A Vida Durante a Guerra

“Felicidade” é o longa-metragem mais celebrado de Todd Solondz, dono de uma filmografia pequena, mas cheia de preciosidades do cinema independente americano. Isto porque o cineasta encarou sem pudor os limites que vários personagens ultrapassam em busca do sonho americano. Não passavam de figuras comuns e cheias de segredos e mentiras. Há cinco anos sem filmar e ciente da grande obra que concebeu, Todd Solondz decide dar uma continuidade para este filme. Mudou todo o elenco e o cenário, mas os personagens de “Felicidade” são os mesmos em “A Vida Durante a Guerra”.

As irmãs Jordan continuam sendo figuras importantes, embora Helen (Ally Sheedy, em um papel que foi de Lara Flynn Boyle) tenha apenas uma pequena participação na história. Já Joy (Shirley Henderson, que confere ainda mais ingenuidade na personagem antes feita por Jane Adams) e Trish (a excelente Allison Janney, substituindo Cynthia Stevenson) ganham maior realce. Joy é assombrada pelo espírito de Andy (Paul Reubens), sujeito incorporado por Jon Lovitz no início de “Felicidade”, e seu relacionamento atual com o ex-presidiário Allen (Michael K. Williams) é tumultuado. Dá uma pausa na união para rever as suas irmãs. Enquanto Helen continua insaciável, Trish quer dar um basta aos traumas do passado ao se relacionar com Harvey (Michael Lerner). O seu filho Timmy (Dylan Riley Snyder) está naquela fase da pré-adolescência onde as dúvidas começam a surgir, coincidindo com a saída da prisão de seu pai pedófilo Bill (Ciarán Hinds, extraordinário no papel outrora de Dylan Baker). O problema é que ele parece querer retornar para casa e Trish diz a Timmy que ele está morto.

Na comparação, “A Vida Durante a Guerra” perde e supera “Felicidade” com dois fatos. Se no drama de 1998 a resolução dada para cada um dos personagens, centrais ou secundários, era mais do que satisfatória, em “A Vida Durante a Guerra” o espectador, especialmente aqueles não tão sintonizados ao cinema de Todd Solondz, pode se incomodar com o final dúbio. Por outro lado, a experiência como roteirista ao longo da carreira o tornou ainda mais mordaz nos diálogos. O instante que Trish descreve ao seu filho o orgasmo que teve é desconcertante, bem quando Ciarán Hinds divide a cena com Charlotte Rampling (em participação especial). Já a guerra surge subliminar em cada um dos núcleos. Afinal, seriam todos capazes de encarar o dilema “perdoar e esquecer” em tempos de guerra quando enfrentam, simultaneamente, suas batalhas íntimas?

Título Original: Life During Wartime
Ano de Produção: 2009
Direção: Todd Solondz
Roteiro: Todd Solondz
Elenco: Shirley Henderson, Allison Janney, Ally Sheedy, Ciarán Hinds, Michael K. Williams, Roslyn Ruff, Michael Lerner, Dylan Riley Snyder, Renée Taylor, Paul Reubens, Emma Hinz, Rich Pecci, Gaby Hoffmann, Carmen Marie Colon Mejia, Meng Ai, Chris Marquette e Charlotte Rampling
Cotação: ****

 

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

3 Comentários em A Vida Durante a Guerra

  1. Conheço pouquíssimo do cinema do Solondz, e Felicidade é realmente um filmaço, perto da obra-prima, roteiro impecável e cruel a seu modo ácido. Já essa continuação achei fraquinha, a maioria das histórias parece não ter razão de ser, não me convencem. Aí, ele acaba se atrapalhando muito. O garotinho é o melhor deles, merecia um filme todo só dele. Ah, e aquela participação das Charlotte Rampling é sensacional!

  2. Suspeito n °1 em falar de Todd Solondz.
    Eu aprecio sua obra desd eo primeiro filme e sempre venho acompanhando seus filmes. Porém acho que ele devia fazer mais filmes -tipo, um a cada 2 anos hehehe.
    Em A vida durante a guerra senti falta apenas daquele humor venenoso e incorreto que permeia a hostória dele, mas nem por isso deixei de apreciar a obra.
    No aguardo do próximo trabalho dele, e esperando a chance de assistir o primeiro “Fear, anxiety & e depression” que encontra-se extinto em qualquer lugar.

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