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Amor Pleno

Amor Pleno | To the Wonder

Cineasta consagrado com carreira com poucos títulos, Terrence Malick parece compensar somente agora todos os anos que se manteve recluso entre a produção de longas-metragens. Antes de receber a Palma de Ouro em Cannes por “A Árvore da Vida”, Malick já estava concluindo este “Amor Pleno”  e contava com mais três projetos em fase de desenvolvimento: “Knight of Cups”, “Voyage of Time” e o “Projeto Sem Título de Terrence Malick”, todos atualmente em fase de pós-produção.

Reconhecido pelo modo sem igual como capta suas cenas e pelo rigor com que conta as suas histórias praticamente visuais, é natural a expectativa gerada em torno de suas obras. O coração de Terrence Malick esta presente em cada segundo de “Amor Pleno”. Assim como em “A Árvore da Vida”, há aqui uma história que lida com temas universais como o amor, a família e a religião. No entanto, muita coisa se perde em sua condução lírica.

Embora seja ambientado nos dias atuais, “Amor Pleno” tem lances autobiográficos. Interpretado por Ben Affleck, Neil apaixona-se por Marina (Olga Kurylenko, no melhor trabalho de toda a sua carreira) francesa divorciada que vive com sua pequena filha, Tatiana. O amor compartilhado entre ambos é forte e o Monte Saint-Michel serve de cenário para ilustrar a plenitude desse sentimento. Ao viver juntos em uma residência em Oklahoma, o relacionamento não se fortalece. Tatiana não se adapta ao novo lar e não demora em surgir uma crise entre o casal.

Com o visto vencido, elas retornam para França e ele, solitário, se reconecta à Jane (Rachel McAdams), uma mulher com receios em se envolver seriamente com um homem devido a uma série de rompimentos que enfrentou durante sua vida. Por Jane ser alguém que conhece tão bem desde a adolescência, Neil gostaria de tê-la por perto, mas ainda não superou Marina, que voltará a contatá-lo admitindo a si mesma que não conquistou na França todos os seus objetivos.

Assim como a história vista em “Amor Pleno”, Terrence Malick também viveu um relacionamento com uma francesa. Após 13 anos de união, ele pediu divórcio e imediatamente se casou com Alexandra, um amor dos tempos do colégio.  Apesar disso, Neil é um personagem coadjuvante em “Amor Pleno”, uma vez que são raros os instantes em que sua perspectiva narra os acontecimentos íntimos que testemunhamos.

Novamente com a colaboração do diretor de fotografia Emmanuel Lubezkik, o cineasta obtém imagens deslumbrantes. Sua câmera passeia em cenários e entre pessoas com a mesma leveza que Marina, uma dançarina totalmente inebriada pelas emoções que a rodeiam. O apego à imagem, porém, não supriu apropriadamente as interações humanas que dependem do diálogo para se sustentarem.

Terrence Malick tem um modo peculiar de rodar os seus filmes. Não entrega aos seus atores um roteiro pronto, somente divagações que servem como orientações para o que eles devem fazer em cada take. O modo como a história foi concebida também está sujeito a inúmeras modificações na ilha de edição, em que um protagonista pode se transformar em mero coadjuvante, diálogos são substituídos por pensamentos narrados em off e atores são cortados sem cerimônia (nomes do calibre de Jessica Chastain e Michael Sheen tiveram suas participações limadas).

Se o método assegurou o bom resultado de “A Árvore da Vida”, o mesmo não acontece em “Amor Pleno”. O romance não arrebata porque Malick não está interessado em investigar o que Neil e Marina esperam um do outro. Além do mais, Ben Affleck só surpreende com o seu empenho por trás das câmeras iniciado com “Medo da Verdade”, pois como intérprete permanece frio, intragável. Sendo um diretor que trabalha essencialmente com a linguagem corporal dos seus atores, é inadmissível que Malick o tenha escalado para viver um papel tão importante. “Amor Pleno” é puro reflexo da história paralela totalmente deslocada do padre vivido pelo espanhol Javier Bardem. Há somente possibilidades superficiais e nenhuma certeza.

To the Wonder, 2012 | Dirigido por Terrence Malick | Roteiro de Terrence Malick | Elenco: Olga Kurylenko, Ben Affleck, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O’Gans, Charles Baker, Marshall Bell e Casey Williams | Distribuidora: Paris Filmes

6 Comments

  1. Quer dizer, então, que Terrence Malick se perdeu na utilização excessiva de seus efeitos visuais particulares, certo?

    Abs!

    • Não apenas nisso, Otavio, embora todos os problemas sejam desencadeados a partir da visão particular dele sobre o romance que se forma e se desconstrói na tela. Um abraço.

  2. Sinceramente, achei esse filme um verdadeiro porre. Repetição preguiçosa de todos os elementos de “A Árvore da Vida”, em uma história completamente vazia. Só gostei mesmo de Javier Bardem.

    • Matheus, pois acredito que Javier Bardem está totalmente deslocado na história. Gostei mesmo das entregas de Olga Kurylenko e Rachel McAdams.

  3. Estou enganada ao pensar que o filme é muito sensorial? Estou encantada com ele desde que assisti pela 1a vez. as cores, luzes, sons (a propria delicadeza do frances), a voz… Tanta sutileza e maravilha. A leveza de Marina faz do filme uma dança, em meu olhar… Lindo.

    • Carolline, toda a filmografia de Malick é preenchida por obras sensoriais (excetuando talvez “Terra de Ninguém”, um filme com uma estrutura narrativa mais convencional). Às vezes funciona, como visto em “A Árvore da Vida”. Outras, nem tanto, a exemplo, ao meu ver, desse “Amor Pleno” e “O Novo Mundo”.

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