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Em temporada de eleições em nosso país, os meios de comunicação são tomados por programações de campanhas realizadas por partidos políticos. A televisão é o veículo que se destaca como o mais utilizado para a propagação de promessas dos candidatos. As emissoras obrigatoriamente disponibilizam um espaço em sua grade que busca atingir o maior número de telespectadores. Daí a antipatia do brasileiro pelo horário eleitoral gratuito, uma vez que configura no atraso do telejornal que o atualiza sobre os acontecimentos do dia ou mesmo sua telenovela favorita.

Por outro lado, o horário eleitoral gratuito também pode ser denominado um fenômeno que influencia (e até mesmo entretém) toda a nação. Como não recordar uma figura pública espalhafatosa como o finado candidato do PRONA Enéas Carneiro, que em 2002 se elegeu como Deputado Federal ao receber votação recorde? Há também Paulo Salim Maluf, cuja carreira como político eleito fez cair por terra o próprio caráter que exaltava exaustivamente em campanhas eleitorais. São apenas dois exemplos que evidenciam o que muitos jamais enxergam com clareza: as engrenagens por trás de um jogo político.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “No” não é próximo de nosso passado recente (ou mesmo de nosso cenário contemporâneo) somente por se tratar de uma produção latino-americana. Assim como o Brasil, o Chile também viveu os seus tempos de chumbo e a democracia promovida com o poder do voto é o que constrói a história.

Realizador de “Tony Manero”, Pablo Larraín adapta a peça teatral homônima de Antonio Skármeta para reviver a Ditadura Militar de Augusto Pinochet, tomando posse do Chile com o Golpe Militar em 1973 que eliminou o presidente marxista Salvador Allende. A história se passa em 1988 e o país segue com centenas de desaparecidos por agentes do Governo Pinochet, presos políticos e censura na imprensa.

Embora tenha promovido plebiscitos durante o seu Governo, Pinochet se beneficiou ao inviabilizar qualquer interferência da oposição, firmando-se anos a fio à frente do Chile. O mesmo não ocorre ao final da década de 1980, em que as pressões (inclusive internacionais) o fazem inaugurar um novo plebiscito em que os chilenos expressarão o apoio ou objeção a um novo mandato de oito anos.

Requisitado publicitário, René Saavedra (Gael García Bernal) é convocado para elaborar projetos a serem exibidos em rede nacional para que as pessoas votem “Não” para a eleição de fevereiro de 1988. Restam aproximadamente quatro semanas para que a população vá às urnas e René se apresenta inadequado para liderar um movimento pela mudança. A princípio, René não parece saber o que está fazendo (sequer identifica o que representa cada cor do arco-íris que cobre o logotipo “No”) e há preocupações pessoais em excesso, como a responsabilidade de trabalhar e cuidar do filho pequeno Simón (Pascal Montero), fruto de um relacionamento desfeito com Verónica (Antonia Zegers), jovem que é constantemente capturada ao participar de manifestações populares contra Pinochet. Além disso, René é subordinado de Lucho Guzmán (Alfredo Castro), que, por sua vez, moverá forças para criar campanhas pelo “Sim”.

Com a intenção de emular a estética midiática dos anos 1980, o cineasta Pablo Larraín ousou ao rodar “No” com U-matic, o formato de tape analógico para gravação com 3:4 de proporção (a tela recebe cortes verticais). Para nos ambientar naquele período, a diretora de arte Estefania Larrain investe pesado na fidelidade aos cenários, objetos de cena e até mesmo ao estilo oitentista dos personagens, algo possível graças ao trabalho da figurinista Francisca Román  e da maquiadora Margarita Marchi.

Por ter origens teatrais, “No” é irregular quando a ação demanda largo alcance. O roteiro ignora a encenação de conflitos com uma grande concentração de pessoas e quando não os evita no clímax, o resultado soa inconvincente. Para aplacar essa deficiência, “No” confere maior importância às propagandas políticas idealizadas por René, que definitivamente representam os maiores trunfos de “No”. De tão ingênuas, elas provocam risos inevitáveis. No entanto, o elemento surpresa vem sobre a conclusão que tiramos sobre elas. Trata-se de ferramentas persuasivas que determinou não somente o fim de Pinochet, como também os rumos de todo o panorama político.

No, 2012 | Dirigido por Pablo Larraín | Roteiro de Pedro Peirano, baseado na peça homônima de | Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Marcial Tagle, Pascal Montero, Jaime Vadell, Elsa Poblete, Diego Muñoz, Roberto Farías, Sergio Hernández, Manuela Oyarzún e Paloma Moreno | Distribuidora: Imovision

One Comment

  1. Adoro “No”. Acho um filme excelente, especialmente por causa do registro histórico que faz e da forma como a história é contada. Além disso, Gael García Bernal está ótimo no papel principal.

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