Resenha Crítica | Smashed – De Volta a Realidade (2012)

Smashed

Há um número grande de produções dramáticas com personagens centrais alcoólatras. Seja o vício algo central ou secundário na trama, nem sempre a situação é tratada da maneira mais adequada. Geralmente, visualizamos um indivíduo mergulhando em um abismo somente para na conclusão da história a redenção surgir com a sua força de vontade em sair da situação. Em resumo, são obras que adaptam para a sua época a fórmula do ótimo “Farrapo Humano”, a produção oscarizada de Billy Wilder.

Quem já acompanhou de perto alguém constantemente prejudicado pelo vício do álcool sabe que o momento de dizer basta é apenas o primeiro de muitos passos a serem dados. No processo de reabilitação não há somente o esforço extremo em evitar um drinque, como também o difícil convívio com outros alcoólatras, a tentação em consumir álcool em uma situação adversa, a falta de apoio daqueles que duvidam da recuperação e as consequências de atitudes cometidas no passado.

O independente “Smashed” é um filme especial porque registra de forma breve, mas magistral, todos esses percursos citados. Kate (Mary Elizabeth Winstead) é uma jovem que tem uma vida conformista com o seu marido Charlie (Aaron Paul), pois nada fazem para evoluírem como seres humanos. Além de se embriagarem diariamente, sequer adquiriram a própria independência, pois os pais de Charlie bancam a residência em que vivem.

A perspectiva de Kate muda ao encontrar-se não em uma, mas em duas noites no meio da rua sem se recordar muito bem dos eventos que a levaram a tal situação. Tendo que trabalhar com ressaca na escola de ensino infantil que leciona, a situação só piora: ao vomitar na sala de aula, Kate diz sim quando os alunos perguntam se o enjoo é devido uma gravidez. O constrangimento chega ao ouvido da diretora da escola (papel de Megan Mullally), que acredita que Kate realmente está grávida.

Incentivada por Dave (Nick Offerman), seu colega de trabalho, Kate passa a frequentar o A.A. e se mostra resistente em todas as ocasiões em que se depara com garrafas ou copos preenchidos com alguma bebida alcoólica. Apesar da fé que deposita em si mesma e do apoio de Dave e Jenny (Octavio Spencer, em uma interpretação sutil que prova que o seu Oscar por “Histórias Cruzadas” não foi um erro), Kate terá de enfrentar o marido e a mãe (Mary Kay Place) que não a apoiam e o dever que tem de desmentir a gravidez para a sua chefe e os seus alunos.

James Ponsoldt persegue Kate com câmera na mão, uma decisão que espelha uma protagonista que a todo o momento está prestes a perder o controle. Uma cena que traduz muito bem isso é quando Kate se apresenta em seu primeiro dia no A.A.: o close trêmulo flagra a vergonha da personagem diante daquela situação. O seu maior acerto, entretanto, é depositar a confiança em Mary Elizabeth Winstead para conduzir um papel tão difícil e delicado. A atriz, indicada ao último Indepedent Spirit Awards, tem uma interpretação irrepreensível e sempre evidencia as qualidades de Kate, uma pessoa de bom coração que se embriaga para esquecer seus incômodos particulares ao invés de enfrentá-los sóbria. O resultado é um belo filme que, sem moralismos baratos ou soluções fáceis, se mostra um dos mais notáveis sobre um tema tão palpável.

Smashed, 2012 | Dirigido por James Ponsoldt | Roteiro de James Ponsoldt e Susan Burke | Elenco: Mary Elizabeth Winstead, Aaron Paul, Nick Offerman, Megan Mullally, Octavia Spencer, Mary Kay Place, Kyle Gallner, Bree Turner, Mackenzie Davis, Barrett Shuler, Rene Rivera, Ron Lynch e Brad Carter| Distribuidora: Sony

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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