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Os Cinco Filmes Prediletos de Weiner Gomes

Uma das tarefas mais complicadas para aquele que planeja criar um blog é a busca por leitores. Afinal, eles são essenciais para determinar a qualidade e diferencial do conteúdo compartilhado. Em seu primeiro ano de vida, o Cine Resenhas já tinha em seu blogroll A Grande Arte, espaço também dedicado ao cinema editado por Weiner Gomes. A felicidade é testemunhar que até hoje ainda há essa ligação virtual e por ela não pude desistir de meus planos de solicitar ao Weiner a sua participação para o crescimento desta seção do Cine Resenhas, que busca conhecer um pouco mais do cinéfilo que há dentro de cada um destes caros amigos.

O espaço do Weiner sofreu algumas alterações, tão comuns para qualquer um. Atualmente, seus textos podem ser lidos em O Brado Retumbante! É uma visita obrigatória em um blog que se destaca pela diversidade e a análise rica e perspicaz do seu autor, como pode ser testemunhado a seguir.

Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornattore (1988, Nuovo Cinema Paradiso)

Existe a máxima de que, para ser cinéfilo, é preciso amar o cinema – a arte sagrada de manipular imagens, sons, sentimentos. Não basta ocupar poltronas e assistir aos filmes, ainda que o espaço físico, em si, seja indispensável; também é preciso compreender a força desta engrenagem social, que tem poder (sim) de entreter, e (principalmente) aculturar, acrescentar, moldar, perpetuar. “Cinema Paradiso”, a obra-prima do cineasta italiano Giuseppe Tornattore é a mais linda de todas as odes ao cinema. Isto porque cultua a sétima arte, e faz de seus canais mais convencionais (as salas de exibição e projeção) verdadeiros templos. Salvatore, o garoto conhecido como Toto (interpretado pelo talentoso homônimo Salvatore Cascio na infância e por Jacques Perrin na fase adulta) desenvolve encantamento imediato pelo único cinema de sua pequena cidade, encravado no meio de uma praça – e naturalmente pelo projecionista Alfredo (o brilhante Phillipe Noiret), um homem velho que fincou raízes numa profissão solitária, mas gratificante. Diante de sinopse tão simples, parece exagero considerar “Cinema Paradiso” como uma das mais tocantes obras da História; mas que outra definição mereceria filme que presta tão sincera homenagem àquele que considero um dos maiores legados da Humanidade? Mas se funciona apenas para os verdadeiros amantes do cinema? Não, vai além. Pequena correção faz-se necessária: “Cinema Paradiso”, é antes de tudo, uma ode à própria vida. À amizade. Ao direito de sonhar. À linha tênue que aproxima inocência e experiência. Ao direito universal de ser feliz. Dono de inspiradíssima trilha sonora (Ennio Morricone em momento de primazia absoluta) e desfecho de raríssimo poder emocional, o filme é ternura e emoção do primeiro ao último segundo.

Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder (1950, Sunset Blvd.)

Mesmo que um filme consiga lançá-lo dentro de perspectiva jamais imaginada, despertar sensações indescritíveis e proporcionar alguns dos melhores momentos de uma vida, vale ressaltar que ainda é obra humana. Obra movida por dinheiro, lucro, liquidez. Em suma, vive da objetividade cruel que separa o sucesso do fracasso – e infelizmente o público está convencionado a tal lógica. “Crepúsculo dos Deuses”, obra-prima máxima do diretor Billy Wilder (tão habituado a obras-primas) segue tal desígnio. Desmitifica o mítico. Sacode com brusquidão aquele que sonha diante de uma poltrona. Profana pedestais. Descarta vidas inteiras. Maneira romântica demais para atacar o ciclo natural da fama, que sempre abre espaço para novos talentos e, indiferente, vira as costas àquele que já envelheceu? Talvez. Aceitar, porém, que o cinema, legado transcendental às imperfeições do homem, também é vítima de tamanha “humanidade”, ainda dói. É assim que a personagem de Gloria Swanson (em soberba atuação) se sente: vitimada por um sistema que ao mesmo tempo em que constrói, destrói. Detalhe, aliás, que se intensifica após a transição do cinema mudo para o cinema falado – fenômeno que dizimou o talento de muitos profissionais do passado. Wilder notava tais discrepâncias. A ganância da indústria, amparada pela ingratidão do público que já ansiava por “nova ordem”. Assim, criou um dos retratos mais sombrios dos bastidores de Hollywood – que nos faz pensar, até hoje, se algo de fato mudou. “All right Mr. De Mille, I’m ready for my close-up”. Um incômodo calafrio.

A Lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993, Schindler’s List)

Em 1994, Steven Spielberg não precisava mais provar ao público que sabia dirigir um filme – especialmente quando tal produção dispunha de efeitos visuais e sonoros que arriscavam brilhar mais que o verdadeiro criador. Nem tampouco que era dono de versatilidade admirável, encontrando êxito também em fitas dramáticas. À crítica e às premiações, contudo, a situação era diferente. Em “A Lista de Schindler” (considerado pelo AFI como um dos 10 melhores filmes da História), Spielberg encontrou o material que precisava: baseado na vida de Oskar Schindler, industrial polonês que favoreceu milhares de judeus – até então condenados à morte pelo fundamentalismo nazista. Um tema levemente pedante, sim, mas tratado com dignidade suficiente para arrancar diversas ovações – e arrebatar importantes prêmios. Num preto-e-branco fantástico, capturado pela fotografia de Janusz Kaminski, “A Lista de Schindler” se impôs como o mais tocante (e cruel) retrato sobre o nazismo já levado às telas. Personagens inesquecíveis, a dicotomia habitual entre bem e mal que habita as produções de Spielberg, sentimentalidade sem nenhum sentimentalismo. Antes de tudo, um longa que sabe exatamente a quem acusar – dispensando fantoches e massas de manobra –, concentrando críticas sutis àqueles que promoveram o genocídio em nome de ideais perversos; “A Lista de Schindler” não serve somente de enciclopédia parcial e previsível (como acusam alguns detratores), mas seu mérito reside na capacidade de transformar o espectador num ser humano mais sensível, tolerante e consciencioso. Um clássico instantâneo, sim, mas arrebatador.

A Doce Vida, de Federico Fellini (1960, La dolce vita)

“A felicidade não é deste mundo”, muitas religiões professam. Um equívoco, se você não acredita em vida após a morte. Mas surpreende a quantidade de pessoas, entre as mais variadas classes sociais, que buscam incessantemente por algo que preencha o vazio emocional de suas vidas. A vida, em si, é pautada por momentos de extrema euforia e extrema tristeza – e talvez morramos sem descobrir o que é, de fato, a felicidade. Então, é preciso ser triste? Verdade inescapável para muitos, a melancolia reina por todos os espaços. E Federico Fellini, cineasta italiano que tivera uma infância de influenciada pelo fanatismo católico dos pais, perdera um filho muito cedo e não encontrara completude ao lado da esposa, fizera tal pergunta a si mesmo. A resposta está neste filme. “A Doce Vida” é a última palavra em termos de desolação e desesperança. E quem jamais tiver pensado a respeito, que atire a primeira pedra. Gozado, porém, é assistir decadência moral de um filão de personagens comuns e banais – o que só acentua a realidade deste filme atemporal. Eles estão procurando, desesperadamente, por uma forma menos convencional de ocupar seu tempo – o sexo indiscriminado, o alcoolismo, o tabagismo, a falsidade, o assédio, o ócio, a irreverência ao divino (que rendeu excomunhão a Fellini) – já parecem inúteis. Como todas as gerações que já passaram pela Terra, estão em busca de alguma resposta, alguma motivação que dê, de fato, valor à vida. E se o desfecho parecer pessimista é válido lembrar que promove o direito de escolha – como se em algum lugar inóspito (mas não tão insólito) estivesse guardado o deslindar desta questão. Basta abrir os olhos. Ainda que para Fellini tais olhos tenham se acostumado à cegueira e se conformado à iminente condenação.

A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra (1946, It’s a Wonderful Life)

Em contraponto ao fantástico filme de Federico Fellini, existe o maior de todos os filmes, “A Felicidade Não Se Compra”. Quem não conhece ou já consumiu algo claramente influenciado por esta lindíssima história de Natal? Piegas? Talvez. Manipulativo? Quem sabe? George Bailey (James Stewart, icônico) não é perfeito; mas nem mesmo por isso deixa de ser o grande herói do cinema mundial. Herói por aceitar o destino e suas ciladas, herói por demonstrar fraqueza e humanidade, mas não render-se jamais (ainda que, por momentos, esta pareça a única saída). Herói por existir dentro de cada um de nós. Herói por acreditar na vida. Acovardar-se diante de pequenas coisas é corriqueiro, pois todos nós estamos fechados numa redoma insignificante de egoísmo. Frank Capra apresenta, todavia, uma situação bem mais desesperadora, inimaginável para muitos que passam a vida protegidos pelo conforto. Mas, por que procurar a maneira mais digna para livrar-se de uma adversidade? Por que conservar o caráter se a vida retribuiu a subordinação com desgraça e infortúnio? Por que acreditar numa solução quando a Providência não dá sinais de apoio, só devolve indiferença? “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”, já dissera grande intelectual. E feliz quem corroborar a afirmação de Shakespeare (e Capra!). Acreditemos sempre que é possível crescer diante de um obstáculo – e sempre que estivermos presos a condições humilhantes, estivermos fracos, desanimados, contritos, sem fé, lembremo-nos de “A Felicidade Não Se Compra”. Cinema. Mantra. Filosofia de vida.

7 Comments

  1. Os textos de Weiner são sempre excelentes, vale reiterar. E que comentários maravilhosos sobre seus — igualmente maravilhosos — filmes favoritos.

    • Mateus, o Weiner foi um dos primeiros blogueiros que conheci e com os anos as suas análises têm atingido um grau de qualidade muito alto. Claro que nossas opiniões nem sempre batem, mas é exatamente isto que causa o diferencial que me atrai.

  2. ótimo post para falar a verdade.
    é com compartir nesse espaço os 5 filmes preferidos de cada blogueiro. Um dia terei a minha vez, vai demorar, mais vai chegar ehehehe.

    Filmes que sem duvida mudam a ótica cinematográfica de cada um.
    Abraços champs!

  3. Mas, que lista maravilhosa! Só podia ter vindo do Weiner mesmo! Excelente post, Alex!!!

  4. Nenhum dos filmes do Weiner está entre os meus favoritos, mas, sem dúvida, é uma excelente seleção – até porque tenho um carinho todo especial por “Cinema Paradiso”.

  5. Só “A Lista de Schindler” entra na lista dos meus 20 filmes favoritos. Mas, claro, são filmes belos! Parabéns!

  6. Cinco grandes clássicos, que só mostram o quão grande é o bom gosto do Weiner. Talvez a lista mais “cinéfila” dessa coluna até agora.

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