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Resenha Crítica | Apenas Um Suspiro (2013)

Apenas um Suspiro | Le temps de l'aventure

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Em tempos de sucessivas desilusões, a melhor saída pode ser se lançar para o acaso. Não há muito o que perder e mergulhar no desconhecido talvez resulte em novas possibilidades para encarar a vida com mais positividade. Alix Aubane (Emmanuelle Devos) é uma mulher que está insatisfeita com as consequências de suas escolhas e que pela primeira vez se permite a embarcar em uma aventura ao desconhecido.

Atriz teatral sem renome e sem um tostão no bolso, Alix viaja de trem à Paris para fazer um teste para um papel de uma mulher com o coração despedaçado e para almoçar com a sua mãe. Antes de chegar ao seu destino, Alix é atraída por um homem de meia-idade irlandês (Gabriel Byrne) aparentemente abatido com algo. Durante toda a viagem, há uma intensa troca de olhares entre Alix e este homem.

Quando finalmente o trem chega em sua última estação, este irlandês pergunta à Alix se ela fala inglês e se pode auxiliá-lo a chegar a um endereço. Um outro passageiro bem-intencionado faz a voz de Alix morrer na garganta e ambos seguem caminhos opostos. A seguir, Alix faz o seu teste, adentra o apartamento de sua mãe para lhe tomar alguns trocados em sua ausência e parece decidida a retornar para casa em Calais. No entanto, antes de tomar o trem, percebemos que Alix está definitivamente encantada por aquele charmoso e estranho homem irlandês – isso sem que ela diga qualquer palavra.

Este é somente o ponto de partida de “Apenas Um Suspiro”, quinto longa-metragem do jovem diretor e roteirista francês Jérôme Bonnell e, através dele, comprovamos o seu talento singular em comunicar tanto através de tão pouco. Trata-se do resgate da fórmula que assegurou o sucesso da trilogia de Richard Linklater sobre o casal Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy), mas com uma proposta e resultado muito distintos.

Nada é muito certo sobre os personagens de Emmanuelle Devos e Gabriel Byrne, cuja sintonia se confirma em um velório. Embora Alix seja a personagem que move “Apenas Um Suspiro”, não desvendamos de imediato como se dá a relação com a sua família e para quem ela insiste em ligar a toda hora. Menos ainda se sabe sobre o homem irlandês, que aparentemente está enterrando uma mulher que amava.

Jérôme Bonnell tem ciência de que é exatamente a desorientação que nos envolve ainda mais com os personagens e acerta ao não determinar de antemão os rumos que a sua história tomará. Há muitos encontros e desencontros, obstáculos que impedem que ambos permaneçam juntos para se conhecerem melhor e humor e romantismo que se manifestam com precisão.

São muitos elementos narrativos e Jérôme Bonnell dá conta de tudo graças à escolha certeira de Emmanuelle Devos e Gabriel Byrne. Embora não tenha a mesma fama de uma Audrey Tautou (com quem contracenou em “Coco Antes de Chanel“, aliás), Emmanuelle Devos prova sua força como atriz ao fazer de Alix uma mulher madura tomada por inquietações quase juvenis. Parceiro de cena, Gabriel Byrne está cada vez mais fascinante com o avanço da idade. O efeito hipnótico provocado pelos seus olhares e voz suave é apenas um dos vários métodos de trabalho deste que é um dos maiores atores em atividade.

De tão envolvente, desejamos que “Apenas Um Suspiro” estenda o registro do dia deste casal que se desenha. É como se Jérôme Bonnell materializasse na tela o desejo que cada um de nós tem de se entregar a um amor impossível ou as armadilhas do destino. O fato de deixar lacunas não preenchidas ao final de “Apenas Um Suspiro” só prolonga o armazenamento da agradável experiência de vê-lo em nossa memória.

Le temps de l’aventure, 2013 | Dirigido por Jérôme Bonnell | Roteiro de Jérôme Bonnell | Elenco: Emmanuelle Devos, Gabriel Byrne, Gilles Privat, Aurélia Petit, Laurent Capelluto, Françoise Lebrun, Denis Ménochet, Sébastien Pouderoux, Olivier Broche, Eddie Chignara, Victoria Quesnel, Jérôme Baëlen, Anne-Elodie Sorlin, Odile Grosset-Grange e Clément Bondu | Perspectiva internacional

2 Comments

  1. Faz tempo que não vejo um filme com Gabriel Byrne. Acho que me acostumei mais a vê-lo como o Dr. Paul, em “In Treatment”, série que faz falta, por sinal! Anotei a dica, Alex.

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