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Resenha Crítica | Philomena (2013)

Philomena, de Stephen Frears

Tudo indicava que Stephen Frears não conseguiria oferecer outro grande momento como diretor depois do close em Michelle Pfeiffer que encerra “Chéri“, uma emulação evidente da conclusão de “Ligações Perigosas”, ainda dada por muitos como sua obra-prima. Depois de não dar o melhor de si no apenas bom “O Retorno de Tamara” e de alcançar o fundo do poço com “O Dobro ou Nada“, Frears consegue provar o ótimo cineasta que é ao presentar o público com um close devastador nos belos olhos azuis de Judi Dench nos momentos finais de “Philomena”. A boa notícia é que este não é o único trunfo de sua nova realização.

Baseado em uma história real, “Philomena” foi uma grata surpresa entre os finalistas ao Oscar 2o14. Além de assegurar uma indicação para a veterana Judi Dench na categoria de Melhor Atriz, “Philomena” também marca presença mais do que merecida em Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha-Sonora. Em um mundo justo, o grande Steve Coogan também seria indicado ao Oscar de Melhor Ator, mas deve ter se contentado ao ser nomeado duas vezes, uma como produtor e e a outra como autor do roteiro de “Philomena”.

Assim como em seus melhores trabalhos, Stephen Frears confere um olhar muito terno ao conduzir a história que move os seus protagonistas. Martin Sixsmith (Coogan) é um jornalista de 50 anos que não vive o ápice de sua carreira. Após ser demitido, ele planeja lidar com o tempo livre se exercitando e realizando estudos sobre a história da Rússia com a pretensão de publicar um livro. Porém, o pedido de uma jovem para descobrir o paradeiro de um filho do qual sua mãe não tem notícias desde o momento em que ele foi adotado com três anos de idade poderá oferecer um novo curso para os seus planos.

Embora não seja um sujeito que se sensibiliza com facilidade, Martin se mostra disposto a ajudar Philomena (Dench) após conhecê-la. Não é necessário muito tempo para chegar à conclusão de que há um material bem vasto a ser investigado nesta história de interesse humano e Martin logo levanta recursos para viabilizar uma viagem para os Estados Unidos e outra para a Irlanda em busca do filho de Philomena.

Conforme Philomena confidencia a Martin a sua juventude, flashbacks tomam a tela para mostrar o período em que ela engravidou quando vivia em um convento. Dentro do ambiente extremamente rígido, Philomena pôde ver o seu filho recém-nascido uma hora por dia até ele ser transferido para uma família com grande poder aquisitivo. O acontecimento não corrompeu a inocência de Philomena, mas é claro que esta mulher envelheceu incompleta com esta ausência.

O mais admirável em “Philomena” é como dois personagens opostos com finalidades bem específicas conseguem se completar. A fé inabalável de Philomena continua movendo o seu coração mesmo quando as respostas para as suas questões não sejam aquelas que aguardava – antecipá-las seria um desserviço para o espectador. Ao seu lado, temos Martin com um ceticismo que lhe garante encarar com maior resistência alguns desafios de sua nova empreitada.

Por tudo isso, chega a ser incompreensível algumas reações pouco favoráveis que ressaltam a ausência de um discurso incisivo contra a religião. Caso tomasse essa decisão, “Philomena” sacrificaria aquilo que há de mais poderoso: o sentimento de complacência que há entre Philomena e Martin diante de uma busca que compartilham. Ao sabiamente fugir da tentação em pesar a mão sobre temas espinhosos, Stephen Frears conduz um filme delicioso com o seu humor oportuno e tipicamente britânico e emociona ao evitar o sentimentalismo barato promovendo uma transformação de caráter de Philomena e Martin ao final da história.

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