Resenha Crítica | Milagre em Sta. Anna (2008)

g_32866Embora lida com mais uma história sobre o Holocausto, o espectador já pode esperar por um registro diferente de todos aqueles já concebidos ao mergulharem no drama “Milagre em Sta. Anna”, dirigido por Spike Lee. Trabalhando com o maior orçamento de toda a sua carreira (45 milhões de dólares), o projeto se tornou um fiasco de bilheteria e crítica por duas razões. O primeiro veio com a demissão do empresário de Spike Lee posterior ao fracasso do filme. A segunda, que é muito mais grave, surgiu na época de divulgação do longa, onde Spike Lee teceu um polêmico bate boca com o cineasta Clint Eastwood por conta de seu descontentamento em não ver atores negros presentes em “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”.

Em “Milagre em Sta. Anna”, a trama persegue quatro soldados negros em plena Segunda Guerra Mundial. Mas se trata de um longo flashback, já que o filme se inicia na década de 1980 com Hector Negron (Laz Alonso) assassinando sem razão aparente um senhor presente na fila da agência de correio onde trabalha. Ele só começa a explicar a razão deste crime quando o jovem jornalista Tim Boyle (Joseph Gordon-Levitt) insiste para que ele justifique este ato. Mais do que isto: pede que também entre em detalhes sobre como adquiriu a cabeça de um monumento italiano valioso, encontrado em sua casa na coleta de alguma prova a ser usada em seu julgamento. É deste ponto que o roteiro, adaptado do livro homônimo de James McBride, ganha formas, encenando o confronto dos nazistas contra a Divisão Búfalo, formado somente por soldados negros, em Toscana.

Se é inédito para Spike Lee o cenário que ele habita em “Milagre em Sta. Anna”, as características de seu cinema continuam presentes. A questão do preconceito, claro, é o que mais predomina na narrativa, com soldados sendo desprezados e virando alvo fácil em campo inimigo por causa de etnia. Além do mais, Lee continua construindo sequências fortes, como o farto massacre de soldados norte-americanos e italianos. A trilha singular de Terence Blanchard, constante colaborador do cineasta, eleva o choque. O problema está na metragem. Ao focar as atenções no pequeno e inocente Angelo (Matteo Sciabordi), “Milagre em Sta. Anna” se alonga, ainda que o personagem seja a chave do filme. Mesmo assim, é acima da média, embora o seu próprio realizador precisa rever os seus conceitos antes de proliferar asneiras para cineastas como Eastwood e Woody Allen.

Uma observação: sendo uma obra importante na filmografia de Spike Lee, é possível localizar diversas presenças especiais no filme, incluindo de atores que já trabalham com o diretor nascido em Georgia em cinquenta e dois anos atrás. John Turturro (“Faça a Coisa Certa”) e John Leguizamo (“O Verão de Sam”) têm participações quase relâmpagos. Mas vale é direcionar todas as atenções para Alexandra Maria Lara, que fez a secretária de Hitler em “A Queda – As Últimas Horas de Hitler” e que aparece fantástica no momento mais assombroso de “Milagre em Sta. Anna”.

Título Original: Miracle at St. Anna
Ano de Produção: 2008
Direção: Spike Lee
Elenco: Derek Luke, Michael Ealy, Laz Alonso, Omar Benson Miller, Pierfrancesco Favino, Valentina Cervi, Matteo Sciabordi, John Turturro, John Leguizamo, Joseph Gordon-Levitt, Kerry Washington, D.B. Sweeney e Alexandra Maria Lara.
Nota: 7.0

  1. Acho que a sua critica é a unica positiva que eu vi desse filme … o povo realmente desceu a lenha nesse filme … espero que quando ver seja um filme bom, por que esperar obra prima para esse filme … fica dificil …

  2. Já havia ouvido falar coisas ruins a respeito de “O Milagre de Sant’Anna”, e talvez por conta disto não tenha me animado a procurá-lo por aí. Já “Do The Right Thing” é um filme que me chama muito atenção, especialmente por estar no Top 100 do AFI – este sim eu estou tentando achar a algum tempo.
    Sobre o bate-boca com o Eastwood, realmente não passou de asneira. Embora, não sei se lembra, o Clint foi acusado de se negar a ler o vencedor do Oscar 2005 temendo que “Brockeback Mountain” saísse vitorioso. Se isso for verdade, enxerga-se algum preconceito no vovô mais ativo do cinema atual.
    Abraço!

  3. João, de fato, não foram muitos aqueles que falaram bem do filme. Imaginava que o resultado me desapontaria, mas não foi o que aconteceu.

    Weiner, é um drama de guerra que, na minha opinião, merece ser assistido. Eu admito a você que não gostei tanto de “Faça a Coisa Certa”, que vi a um bom tempo em formato VHS, mas é uma das obras mais relevantes em relação ao preconceito. E eu lembro muito bem sobre essa ocasião do Clint Eastwood em recusar o convite de apresentar o prêmio de melhor filme no Oscar. Mas, se não me falha a memória, ele não topou a oportunidade porque temia que “Brokeback Mountain” ganhasse a estatueta ao invés de “Crash – No Limite”. Ou seja: ele estava com medo que o seu protegido, Paul Haggis, perdesse a estatueta, e não por preconceito enquanto a temática do filme de Ang Lee. Abraço.

  4. Mas, Alex, lembre-se que a vitória de “Crash” foi uma zebra sem tamanho, já que os próprios “Munique” e “Capote” pareciam melhor rankeados como possíveis “segundos” vencedores nas bolsas de apostas. Portanto, Eastwood não esperava que o filme de Haggis fosse ganhar. Acho que sua atitude foi mesmo com medo da “desmistificação” do universo dos cowboys, sempre tão masculinos nos filmes que ele atuou e dirigiu.

  5. Weiner, mas foi exatamente por não esperar pela vitória de “Crash – No Limite” que, ao me ver, fez com que Clint Eastwood recusasse este pedido da Academia, não acho que o vovô o fez por preconceito contra os cawboys gays do Ang Lee. Mas o seu ponto de vista tem muito sentido, pode ser que “desmistificação” seja uma impressão que de fato passou pela cabeça do diretor.

  6. Tenho um pouco de medo desse filme, afinal parece ser um Spike Lee diferente do que estamos acostumados, mas de qualquer forma seus comentários me animaram para vê-lo.

  7. Alex, recebi seus convites. Pena que o filme não está passando em lugar nenhum hehehe

    Eu gostei de “Milagre…”, acho um filme bem realizado, apesar da intenção radical de Spike Lee.

  8. Vinícius, não acho que seja muito diferente do que já estamos habituados em assistir. Como mencionei, só o cenário é diferente aqui.

    Pedro, de qualquer maneira, deixe-o guardado. Quem sabe acaba não pintando uma estreia ai no Rio de Janeiro? E que bom que tenha gostado do filme, uma prova de que não estou só desta vez.

  9. Abre-se no final dos anos 1980 quando um caixa de banco postal chamado Hector Negrón, com idade avançada que coloca uma bala no peito de um aleatório cliente. Houve talvez uma razão válida para o sua aparentemente inexplicável explosão violenta. O chefe policial em cena coloca um jovem repórter em direção ao assassino e vão ao seu apartamento no Harlem, onde pistas para a identidade do homem apenas vai aprofundar o mistério por trás do crime. O que transparece são várias histórias interligadas que envolvem os indivíduos e da equipe como um todo. Percebemos que para realmente impulsionar esse conceito, Spike Lee insere enlouquecedora uma cena em que os nossos heróis são negados a um serviço de jantar do Sul, enquanto prisioneiros de inimigos de guerra relaxam dentro do bar. Como soldados servindo no regimento 92, Infantaria do Exército – apelidado o Soldados Búfalos – Negrón (Laz Alonso), e seus compatriotas Selos (Derek Luke), Bishop (Michael Ealy) e Comboio (Omar Benson Miller) acabam atrás das linhas inimigas na Toscana (Itália), onde fugir tropas nazistas, por incompetência e arrogância de um capitão branco, e estão protegem uma vila italiana do ataque. “Milagre em St. Anna” conta a história da amizade e de chegar mais além raça e preconceitos, de ajudar um ao outro, no meio de uma guerra. Spike Lee fez de uma guerra, um brilhante filme que engloba muitos elementos, mas consegue envolver-nos com todas as histórias dentro da história que pretende contar. Embora ele tenha seus pontos fracos, é realizada em conjunto pelo seu único ângulo sobre a guerra, bem como uma forte caracterização de seus personagens centrais. Uma lição sobre a história do atraso da indelegável mancha na história americana sobre o conflito dos homens negros forçado a travar uma guerra do homem branco, quando eles realmente preferiam estar a lutar pelos seus próprios direitos civis. Existem momentos de tais indescritível beleza, que nos faz mover lágrimas. Se vocês são pensadores e estão intrigados com a natureza humana, este filme deve ver, independentemente de raça ou idade. Nota 9,0

  10. – Wally, tente encará-lo em um dia de folga ou em uma manhã livre. Vale a pena.

    – Diego, bom ver outra pessoa que não esteja massacrando o filme. Abraço!

    – Willis, não achei “Milagre em Sta. Anna” capaz de levar o público às lágrimas. Mas há nele sequências muito bem produzidas mesmo, como a cena na praia que fecha a narrativa.