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Resenha Crítica | Nosferatu (1922)

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

O Expressionismo se manifestou em alguns seguimentos artísticos no início do século passado. Concebido na Alemanha, o movimento atingiu algumas obras literárias, a fotografia, o teatro, a dança, a pintura e, como não poderia deixar de ser, o cinema. Fazendo um apanhado, temos clássicos como “M – O Vampiro de Dusseldorf”, “Metrópolis” e até mesmo “O Pensionista”, de Alfred Hitchcock, como obras-chave do Expressionismo. Porém, nenhuma delas foram capazes de se aproximar do status conquistado por “Nosferatu”, longa-metragem mudo do alemão F. W. Murnau que segue o movimento expressionista com a sua estética, buscando contrastes existentes entre o branco e o preto: claro e escuro, paz e horror, pureza e obscuridade, bem e o mal.

Último filme exibido na 36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, “Nosferatu” foi projetado no Parque do Ibirapuera. Ao ar livre, o público pôde contemplar a mais clássica versão do romance de Bram Stoker no gigante auditório do endereço com trilha instrumental conduzida ao vivo pela Orquestra Petrobras e de Coral, regidos por Pierre Oser. Apesar da interferência constante de adolescentes, que se esqueceram de todas as regras de comportamento em eventos como este ao usarem constantemente os celulares e atrapalharem o campo de visão de espectadores mais comportados, a sessão se mostrou marcante. Especialmente pela brisa gelada da noite, que só intensificavam os arrepios já garantidos por esta obra de F.W. Murnau.

Mesmo que “Nosferatu” não seja uma adaptação autorizada de “Drácula” de Bram Stoker, o roteirista Henrik Galeen manteve passagens do romance intactas na transposição para a tela. Apenas os nomes dos personagens foram trocados, o que evitou conflitos com a viúva de Bram Stoker, Florence, a detentora dos direitos da obra literária. Na história, o ingênuo corretor imobiliário Hutter viaja a Cárpatos para visitar Conde Orlok (Max Schreck, no único grande papel em sua carreira), um senhor sinistro que mostra interesse em adquirir uma propriedade próxima da casa em que Hutter vive. No entanto, Orlok está verdadeiramente interessado em Ellen (Greta Schröder), a bela esposa de Hutter.

A preferência por viver em ambientes escuros, o hábito de jamais despertar durante o dia e a sua fisionomia repulsiva antecipam: Orlok é um vampiro, criatura que espalha o horror ao seu redor  (as autoridades locais dizem que uma praga é a responsável pela morte de inúmeros indivíduos, encontrados com uma inexplicável marca no pescoço)  e obstinado em transformar Ellen em um ser imortal para lhe fazer companhia por toda a eternidade.

Embora o trabalho de maquiagem que transforma Conde Orlok  no abominável Nosferatu permaneça impressionante e realista, “Nosferatu” é uma obra de horror ainda assustadora porque F.W. Murnau foi capaz de construir uma atmosfera sombria sem recorrer ao explícito. Somos amedrontados pela presença de Orlok/Nosferatu, mas são os instantes que visualizamos apenas a sua sombra que o horror realmente se instaura. Com história readaptada dezenas de vezes posteriormente, esta versão de F.W. Murnau segue como a mais fascinante, além de obrigatória para ser vista em qualquer formato.

Título Original: Nosferatu, eine Symphonie des Grauens
Ano de Produção: 1922
Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Henrik Galeen, baseado no romance “Drácula”, de Bram Stoker
Elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder, Alexander Granach, Georg H. Schnell, Ruth Landshoff, John Gottowt, Gustav Botz, Max Nemetz e Wolfgang Heinz

5 Comments

  1. legal! sabia que o diretor foi obrigado a destruir todas as copias do filme e hoje o conhecemos somente porque ele conseguiu esconder uma copia do filme em sua propria casa? interessante debate sobre a questão das propriedades intelectuais questão da por

    • Christian, sabia sobre algumas curiosidades da produção, mas não esta que você menciona. Realmente interessante. Fico pensando em vários outros cineastas que, ao contrário de F.W. Murnau, não foram capazes de protegerem suas próprias obras.

  2. “Nosferatu” é um clássico do cinema, de um dos movimentos cinematográficos mais interessantes (o expressionismo alemão), mas nunca assisti a esse filme. Deve ter sido uma experiência interessante poder conferir a uma projeção deste longa. Gostei muito do seu texto.

    • Kamila, tenho “Nosferatu” em DVD, foi uma das minhas primeiras aquisições. No entanto, não tinha visto o filme até ele ser exibido no Ibirapuera. Recomendo que você assista algum dia, é ótimo.

  3. Samir Levi Samir Levi

    Não sou fã de cinema mudo , mais gostei muito desse filme . A versão
    de Werner Herzog consegue ainda ser superior a essa

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