búffalo 66”, “A Promessa” e “Sin City – A Cidade do Pecado”, mas isso definitivamente acontece em “O Lutador”.

Em uma interpretação soberba e que dificilmente devemos testemunhar se repetir em projetos futuros, Rourke é Randy “The Ram” Robinson, personagem que anteriormente passou pelas mãos de Nicolas Cage. Ele foi um dos grandes lutadores na década de 1980 e nos dias atuais faz show nos ringues para um pequeno público, atingindo os seus oponentes e sendo revidado com golpes que vão de socos à pauladas. O limite aparece ao sofrer um ataque cardíaco. Impossibilitado de voltar ao ofício (seu coração não resistiria), resta a Randy trabalhar em um supermercado e reverter a situação de sua vida pessoal destroçada. Ao mesmo tempo que tenta investir em um relacionamento com a stripper Cassidy (Marisa Tomei) tenta reatar aquele que se perdeu no passado com a sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood, sublime).

O segundo roteiro original para cinema de Robert D. Siegel trás como maior triunfo o caminho de Randy rumo à redenção. Há fartos momentos maravilhosos nesta história e Darren Aronofsky, em sua primeira direção não experimental, apresenta um domínio fantástico na condução de câmera e elenco. Mas o filme não atinge um resultado excepcional em todos os momentos por conta de algumas imperfeições no texto de Siegel. A personagem Cassidy, por exemplo, recebe tratamento raso, sendo aquele estereótipo de mulher de “trabalho sujo” sem marido e com filho para criar. Resta a atriz Marisa Tomei, que recebeu a sua terceira nomeação ao Oscar pelo papel e que já vencera o prêmio pela comédia “Meu Primo Vinny“, conferir através da excelência de seu talento dimensão a sua personagem. Quebra-se também o encanto de acompanhar Randy em circunstâncias quando paralelos insistentes aparecem com o ator que o incorpora. Isso não quer dizer que “O Lutador”, com a sua antológica conclusão que certamente povoará a mente do público, não seja um ótimo filme. Só o impede de ser mais do que isto.

Título Original: The Wrestler
Ano de Produção: 2008
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Robert D. Siegel
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry, Wass Stevens e Judah Friedlander

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

25 Comentários em Resenha Crítica | O Lutador (2008)

  1. Alex, eu também gostei de “O Lutador”, acho um filme bem interessante e até emotivo. Só não acho que seja o filme de quinta grandeza que apontam por aí…

  2. Matheus, exatamente! Quinta grandeza é “Dúvida”! :-)

    Kau, seu fraco! Sabia que você não demoraria para voltar com o Bit of Everithing. :D E “O Lutador” entrou no meu Top 10, mas como menção honrosa. :D :D Abraços!

  3. Carissimo Alex, tomei coragem e voltei pro mundo blogueiro depois de muito tempo. E já de cara acho teu blog! HAHAHAHA. Mas, a respeito de “O Lutador”: raras foram as vezes em que eu sai comovido de uma sessão de cinema. Acho que a última vez foi em “Peixe Grande”. Fiquei devastado – no bom sentido – ao ver esse grande filme, com uma atuação irretocável de Rourke depois de muitos anos. Certamente está entre os melhores filmes que vi na vida. E concordo contigo quanto as lacunas do roteiro em relação ao personagem de Marisa Tomei, que conseguiu salva-lo com seu talento. Mas nada disso tira o brilho dessa produção. Grande abraço!

  4. Luiz, fico feliz pelo seu regresso. O endereço de seu blog acaba de ser adicionado ao meu blogroll. Já sobre “O Lutador” eu compreendo perfeitamente essa comoção que o filme trouxe a muitas pessoas. Eu vivia segurando as minhas lágrimas em todas as cenas com o Mickey Rourke e a Evan Rachel Wood, rs. E, na minha opinião, Marisa Tomei merecia uma personagem melhor. Abraços!

    O Cara da Locadora, aquele final é mesmo estupendo! Não esperava que as coisas fossem acontecer daquela maneira. Abraços!

  5. Ao contrário dos outros blogueiros cinéfilos, você não gostou tanto assim de “O Lutador”. Eu quero muito conferir este filme e espero poder fazer isso em breve.

  6. Bom, como vc deve saber, Alex, eu adorei o filme. Se tivesse que fazer uma lista provisória dos dez melhores do ano, por enquanto possivelmente este filme estaria no topo. Não acho que a personagem de Cassidy é mal construída, tem várias sutilezas que conferem a densidade necessária a esta personagem. Creio que não aprofundaram mais a personagem dela, simplesmente porque essa não era a proposta. O mesmo se pode dizer da Stephanie, filha do The Ram. Mas entendo que isso (o não aprofundamento desses personagens) não tenha lhe agradado, talvez a proposta do longa não tenha lhe cativado tanto. Eu daria um pontinho a mais nessa nota. Abraço!

  7. Alex, o fato é que é muito difícil encontrar o roteiro perfeito. Eu concordo com quase tudo que falou e achei que O Lutador é um bom filme, mas talvez não deva ser tão exaltado assim. Os maiores destaques são Rourke e e sua querida Marisa Tomei.

  8. Kamila, sei que outros blogueiros deram a mesma ou quase a mesma avaliação que dei para “O Lutador” (ver Ponto Crítico de fevereiro), mas é um filme que eu recomendo que você assista em breve.

    Bruno, eu sei que você gostou muito do filme, mas ainda tenho que discordar sobre a Cassidy. Para mim o roteiro não difere em nada essa stripper de qualquer outra que já vi nos cinemas (até em “Divas do Blue Iguana” há mulheres mais densas). Se não fosse a Marisa Tomei não sei o que aconteceria. E este é o meu pequeno grande problema com o filme. O filme é do Randy, mas sinto que até ele cai em algumas armadilhas na própria construção. Abraço!

    Robson, é difícil você encontrar alguma coisa perfeita em tudo o que se assiste, mas isto não quer dizer que devo ser mais generoso com um filme se nele consta alguma coisa em seu roteiro que tenha desagradado. E para mim esta é uma obra que vale mais pela paixão do elenco pelo material do que por qualquer outra coisa.

  9. grande filme, atuações inspiradissimas do elenco e puta filme emocionante, achom q deste ano vai ser um dos melhores, mickey rourke resurgindo das cinzas como uma grande phoenix, otimo filme, beirando os 9,5

  10. Olá, Alex! tudo bem?

    Gostei bastante de “O Lutador”. O filme é de Mickey Rourke e mostra muitas partes auto-biográficas. E esta cena na foto é uma das minhas favoritas do filme. Gostei bastante da Evan Rachel Wood, mesmo com pouco tempo em cenas, quando aparece protagoniza uma das cenas mais emocionantes do filme. ;)

    Beijos e tenha uma ótima semana!

  11. Mayara, tudo. Acredito que foi por este “espírito auto-biográfico” a minha razão de não gostar tanto do filme como imaginava. Mas a presença da Evan Rachel Wood é marcante. Ela é uma jovem atriz muito talentosa. Beijos, excelente final de semana!

    Gustavo, não notei tantos clichês no texto, talvez a personagem da Marisa Tomei – e este é um que pesa bastante de forma negativa na hora de julgar o filme.

    Diego, “Gran Torino” é simplesmente sensacional. “O Lutador” fica muito atrás dele…

    Bruno, eu vejo. E muitos.

  12. O LUTADOR é um filme que foi realizado com poucos recursos financeiros, que, por isso, surpreende positivamente, mas ainda assim, não sai da mediania. A sensação que esta película, do diretor Darren Aronofsky (FONTE DA VIDA), deixa é de que a história gira, gira, gira e acaba onde começou, numa mesmice sem fim.

    O roteiro, assinado por Robert D. Siegel, tem semelhanças com filmes como 21 GRAMAS e ROCKY, comprovando uma falta de originalidade na história de O LUTADOR, ainda que amena. O protagonista, otimamente vivido pelo veterano Mickey Rourke (ERA UMA VEZ NO MÉXICO), lida a todo momento tentando se decidir entre morrer com dignidade ou viver sem a mesma.

    Cheio de contrastes, os diálogos são benéficos e contam com produção simplória e fotografia acima da média. Apesar disso, os efeitos visuais são horrendos e deixam muito a desejar. Já a extensa lista de trilha sonora pode ser definida desde batida à excitante. Canções dos Guns N’ Roses e Madonna são apenas algumas das atrações pop do longa.

    SORO: câmera solta; montagem; fotografia; trilha sonora.

    VENENO: efeitos visuais; roteiro.

    NOTA (0 a 5): 3
    ***

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