Skip to content

Resenha Crítica | Pièta (2012)

Já tendo vencido o Leão de Ouro por “Casa Vazia”, o cineasta sul-coreano Kim Ki-duk conseguiu novamente o feito de conquistar o prêmio máximo do Festival de Veneza no ano passado com “Pièta”. O único senão é que a audiência presente na ocasião não acreditou que o longa-metragem reproduzia a qualidade de seus maiores feitos como diretor, depositando assim maior ânimo diante de outros títulos da disputa, como “O Mestre”, “Fill the Void” e “The Fifth Season”.

A verdade é que a força de “Pièta” parece ter ficado em Veneza, pois o filme não fez uma carreira expressiva por onde passou posteriormente. De qualquer maneira, o filme deverá perturbar os seguidores do cinema de Kim Ki-duk, pois há momentos barra-pesada e de pura delicadeza nesta história de uma mãe, Mi-son (a extraordinária estreante Min-soo Jo), em reconquistar o amor de seu filho, Gang-Do (Jeong-jin Lee).

Gang-Do é um jovem que carece de sentimentos. Diante de uma frieza implacável, ele leva a sua rotina no automático, consistindo em se masturbar antes de levantar da cama, matar galinhas para se alimentar e ferir devedores atuando como cobrador para agiotas. Pais de família ou filhos de anciãs têm mãos, braços ou pernas quebrados por Gang-Do sem a menor cerimônia. E assim vem Mi-son e a sua disposição inabalável em cuidar de um filho que assume ter abandonado.

Como é aguardado em qualquer título do cinema coreano, a relação familiar não se dá de modo convencional. Ao contrário. A violência não é atenuada e a sensação é de que nem todas as intenções dos personagens se revelam nos primeiros instantes. Além do mais, há nesta história também assinada por Kim Ki-duk a vontade de estudar uma classe social deixada à parte, em que anônimos estão dispostos aos sacrifícios mais inimagináveis para sobreviverem.

Mesmo deixando marcas profundas, não há como negar que a condução de Kim Ki-duk erra ao nos agredir emocionalmente. Sua câmera é inquieta em ambientes claustrofóbicos e há um instante em que ele parece nos estapear ao reproduzir com imagens trêmulas os golpes que Mi-son recebe de Gang-Do. Sabe-se que o cineasta foi invadido por uma depressão profunda que o assolou por algum tempo e incomoda o fato dele externá-la ao ponto de distanciar o público de uma história que, lá no fundo, tem uma beleza ímpar. Que ele consiga domar a sua fúria em “Moebius”, que será exibido fora de competição na atual edição do Festival de Veneza.

Pieta, 2012 | Dirigido por Kim Ki-duk | Roteiro de Kim Ki-duk | Elenco: Min-soo Jo, Jeong-jin Lee , Eunjin Kang, Ki-Hong Woo, Jae-ryong Cho, Myeong-ja Lee, Jun-seok Heo, Se-in Kwon, Mun-su Song, Beom-jun Kim, Jong-hak Son, Jin Yong-Ok e Jae-rok Kim | Distrubuidora: California Filmes

3 Comments

  1. Não assisti ao filme ainda, mas fiquei intrigada com a sua crítica, especialmente com o fato desse estilo de câmera que você cita no último parágrafo do seu texto.

    • Kim Ki-duk usa uma câmera agressiva para lá de desnecessária. Há também alguns planos usados quando os personagens estão nas ruas que são muito desleixados. Mas a força da história é o que realmente prevalece. Recomendo.

  2. Parece-me que tivemos reações parecidas. Também me chamou a atenção o comentário sobre a situação econômica da classe excluída e os sacrifícios que os pobres devem fazer por causa de dinheiro, à mercê de agiotas.
    Mas achei igualmente louvável a recusa do roteiro em unidimensionalizar os personagens.

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers:

%d blogueiros gostam disto: