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Bate-papo com Júlio Bressane, diretor de “Educação Sentimental”

Júlio Bressane
Júlio Bressane, diretor de “Educação Sentimental” [Foto: Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Cineasta veterano ainda em atividade, o carioca Júlio Bressane prossegue com a produção de filmes em que ele mesmo admite são saber o que são. Mesmo que isto acarrete na organização de um público muito restrito (seu último filme, “A Erva do Rato”, foi assistido por aproximadamente 10 mil espectadores durante sua jornada no circuito comercial), há ainda força em seu nome ao ponto de prosseguir como um de nossos cineastas mais autorais em um país que prioriza as produções populares.

Júlio Bressane reagiu com surpresa quando uma boa parcela do público que assistiu a “Educação Sentimental” permaneceu na sala após os créditos finais para participar de um bate-papo – com duração de aproximadamente 15 minutos, a oportunidade de falar com o público se alongou em meia hora. A primeira exibição de seu novo longa-metragem na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo aconteceu no dia 23 de outubro. Quase um mês depois, postamos a transcrição da gravação que fizemos na ocasião. Não foi uma tarefa fácil, uma vez que é hábito de Bressane ir muito além das perguntas realizadas, o que é sempre bom para elucidarmos ainda mais o seu cinema peculiar.

Sobre a relação com o cinema.

O filme propõe. O indivíduo dispõe. Você faz um filme e não sabe o que é. Se eu soubesse, eu não fazia. Tem uma parte da coisa que você controla, que você domina. Mas há a outra parte que domina você. O que você faz é uma coisa mínima que a sua consciência permite. Difícil é você deixar que essa outra força fale por você, que te contradiga, que negue o que você está fazendo. Essa ideia que surge, uma “viagem”, é o momento bom do filme, onde você pode esquecer de si mesmo, sair um pouco de si mesmo, sair para algo fora de você.

Educação Sentimental

Sobre o personagem de Bernardo Marinho e inaturalidade.

Eu procuro não me meter com o filme. Eu tenho alguma coisa que me é dada, uma cena… Eu vou atrás daquilo, mas procuro não me meter com o filme. Evito, até onde posso, não direcionar coisa nenhuma, apesar da questão do enfraquecimento das palavras, do discurso básico. Mas, mesmo assim, tem que falar alguma coisa. A dificuldade está dentro de entender a histeria e não haver espaço para falar. As coisas são ditas para serem compreendidas. Há o menino que tem o dom da escuta, não sabe nada, um jovem completamente despreparado para qualquer coisa. Não tem experiência de leitura, de vida. Não tem nada, não sabe nada. Agora, também é alguém que tem o dom ouvir, esta é a questão rara. Não somente em um jovem, mas em qualquer um. É uma educação às avessas, pois é dito coisas que ele não compreende, que ele não sabe o que são. São coisas ditas justamente para não serem compreendidas. Mas se alguém pode escutar, tem que continuar escutando. Agora, a persistência em escutar, a persistência em buscar esse desentendimento, vem do esforço de cada um. No momento em que você compreendeu e já sabe o que é, tudo está morto. A questão é justamente alguma coisa que excite porque você não sabe o que é. A força ali está na capacidade de escutar, esse dom. É uma coisa perdida a educação, o afeto… está tudo fora do mapa. Não tem mais importância.

O dinheiro está de uma maneira distribuído hoje no qual não tem mais como reverter. A coisa sensível está desaparecida. Hoje é o valor, suprir o salário, a vitória da civilização do trabalho. Isso aí é o mundo irresponsável, o mundo ocioso, o mundo inútil. Essa que é a coisa interessante. Hoje a escravidão é paga bem, inclusive. A gente luta pelo salário. Imagina você trabalhar dez, doze horas ou até mais que isso. Não tem como mais ter um outro estilo. Hoje as artes são repartidas com restaurantes, com a Disneylândia, com coisas para as quais você trabalha, luta para ter um salário, para gastar nisso. Você trabalha, você se mata para comprar um relógio, um carro. Essa questão é hoje inatual e anacrônica. O contemporâneo é o inatual. Áurea é uma mulher que tem o dom da memória, de fazer com que uma coisa desaparecida, distante, possa se aproximar de você, o que um filósofo chama de “imagem dialética”. Uma coisa de um passado e que vem até agora. Junta-se os tempos, aquela coisa nebulosa que se forma. Você vê o passado e o agora se juntarem. Isso é uma imagem dialética. Isso é algo que tem em “Educação Sentimental”. É um filme inatual. Isso é um milagre, ter gente aqui sentada ainda. Não há mais público para isso. É o mesmo que falar japonês na Nigéria. Não há como compreender.

Educação Sentimental

Sobre o trabalho em equipe, finitude e geocentrismo.

Todos os filmes demoram um pouco para você organizar, racionalizar o irracional. Devo esse filme ao (produtor) Marcello Ludwin Maia. “Educação Sentimental” tem algo semelhante à pintura, antiga, de ateliê. É feito por muitas mãos. Muitas mãos trabalham ali. Marcelo foi quem organizou essas forças para trabalhar no filme. Isso tudo é uma preparação que se organiza e que na hora de filmar se esquece. Eu faço cinema de improviso. Agora, para chegar aí, você faz as coisas contra você, evita fazer as coisas que você gosta. De repente, o que você gosta é uma porcaria. A dificuldade está em justamente entender alguma coisa que você não gosta e aí essa coisa pode funcionar para você. Se você imaginar uma coisa para você fazer porque quer ou porque gosta, não seria necessário fazer. É como ir para uma terra incógnita. Há uma preparação e um sacrifício muito grande. O sacrifício de persistir em uma coisa e se apagar nela.

Um caso desse que está em jogo, uma coisa importante, é que, apesar de ter mais de 500 anos, nós ainda vivemos como se a Terra fosse o centro do universo. Chegamos ao mundo geocêntrico e ainda estamos no mundo geocêntrico. Estamos ainda em um mundo que gira em torno da Terra. Isso daí já é a cosmologia infinitiva, já é a passagem onde a morte é bem-vinda, que foi uma coisa que desapareceu da nossa vida. A musa da vida é a morte e ela desapareceu, hoje ninguém morre mais. Essa coisa senil da juventude em que tudo é investido. Ou seja: tudo investido em coisa alguma. Essa figura central, que é a finitude, é o que o levará para o infinito. Isso daqui em breve não passará de poeira. E essa é a memória futura que você está jogando, não a passada. Essa é uma discussão que é você dar uma taça de veneno para a pessoa beber. Ninguém que está fazendo o sacrifício que faz hoje aceitará isso. A vitória absoluta é da civilização do trabalho. Desse trabalho que está aí, o peão.

Educação Sentimental

Sobre a figura materna representada por Débora Olivieri, transparência e opacidade.

Áurea é mulher com um dom humano arcaico, que é o de colocar as entranhas em contato com as estrelas. Isso é feito através da dança, uma coisa arcaica da humanidade. Há cerimônias religiosas, de euforias, em que você se colocava em relação cósmica. Criava entre você e o cosmo um elo, uma força que foi perdida. Assim, o filme tem um pouco essa sonoridade desse atrito das entranhas com as estrelas. O filme tem uma mancha de fundo que é a questão da divindade, do amor proibido, do amor de um imortal por um mortal. É aí que surge essa questão da mãe, que chega para criar um desacerto. A mãe é o humano. Tudo o que ela diz são as coisas humanas: mãe querer comer o filho, suruba com a própria empregada. Isso é coisa humana, da humanidade inteira. Isso é o que quebra o encanto, revela que o menino é humano. A mãe é o fator humano, o fator normal, o Homem comum que chega para dizer o que todos os homens dizem. Não há uma mulher que não queira comer o filho ou vice-versa. Isso faz parte da natureza do Homem – bom, não estou dizendo que todos tenham feito isso ou que pensam “Bom, isso não é comigo” ou que esses homens só existem nos livros ou, não, que nós somos outra coisa. Essa que é a questão da tradição, da erupção da personagem, uma mulher humana, comum. Gente ordinária.

Há um aspecto secundário em meus filmes. O cinema sofre de uma hipertrofia imensa. O cinema hoje é sobre um sujeito que sai de carro, bateu e voltou para casa. O filme se limita a isso. Você imagina um fotograma, com centenas de milhares de grãos. Cada grão é uma luz. Tô falando da trama. Há uma deformação. Você vai buscar uma coisa no filme que talvez ele não tenha. Uma história, um enredo. E isso não é da natureza do filme. A coisa de fundo que tem aí é a questão da passagem da transparência para a opacidade. Cinema até hoje – ou o cinema de ontem – foi feito em película. Ou seja, a complexidade do mecanismo do cinema é que ele é uma projeção de uma transparência. O filme é um fotograma transparente, uma pasta granulada onde se imprime a luz. O cinema tem que ser visto a partir do fotograma, não do enredo. Isso é julgar elefante pela unha. O início é a questão da ocupação da transparência pela sombra, alguma coisa que organiza o nada.

Nós recebemos uma carta do laboratório que fez “Educação Sentimental” nos cumprimentando por ser o último filme feito em película por lá. Desmontaram o laboratório e doaram tudo para a Cinemateca. A película hoje não tem mais razão para existir. Na França de hoje, o país do cinema, 95% dos cinemas contêm somente projeção digital. Então passou o cinema da transparência para a opacidade. O digital é opaco. Como foi o vídeo, que já era opaco. Agora, isso não é uma perda, como muitos podem imaginar. A opacidade é algo importante, é o inconsciente e o sujeito. O campo de exploração da opacidade é tão interessante quanto o campo de exploração da transparência.

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