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Os Cinco Filmes Prediletos de Rafael Carvalho

Rafael Carvalho (Moviola Digital)Recordo-me como se fosse ontem do instante em que decidi criar um blogue de cinema. Ao contrário de hoje, naquela ocasião havia muito tempo livre para assistir filmes durante o dia. Ainda assim, a atualização do Cine Resenhas acontecia semanalmente. Por incrível que pareça, escrever neste ritmo rendia, pois a interatividade com os leitores acontecia com muita facilidade.

Rafael ainda escrevia para o Cinematógrafo XXI quando a minha primeira interação com ele aconteceu. Admito que naquela época me comunicava mais com a Andressa, que mantinha o endereço em parceria com o Rafael. A separação entre os dois foi rápida, mas amistosa. Andressa escreveu mais alguns textos para o Cinematógrafo XXI e desistiu da vida de blogueira cinéfila – aliás, por onde ela anda? Já o Rafael seguiu firme e forte e hoje responde por um dos melhores blogues nacionais de cinema. Trata-se do Moviola Digital, espaço que completou cinco anos de atividade em setembro.

Pude conhecer o Rafael pessoalmente na mais recente edição da Mostra Internacional de Cinema e este acontecimento me incentivou a convidá-lo para comentar neste modesto espaço sobre os seus filmes prediletos. A resposta?

Por Rafael Carvalho.

É da natureza das listas de melhores quaisquer coisas serem incompletas, inconstantes, temperamentais. Mas elas são também prazerosas de fazer, de compartilhar, são sintomáticas, apontam caminhos e nos questionam sobre a certeza dos itens contidos nelas. Por isso é uma satisfação participar dessa seção do Cine Resenhas e apontar meus filmes preferidos, tarefa difícil pelo limite de cinco títulos. Não pude deixar de escolher os filmes que de alguma forma me marcaram no começo da minha paixão pela sétima arte. Como toda lista de melhores, elas nunca serão definitivas. A minha, hoje, é essa:

Aurora, de F. W. Murnau (Sunrise - A Song of Two Humans, 1927)Aurora, de F. W. Murnau (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927)

“Aurora”, obra-prima do cinema mudo e espetáculo fascinante em preto e branco, além de filme exemplar de uma fase áurea do cinema, é também um grande trunfo artístico e emocional. Primeiro filme dirigido por Murnau nos EUA, carrega vestígios do Expressionismo Alemão, mas agora atrelados a uma história de amor e tragédia, bem ao gosto hollywoodiano clássico. “Aurora” nos leva a experimentar uma montanha russa de emoções, acompanhando as desventuras de um homem que se perde de amor por uma mulher fatal, tentado a se livrar de sua própria noiva a fim de viver sua nova paixão. Murnau contrapõe campo e cidade, rejeição e desejo, bem e mal, para construir os descaminhos de um homem perdido em seus sentimentos. De uma só tacada, “Aurora” consegue ser uma narrativa sobre amor, traição, culpa e redenção. É o filme sobre amor, traição, culpa e redenção mais lindo que eu já vi.

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman (Viskningar och Rop, 1972)Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman (Viskningar och Rop, 1972)

Assim que eu terminei de ver “Gritos e Sussurros”, fiquei tão impressionado como o filme que eu precisei revê-lo, naquele mesmo dia. Foi uma experiência intensa e ao mesmo tempo provocadora porque Bergman nos propõe uma viagem pela psicologia de suas personagens, permeada por uma história dilacerante de dor, impotência e iminência da morte. Os tons fortes de vermelho que estão presentes a todo instante são a própria representação da alma exposta dessas mulheres. Não parece haver redenção, mas somente as posições de cada uma diante daquela situação – duas irmãs e uma empregada numa casa de campo cuidando da terceira irmã, gravemente enferma. Das várias cenas marcantes do filme (o médico desvendando a personalidade de uma mulher pelos traços de seu rosto, a mutilação da genitália, a representação da Pietà), acho que nunca vou esquecer uma delas, simples, mas intensa: o acordar, nos primeiros minutos do filme, da irmã moribunda, seu rosto ganhando aos poucos os contornos da dor que lhe tomava a vida pouco a pouco. É o prenúncio das agonias que vêm adiante.

Abril Despedaçado, de Walter Salles (idem, 2001)Abril Despedaçado, de Walter Salles (idem, 2001)

Aqui, a minha gênese cinéfila, o filme-despertar. Tive de ver “Abril Despedaçado” por conta da inclusão dele na prova de vestibular, numa época que meu contato com cinema era bastante raso. Porém o que mais me impressionou na sessão foi uma palestra iluminadora de uma psicóloga que apontou alguns simbolismos do filme. Daí eu duvidei: “Será mesmo que pode caber tanta coisa tão interessante em um filme?”. Pronto, estava fisgado. A vida de Tonho, preso à tradição castradora daquelas famílias rivais, como um círculo vicioso de morte e sofrimento, era representada pela ideia de circularidade que aparece em vários momentos da narrativa. De peripécia de uma família sertaneja, fadada a um destino trágico (e qual não está?), o filme passa a história universal da necessidade de partir com as correntes que nos prendem e destroem nossas liberdades. Isso é “Abril Despedaçado”, o romper das amarras, o encontro com a infinidade do mar, e também o despertar para o cinema – o fato de abril ser o mês de meu aniversário é só mais um detalhe na equação. Um filme para carregar a vida toda.

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick ( A Clockwork Orange, 1971)Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (The Clockwork Orange, 1971) 

Foi o primeiro filme de Kubrick que eu vi, e o primeiro Kubrick não se esquece assim facilmente. Deve até haver outros dele melhores e mais reconhecidos como obras-primas, mas o impacto de “Laranja Mecânica” me foi imediato, um retrato de anarquismo e ultraviolência perpetrados por aquele grupo de delinquentes num futuro que nem parece tão distante assim. Decerto que todo aquele ambiente, linguagem e personagens peculiares se devem ao livro original de Anthony Burgess. Mas a mão precisa de Kubrick é essencial para dotar o filme da potência imagética e sonora que confere uma dimensão grandiloquente à trajetória de Alex, esse anti-herói odiável, fruto de uma sociedade de valores perdidos, aparentemente impossível de ser curado. Para além do discurso político sobre a natureza da violência social, tudo nesse filme é sinfonia, um estudo sobre a agressividade – de quem comete e de quem tenta revertê-la, na mesma moeda. Mesmo assim, não conseguimos tirar o olho.

Kill Bill Vol. I-Kill Bill Vol. II, de Quentin Tarantino (Kill Bill Vol. I-Kill Bill Vol. II, 2003-2004)Kill Bill Vol. I/Kill Bill Vol. II, de Quentin Tarantino (Kill Bill Vol. I/Kill Bill Vol. II, 2003/2004)

Ah, vá lá, estamos falando de uma obra só, dividida em duas partes, por conta da mente inquieta e genialmente criadora de Quentin Tarantino (também por seus caprichos), que não conseguiu se contentar com um filme só. Apesar desses dois momentos serem até distintos, continuam juntos o bom gosto e apuro estético, a direção caprichosa, o texto afiado, o pop como estilo norteador, reprocessados pelos tons de violência, enfim, todo o verniz cult que torna esse projeto tão prazeroso de se assistir, ininterruptamente, mesmo pelo grafismo brutal das mortes que deixam seu rastro sangrento. A noiva que quer matar Bill é no fundo a mãe que busca a vingança pela filha que lhe foi tirada, essa é sua sina, numa jornada tão louca quanto improvável, à medida que vamos desenhando os percursos da história para entender como se chegou àquela situação. E no fim, Tarantino ainda demonstra que tem coração, um carinho imenso por sua protagonista, apesar de não lhe facilitar o caminho, como poucas vezes se evidencia em sua filmografia.

6 Comments

  1. jorge jorge

    êta bom gosto cinéfilo.

  2. Excelente gosto para filmes, todos excelentes. Parabéns ao Rafael.
    Tenho carinho especial por GRITOS E SUSSURROS, LARANJA MECÂNICA e AURORA, obras-primas pra lá de absolutas.
    E me lembro que na época não entendi o porque de ignorarem ABRIL DESPEDAÇADO no Oscar. Filme lindo esse.
    Um excelente 2013 para todos nós! ;-)

    • Valeu, Weiner! Sobre Abril Despedaçado, tem uma galera que não gosta do filme (acha-no calculado demais, uma coisa assim). E teve uma campanha estranha pro Oscar também porque estreou em uma única sala no Brasil para ser considerado elegível. Enfim, continua um filme desconsiderado por muitos. E acho lindo demais.

  3. Uma lista com personalidade e acima de qualquer suspeita.
    Excelente apanhado, meu caro!

    Abs.

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