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Os Cinco Filmes Prediletos de Christian Piana

Os últimos três anos foram difíceis para mim. Estava preso em uma vida em que tudo estava sendo administrado no piloto automático. Senti que perderia as estribeiras caso não me envolvesse em alguma atividade que motivasse uma nova prática ou talento. Pensei rapidamente em fotografia. Me recordo que em todas as ocasiões em família observava porta-retratos e álbuns de fotografias. Pude através das fotografias conhecer meus avós já mortos quando nasci ou mesmo a juventude de um pai que partiu cedo demais para me ajudar a compreender o mundo cão em que vivemos. A possibilidade de eternizar algo, como imagens ou palavras, sempre me fascinou. Não tenho muita certeza se o coordenador das duas oficinas de fotografia que ingressei durante o ano de 2010 soube, mas essas foram as minhas verdadeiras motivações para fazer algo para o qual não estava preparado nem ao menos com um equipamento adequado.

Christian Piana nasceu na Itália e atualmente vive no Brasil. Não atua apenas como fotógrafo (portfólio aqui) como também coordenador da Editora Lamparina Luminosa, dedicada em transformar em verdadeiros autores pessoas sem formação literária formal. Como meu professor e também amigo, me mostrou que o cinema tem muita ligação com a fotografia: são modos de expressões distintas, mas no final elas podem comunicar a mesma coisa. Christian me revelou que é uma tarefa dura elaborar uma lista de filmes favoritos com um número estabelecido, pois há muitas obras queridas que ficam de fora (“Blade Runner – O Caçador de Androides”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “Playtime – Tempo de Diversão” são algumas delas). De qualquer forma, estou muito feliz. Sei que o resultado a seguir foi positivo para o Christian, pois nossos filmes favoritos dizem muito sobre nossa própria personalidade e também sobre o que vivemos até aqui.

Enviar um convite para o Christian participar dessa seção tão especial do Cine Resenhas me fez recordar os breves momentos de nervosismo e timidez que surgiram quando pedia às pessoas que não conhecia para fotografá-las, conseguindo assim finalizar o meu trabalho para a exposição Processos. Obviamente, assim como aconteceu com aquelas pessoas que fotografei, fiquei lisonjeado com a resposta positiva.

Asas do Desejo, de Win Wenders (1987, Der Himmel über Berlin)

Dedico esta seleção de filmes ao amor e a poesia e início com um filme em que se vê até mesmo um anjo renunciar a sua condição por amor do mundo, das coisas terrenas e táteis. Os protagonistas do filme são Damien e Cassiel – de fato, dois anjos. Damien é interpretado por Buno Ganz que é, em minha opinião, realmente um anjo na vida real. Os dois vagam por uma Berlim em preto e branco e decadente dos anos 1980, pouco antes da queda do muro. Sabemos que estão por aí antes que surgisse a cidade, sempre no ofício de anjos. Porém, Damien e Cassiel não são duas figuras estereotipadas, que realizam a clássica função de anjos. O que os tornam fabulosos é que são somente observadores, duas figuras que parecem ter a única função de registrar o presente com os seus olhos. Talvez eles tenham uma memória milenar mais fiel que qualquer filmagem ou fotografia? Talvez deverão reportar este presente a alguém? Não se sabe.

O que se sabe é que a realidade é estudada, como fazem os bons arquivistas. Não através dos fatos que acontecem, mas através do status de quem os vivem, os sentimentos das pessoas, seus medos, dores e joias. Nos também os vivemos, sentimos como os anjos, as vozes dos pensamentos dos berlinenses e provamos uma misteriosa empatia por eles: não para as pessoas comuns, mas pelos próprios anjos que escutam e veem e não são vistos nem ouvidos. Não sentem o mesmo que gente comum, não tem percepções táteis, não sentem sabores, cheiros, calor e frio. Por isso, durante uma confissão, se revelam cansados de serem anjos. Entre os sons destas angustias e pensamentos pulsa a poesia, vibrante e constante. Não é uma poesia entre linhas, é uma poesia explícita nas imagens tão belas! Nos suspiros! Uma poesia que Wenders procura e mostra sem economia.

Damien, durante seu vaguear, se apaixona por uma mulher e para vivê-la decide virar um homem e desistir de ser eterno. Começa assim a ver as cores (o filme passa a ser colorido); pela primeira vez se machuca e vê seu sangue vermelho, que é a cor da paixão. Se encontra com a mulher que corresponde seu amor durante um show do Nick Cave na mais linda Berlim underground cultural, que não foi reconstruída pelo filme, mas que foi filmada assim como era naquele período. Que sempre me faz sentir saudade de uma vida que nunca vivi, mesmo que a sonhei várias vezes.

Adeus, Lenin!, de Wolfgang Becker (2003, Good Bye Lenin!)

Outra obra em que o muro de Berlim, com todos seus significados, é presente. O filme é ambientado no ano em que este é abatido e dois mundos, que compartilhavam a mesma cidade, mas eram separados por metros de arame farpado e minas, se encontram. Uma das épocas históricas que mais me fascina. Um outro hino ao amor, a própria mãe em primeiro lugar, mas também a uma identidade histórica que o protagonista Alex vê desaparecer e que recupera de forma magistral.

Quando a mãe, uma fervente militante pela causa da República Democrática Alemã, em outubro de 1989 sofre um infarto, permanece em coma por oito meses. Quando milagrosamente acorda tudo mudou: o muro caiu, a DDR não existe mais e o ocidente inicia sua irrefreável invasão cultural ao oriente. Alex, para não perturbá-la ainda mais, convence sua irmã, o cunhado e sua nova namorada a ocultar a verdade e reconstruir em sua volta a Berlim socialista, se vestindo e comprando alimentos de poucos meses atrás que parecem vencidos. A empresa, que parece fácil no início, em breve transforma o corajoso protagonista em um herói romântico em luta contra o inevitável aniquilamento do seu passado e do passado do seu povo.

Que tipo é o Alex! Audacioso e forte, não se deixa intimidar pelo desafio. É jovem e fica bravo com todo mundo quando entende que a sua gente parece não ter sido realmente vencida pela colonização cultural, mas parece simplesmente ter se deixado abandonar pelo capitalismo. Se fosse real, Alex seria um pouco maior que eu, dez anos mais velho. Em 1989, eu era criança, mas bastante grande para me lembrar desta época: recordo dos comentários e do medo sobre uma possível invasão soviética e o suspiro que todos em minha volta deram no dia da queda do muro. As mesmas imagens presas nos arquivos da época, que se vê no filme, são as imagens que vimos em televisão por dias, por meses. Alex usa roupas que me lembram aquele tempo, o filme inteiro é magicamente ligado às minhas lembranças, de alguma forma tudo é tão familiar para mim!

A história política da Europa nos é apresentada docemente através das preocupações de um filho. Os eventos que têm marcado tão intensamente aqueles anos são todos brilhantemente refletidos dentro dos amores das dores familiares. Para deixar o filme definitivamente inesquecível, porém, é o perfeito casamento entre este roteiro belíssimo com as fabulosas músicas de Yann Tiersen, que tocam no mesmo ritmo do nosso coração e do coração dos protagonistas, que desenham com uma áurea de magia as cenas mais intensas do filme: nos créditos inicias com as lembranças da família rodadas em Super 8, a mãe que vê a estátua de Lenin transportada de helicóptero e, no final, o emocionante reencontro entre o pai, que havia fugido para o Oeste, e a mãe pouco antes da sua morte.

Amor à Flor da Pele (2000, Fa yeung nin wa)

“In the Mood for Love” foi distribuído no Brasil com o nome “Amor à Flor da Pele”, que não é mau, mas pode deixar a entender que o filme trata de uma grande historia de amor. Na verdade, “In the Mood for Love” apela ao que é o verdadeiro protagonista do filme: o mood do amor, ou seja, o sentimento em si do amor. O título original em cantonês é ainda mais evocativo: significa a idade das flores, que é uma metáfora chinesa para descrever a fugacidade do tempo da juventude, da beleza e do amor.

A história é simples e linear: um homem e uma mulher se mudam para dois microapartamentos próximos na Hong Kong de 1962 e descobrem casualmente que os respectivos cônjuges são amantes. Passam a se verem para tentar entender como tudo pode ter começado. Porém, durante os encontros percebem que se amam, mesmo que nunca chegarão a consumir este sentimento.

O diretor Wong Kar-Wai é o autor de um potentíssimo e novo renascer da Nouvelle Vague do oriente. No passado, nos ofereceu filmes fabulosos em que brilhava o “esplendor do verdadeiro” (termo de fato usado por Jean-Luc Godard para explicar o estilo da Nouvelle Vague). Mas em “In the Mood for Love” a beleza, a poesia e a paixão chegam a sair da tela e nos envolver. A precisão das imagens é fortíssima: cada enquadramento é por si uma obra de arte, a fotografia e as luzes reproduzem a mesma atmosfera do que são feitos os sonhos de amor e o ritmo do filme é o verdadeiro elemento narrativo. Os sentimentos dos protagonistas aumentam a cada encontro, não é necessário que ninguém nos conte. O percebemos, o sentimos, marcado pela música extraordinária e pelas imagens em câmera lenta, que revelam a delicada e belíssima ritualidade dos gestos e anunciam o que duas pessoas que se amam conseguem produzir quando cruzam seus olhares.

Infelizmente, no final os protagonistas, levados pelo curso dos eventos, se afastam, não se encontrarão mais. Porém, não se esquecerão mais um do outro. Ele, na cena final, esconderá o segredo deste amor em uma pedra, sussurrando-o a uma ruína de um antigo templo para que permaneça para sempre guardado. Ao meu parecer, depois deste filme Wong Kar-Wai não conseguiu se igualar, tampouco a se superar.

Luzes da Cidade, de Charles Chaplin (1931, City Lights)

Charlie Chaplin lançou este filme em 1931, uma época em pleno uso do som e gravações de vozes na película dos filmes. “Luzes da Cidade”, porém, permanece, por irredutível desejo do diretor, um filme mudo que deixa toda a comunicação em pantomímica. Chaplin realizou filmes mudos até 1940, período em que, por várias consequências, morre o fantástico personagem que por anos mostrou as infinitas formas de amar a vida: The Tramp, o Vagabundo. Esta escolha corajosa sempre me lembra um dos mais belos conceitos de muita arte oriental: a gestão do vazio. O vazio não é ausência de coisas, mas é algo que em si existe e precisa saber contemplá-lo e vivê-lo. A cerâmica tradicional japonesa cria peças com a ideia principal de dar forma ao vazio. As características portas corrediças dos quartos nas casas servem para contê-lo e modelá-lo. Da mesma maneira nos filmes de Chaplin, o mudo não é ausência de vozes, mas é presença de silêncio, de um silêncio cheio de comunicação, contido pelos gestos e pela beleza dos movimentos.

Obviamente, esta escolha não o priva de desafios heroicos: em uma das cenas principais deste filme, uma jovem vendedora de flores cega confunde o Vagabundo com um rico senhor que instantaneamente se encanta por ela. Chaplin não sabia como obter o resultado sem o uso das vozes dos protagonistas. Antes de chegar a uma conclusão, repetiu a cena 342 vezes testando as mais variadas soluções. Consegue de uma forma genial: o Vagabundo é dificultado por um trânsito impossível de automóveis e para cruzar a rua é obrigado a desafiar os carros, chegando até a passar dentro deles. Quando sai do último automóvel antes da calçada, fecha a porta bem forte. A vendedora de flores está bem perto desse último automóvel e intui por engano que quem está saindo dele é o proprietário do veículo. O filme não nos deixa “ouvir” o som, deixa “vê-lo”.

Sempre amei profundamente o personagem Vagabundo de Charlie Chaplin desde muito jovem. Porém, só nos últimos anos entendi o porquê: o personagem é um flâneur perfeito: vaga sem um destino predefinido, parece nem ter casa, mas isso não abala minimamente a sua dignidade e elegância. Como eu, quando vaga se encontra sozinho, se orienta. Quando está parado, se perde. Quando é o nômade da cidade é a única pessoa que sabe observar verdadeiramente as coisas, é a única pessoa que reconhece a beleza e o único de fato a perceber aquela belíssima moça sentada na esquina vendendo flores. Todos em sua volta andam freneticamente, vão para frente e para trás ocupadíssimos. Aonde vão? O que tem a fazer? Não se sabe. Só se sabe que o vagabundo está onde tem que estar, é um monge entre burgueses, é um sábio entre monstros. É tão lúcido que chega até a salvar um estúpido ricaço que quer se suicidar mostrando a ele quanto a vida é bela.

Como todos os filmes de Chaplin, em “Luzes da Cidade” a critica à sociedade moderna é forte: para ganhar dinheiro, salvar a moça da pobreza e curá-la da cegueira, The Tramp é obrigado a deixar sua condição de flâneur e revestir papéis. Primeiro um mero trabalho normal, depois sempre mais à margem do conformismo. Isto o consome, assim como a moderna vida urbana que destrói o ser humano, o transforma em um marginal. Nas emocionantes cenas finais, o vagabundo consegue ajudar a florista, mas é preso. Ao retornar, pobríssimo, reconhece a moça que lhe recuperou a visão. Ela o reconhece pelo toque da sua mão, percebendo que na realidade a pessoa que encontrou nunca foi um milionário, mas o contrário: um anjo. “Luzes da Cidade” não é um filme cômico, é um filme de amor.

O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford (1994, Il postino)

Este filme entrou na minha seleção por causa do amor que me liga ao seu ator principal: Massimo Troisi. Troisi transformou “O Carteiro e o Poeta” em mais que um filme, transformou-o em uma experiência humana grandiosa. Todos os minutos da película, mesmo aqueles onde ele não aparece, são cheios da sua presença, da sua pura comicidade e da sua doce melancolia. Durante a realização estava muito mal, sofria desde criança de uma anomalia cardíaca que também o obrigou a uma cirurgia delicadíssima aos 23 anos. Na época de “O Carteiro e o Poeta” deveria ter feito um transplante de coração. Os amigos lhe pediram para antes fazer o transplante e depois o filme, mas Troisi, determinado, sempre respondeu: “Não, este filme eu quero fazê-lo com o meu coração!”.  E de fato é o esforço do seu coração, enfermo mas enorme, que percebemos nas imagens e que sentimos no som de suas palavras.

O filme é baseado no romance “Ardiente paciencia”, de Antonio Skármeta, e narra o encontro entre o humilde entregador de cartas Mario Ruoppolo e o poeta Pablo Neruda durante seu exílio numa ilha no sul da Itália. Ruoppolo, fascinado pela figura do poeta, faz de tudo para que entre ele e Neruda se estabeleça uma amizade; amizade que em pouco tempo o leva a descobrir a poesia, a reconhecê-la e amá-la. Depois desta descoberta, o carteiro parece ver as coisas de um novo e mais profundo ponto de vista: a poesia o ilumina, o leva a viver a aventura do cotidiano, do cotidiano da sua ilha tão consumida pela vida. A poesia que Mario descobre de fato não é algo que chega, é algo que sempre esteve presente e que agora é revelado. Mario um dia diz à Neruda que seus textos chamaram sua atenção porque ele também sente as coisas que aí estão, mas nunca pensou que poderiam ser escritas. Agora ele sabe. No filme, quem expõe a poesia não é Neruda, o poeta consagrado, mas é o próprio Mario, homem pobre e sensível, que a contém dentro de si, que a mostra na sua doce ingenuidade, que anda simpaticamente à caça de metáforas. É Mario que um dia, depois de ter lhe dito que se sentiu como um barco sacudido pelas suas palavras, pergunta tímido ao poeta se o mundo todo é a metáfora de algo, deixando Neruda fulgurado.

“O Carteiro e o Poeta” é uma homenagem a beleza de todas as coisas, a simplicidade e honestidade dos sentimentos, a majestade do mundo latente em todas suas partículas. A grandeza de Massimo Troisi cria um personagem maduro, pleno de comicidade controlada, mas também de spleen. Nos que amamos Massimo Troisi sabemos, porém, que ele não criou este personagem do nada. Quando assistimos ao filme sabemos que de alguma forma o carteiro é Troisi, que sua voz cansada é a voz de Troisi, que a custo da vida está nos deixando seu testamento moral.

No final, o carteiro morre. É a própria poesia que o aproxima do seu destino. Troisi também nos deixa ao morrer um dia após o fim das filmagens. Ele nunca verá o seu filme. Mas nós lembraremos para sempre da imagem dele no filme em que, olhando para o céu, grava o som das estrelas para enviar à Neruda longe, dizendo: “Lindo! Nunca me dei conta que era tão lindo!”.

Obs.: Amanhã, 19 de maio, às 19h, Christian Piana realizará o lançamento dos livros “A Mineirinha e outras histórias” e “Mínima Memória do Mundo” na Livraria da Vila – Lorena (Rua Alameda Lorena, 1731 – Jardim Paulista – São Paulo, próximo ao Metrô Consolação). Não deixe de prestigiar!

4 Comments

  1. Kamila Kamila

    Excelente lista, a dele.

  2. Gostei muito do texto… fiquei com vontade de rever esses filmes.

    • Eu preciso rever “Adeus, Lenin!”. Tenho certeza de que assistiria o filme com outros olhos agora.

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