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Bate-papo com o diretor Hilton Lacerda, a atriz Sylvia Prado e o ator Sílvio Restiffe, de “Tatuagem”

Hilton Lacerda
Hilton Lacerda, diretor de “Tatuagem” [Foto: Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Todos aguardavam com ansiedade a primeira exibição de “Tatuagem” na 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que aconteceu na sala 1 do Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca na sexta-feira, 25 de outubro. O atraso para iniciarem a exibição do filme era aguardado. O mesmo não pode ser dito sobre um problema de projeção que se apresentou já nos primeiros segundos: os comerciais dos patrocinadores e a vinheta da Mostra foram exibidos com uma coloração esverdeada. Protestos rapidamente foram emitidos e tudo indicava que a exibição de “Tatuagem” seria cancelada.

Felizmente, Jean Thomas Bernardini, o nome por trás da distribuidora independente Imovision, havia se prevenido uma versão 35mm de “Tatuagem“, o que animou toda a plateia. Ovacionados, diretor e equipe do premiado longa-metragem não somente o apresentaram, como voltaram após os créditos finais para um rápido bate-papo. Quem roubou as atenções na ocasião foi o bebê da atriz Sylvia Prado, que a todo momento pegava o microfone. Nasce uma estrela?

 

Tatuagem

Sobre a distribuição de “Tatuagem” no Brasil.

Hilton Lacerda: Eu não entendo público como mercado, são duas coisas diferentes. Tenho uma preocupação relacionada ao cinema brasileiro. Como opinião pessoal e até muito perigosa, estamos começando a ficar feliz com muito pouco. “O Som ao Redor”, do Kléber Mendonça Filho, foi um filme que teve uma bilheteria incrível, foram 100 mil espectadores. Ou mudamos essa gramática de como essas coisas são tão elaboradas ou vamos acabar perdendo o olhar. Eu não quero, por exemplo, que um órgão específico contabilize quantas pessoas viram o meu filme. Não quero um Filme B dizendo que três mil, cinco mil, quinze mil pessoas viram “Tatuagem”. Quero que as pessoas simplesmente o vejam. Não estou oferecendo o meu filme para público mas sim para pessoas. Acho muito triste a ideia de um país estar se tornando mercado dos outros, pois a gente só recebe coisas do mercado dos outros. A gente deve ser responsável pelas nossas próprias merdas. Vamos de fato colocar o nosso cu na reta e ver o que acontece.

Tatuagem

Sobre a dinâmica do Chão das Estrelas.

Hilton Lacerda: Começamos a fazer o teste com os atores durante seis semanas de convivência. No roteiro havia as peças que deveriam ser reproduzidas e entregamos para o grupo de teatro para que representassem, trazer para gente o que eles viam naqueles espetáculos, o que foi uma forma de aproximação. Talvez a experiência mais interessante seja os próprios atores, pois isso se reproduz no Chão de Estrelas. Não que cinema tenha que ser feito desse jeito, mas neste caso específico era muito importante para que isso inspirasse a gente de alguma forma. É muito complicado você interpretar dois números musicais  com dados específicos: essa coisa pseudonaturalista que é o cotidiano e a extravagância que é o teatro. Tivemos a (preparadora de elenco) Amanda Gabriel, que trabalhou com a gente o tempo inteiro fazendo essa ponte e criando essa possibilidade. São personagens muito importantes, os de Chão de Estrelas. Havia a proposta de todo mundo ir e vir junto para o mesmo lugar. Um exemplo é o Irandhir Santos, um ator que eu admiro demais. Mas a ideia não era de todo mundo chegar a Irandhir, mas que ele se aproximasse do grupo. Foi uma declaração de amor com os atores mais lindos e brilhantes com quem trabalhei ultimamente.

Sylvia Prado (intérprete de Deusa): Foi muito impressionante porque a atmosfera do Chão de Estrelas já existia. Eu cheguei e vi uma companhia de teatro muito forte, foi um trabalho muito intenso. Muitas das coisas que a gente viveu lá estão na película. A escolha foi muito assertiva porque neste pouco tempo  a gente viveu a eternidade, foi maravilhoso. Eu era de alguma maneira essa personagem com o olhar de fora da companhia e que conversa com o Clécio (personagem de Irandhir Santos). A gente fez muito laboratório com a Amanda, maravilhosa e que equalizou tudo isso, e quando eu cheguei ela já me colocou no fogo de uma relação que eu tinha que ter com o Clécio. Irandhir é um ator excepcional e ele foi generoso com todos nós. Foi o pai dessa companhia que existe até hoje.

Eu acho que esse filme é atualíssimo e importantíssimo para o Brasil e o mundo hoje, pois queremos viver com liberdade artística. Eu tenho esse desejo como atriz de teatro e fiquei muito feliz de ser convidada pelo Hilton com toda a minha dificuldade. Falta fusão entre as artes. A cultura precisa de liberdade para criar, de fazer o que pode, o que tem desejo de fazer. “Tatuagem” foi feito com muito desejo e eu sinto falta que a gente junte o teatro e o cinema, pois estamos falando a mesma língua e com as mesmas necessidades no Brasil de hoje.

Silvio Restiffe (intérprete do Professor Joubert): Compartilho sobre o que a Silvia falou. Além da Amanda, teve um diferencial, que foi de uma outra janela que tive de filmar. Realmente isso aconteceu e eu participava da criação dos filmes em Super 8mm. No primeiro dia de filmagem, o Hilton me disse que eu participaria da criação do filme. Eu disse ok. Esse processo de criação do filme me ajudou muito e gostaria de agradecer ao Hilton e também ao (diretor de fotografia) Ivo Lopes Araújo, que me apresentaram essa janela. Eu descobri muito sobre filme através de olhar a câmera e frame a frame e esse processo de criação da cena em que fazíamos cada número. O que vejo do filme é que foi uma ponta de iceberg, um processo muito intenso. A gente estava naquela atmosfera o tempo todo. É muito diferente, o mundo do cinema e do teatro. Estava saindo com a Sylvia de uma peça com duração de sete horas e aí, de repente, a gente saí das cinzas e vai a eternidade. O cinema é essa pintura rupestre. Quem viu a peça “O Idiota – Uma Novela Teatral”, viu. Quem não viu…

Hilton Lacerda: Tem uma coisa relacionada aos atores que era uma certa cumplicidade, às vezes era muito engraçado. Haviam figurantes que gostariam de participar da apresentação do Chão de Estrelas e que diziam que era muito bom trabalhar em “Tatuagem”, pois podiam fumar e beber. Disse que tudo bem. Contanto que não atrapalhassem, está tudo certo. Isso fazia parte de nossa proposta. Qualquer pessoa que esteja em frente a uma câmera e se propor a algo já é ator. A coisa mais engraçada era você emprestar o seu corpo para algo que na minha cabeça era muito importante.

One Comment

  1. […] Eleito o melhor lançamento do mês de novembro, “Tatuagem” é mais um título que comprova a boa fase do cinema nacional mantida desde o início do ano passado. Após “O Som ao Redor” e “Elena“, o longa de Hilton Lacerda é o terceiro filme nacional a assumir o topo das melhores médias. Durante a 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, parte da equipe do filme participaram de um rápido bate-papo com o público. Para conferir a transcrição, basta clicar aqui. […]

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