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Resenha Crítica | Carrie – A Estranha (2013)

Carrie - A Estranha| Carrie (2013)

Em uma época em que o bullying ainda não denominava a prática de agressão física ou verbal em um ambiente estudantil, Stephen King criou “Carrie – A Estranha”, a obra que iniciaria a sua carreira como o mais notável romancista do macabro. A repercussão foi ainda maior com a adaptação para cinema conduzida por Brian De Palma, que foi além das amarras do livro ao oferecer algo que também tratava de fanatismo religioso, o amor dúbio entre uma mãe e sua filha e o difícil processo de se adaptar em um ambiente em que todos o consideram um alien.

Estamos no século XXI, época em que o bullying já se tornou frequente nos colégios e que más intenções podem ser compartilhadas com a distância de um clique. Kimberly Peirce sabe muito bem disso e revive um dos maiores clássicos de Brian De Palma oferecendo inicialmente provas de que inserir Carrie White nos dias de hoje é uma boa ideia. Portanto, não é apenas o lançamento de absorventes por colegas de classe que aterroriza Carrie (Chloë Grace Moretz) em sua primeira menstruação enquanto toma banho no vestiário ou a falta de informação que a fez imaginar que sangrará até morrer: há também alguém que gravará o episódio comprometedor para publicar na Internet.

A estrutura adotada por Peirce já é conhecida. Carrie White habita dois infernos. O primeiro é a escola e as ofensas gratuitas proferidas pelos alunos mais populares do colégio e até mesmo por alguns professores – quando a menina finalmente reúne coragem para ler um poema em sala de aula, seu orientador a ridiculariza ao dizer que sua escolha foi fúnebre. O segundo é a sua própria casa em que Margaret White (Julianne Moore) assume a figura de deus e diabo. Se as autoridades não interviessem, Margaret preferiria ter Carrie só para si, educando-a longe do mundo. Mas esta mãe desconfia das origens ocultas de Carrie, algo confirmado no exato momento em que ela define não ser mais uma garotinha ao descobrir que tem a capacidade de mover e manipular objetos com o poder da mente.

Antes uma das desafetas de Carrie, Sue Snell (a inglesa Gabriella Wilde) parece arrependida de ter participado do episódio do vestiário. Por isso, se mostra disposta a não participar do baile de formatura ao oferecer o seu namorado Tommy Ross (o carismático Ansel Elgort) como par para Carrie, que até então jamais imaginaria ser convidada por algum rapaz para sair, muito menos pelo atleta amado por todos.

Enquanto Carrie visualiza o baile de formatura como a possibilidade de se tornar uma pessoa normal (ainda que esteja cada vez mais ciente de seus poderes de telecinesia), Margaret permanece repreendendo-a ao acreditar que ela será novamente ridicularizada. Ao que tudo indica, algo de ruim realmente aguarda por Carrie, pois Chris Hargensen (Portia Doubleday) pretende pregar uma peça perversa nela após ser expulsa do baile de formatura pela professora de Educação Física, a senhorita Desjardin (Judy Greer), que provou à reitoria que Chris filmou e postou na Internet o embaraçoso choque de Carrie.

Em sua estreia na direção de longa-metragem com “Meninos Não Choram”, Kimberly Peirce reproduziu com garra a devastadora história de Brandon Teena, uma mulher decidida em assumir uma identidade masculina ao amadurecer. Ou seja: Peirce já havia explorado o universo de um personagem encarado como inadequado em uma sociedade pouco flexível para um indivíduo fora dos padrões. Por isso mesmo a expectativa gerada com o seu vínculo com o novo “Carrie – A Estranha”, mas uma história sobre uma figura deslocada em um ambiente de aparências supérfluas e de perversidades.

Com “Carrie – A Estranha”, Kimberly Peirce não é pressionada somente por um ou dois gigantes mas por três. Entre as pressões em atender às expectativas de um grande estúdio (a Metro-Goldwyn-Mayer viabilizou a refilmagem), a responsabilidade em seguir os rumos originalmente determinados por Stephen King e o respeito pela obra-prima de Brian De Palma (o qual ela tem o privilégio de ser amiga por mais de dez anos), a cineasta pouco ou nada pode fazer para inserir a sua marca.

Embora soe como mero detalhe, a impossibilidade de Kimberly Peirce se desacorrentar de tudo isso contamina “Carrie – A Estranha”, a começar pela interpretação irregular de Chloë Grace Moretz. Mesmo conferindo a mesma faixa etária de Carrie White, a atriz definitivamente não contém a fisionomia e talento necessários para incorporá-la. Não há vestuário de brechó capaz de anular sua graciosidade e suas reações forçadas não condizem com o de uma garota a todo o momento reprimida pelas pessoas que a cercam. Com Julianne Moore as coisas não são diferentes. Caso fosse jovem, Moore seria a escolha perfeita para viver Carrie, uma vez que Peirce registra muito bem as sardas que se misturam com sua palidez. Como Margaret White, Moore é incumbida de caricaturizar um papel tão bem interpretado anteriormente por Piper Laurie e Patricia Clarkson (a primeira no cinema e a segunda, na tevê).

Sem alterações em algo já consagrado, resta o aguardado baile sangrento, algo para o qual este novo “Carrie – A Estranha” tanto aquece para apresentar. Por incrível que pareça, é o único momento genuíno. Como em qualquer boa vingança que se preze, vibra-se com a punição naqueles que pisotearam sem cerimônia a inocência de uma ingênua menina, bem como reconforta a bondade ainda presente nela ao proteger os poucos que queriam o seu bem. Justo, mas muito pouco para justificar a existência de uma reimaginação que, como se viu no original, tinha tanto para comunicar para a sua geração.

Carrie, 2013 | Dirigido por Kimberly Peirce | Roteiro de Roberto Aguirre-Sacasa, baseado no livro homônimo de Stephen King e roteiro homônimo de “Carrie – A Estranha”, de Lawrence D. Cohen  | Elenco: Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Alex Russell, Zoë Belkin, Ansel Elgort, Samantha Weinstein, Karissa Strain, Katie Strain, Barry Shabaka Henley, Demetrius Joyette e Judy Greer | Distribuidora: Sony

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