Resenha Crítica | Refém da Paixão (2013)

Nada contra jovens talentos que integram imediatamente a categoria de grandes cineastas contemporâneos em seus primeiros passos. Bem, contanto que tanto prestígio corresponda adequadamente a qualidade de seu próprio trabalho atrás das câmeras. Filho de Ivan Reitman, Jason Reitman já contabiliza quatro indicações ao Oscar tendo apenas cinco longas-metragens no currículo, um feito de impressionar qualquer veterano. Isso sem contar outras dezenas de prêmios obtidos nas mais diversas premiações cinematográficas.

“Obrigado por Fumar”, “Juno”, “Amor sem Escalas” e “Jovens Adultos” são definitivamente bons filmes. No entanto, há algo no modo como Reitman conduz os roteiros que impedem que eles sejam mais do que isso. É comum os seus protagonistas despertarem em nós alguma empatia ao lidarem com tomadas de decisões indesejáveis. Por outro lado, quando as imperfeições destes são mais claras, Reitman adota um tom de frieza que mais repele do que atrai. É um efeito indesejado que um cineasta como Alexander Payne jamais se permitiria a causar.

Em “Refém da Paixão”, os protagonistas originalmente criados por Joyce Maynard (o filme é uma adaptação de “Fim de Verão”, romance publicado em 2009 pela Editora Rocco) não estão necessariamente em um cenário de dilemas já visualizado nos trabalhos prévios de Jason Reitman, mas suas limitações como diretor são mais evidentes em sua primeira transição da comédia para o drama. A narração em off constante de Tobey Maguire não é mero capricho para creditar o nome do astro de “Homem-Aranha”, e sim para conferir um significado para as imagens que Reitman produz e sequer acredita.

Adele (Kate Winslet) é uma mulher deprimida cujo marido (papel de Clark Gregg) a trocou pela secretária. Não tivesse a companhia de seu filho Henry (Gattlin Griffith), Adele provavelmente já teria tirado a própria vida. Se já não bastasse a dificuldade de manter o próprio controle (o turbilhão de desapontamentos em sua vida prejudicou até mesmo o seu tato), o que fazer quando ela se vê obrigada a abrigar, para a sua própria segurança e a de Henry, o prisioneiro em fuga Frank (Josh Brolin)?

A boa reviravolta pregada em “Refém da Paixão”, e ela é imediata, está no clima de perigo sendo brevemente substituído por uma relação de cumplicidade entre vítima e foragido. De repente, Adele está envolvida amorosamente com Frank e Henry vê o seu posto de homem da casa ser ameaçado com a vinda e permanência de um estranho. Sustentar a inversão de papéis já é algo não obtido por Jason Reitman.

“Refém da Paixão” é um filme contaminado pela obviedade, sendo incapaz até mesmo de criar uma aura de mistério em torno de Frank, cujas boas intenções anulam qualquer ameaça que sua presença deveria representar. Além do mais, quando não há um Henry adulto narrando exatamente o que vemos Frank fazer, há os flashbacks que frustram pela redundância, mesmo que eles contem com o atrativo de ter Tom Lipinski, um ator definitivamente idêntico a Josh Brolin.

Se não bastassem essas falhas que seriam facilmente evitadas até mesmo por iniciantes, há ainda em “Refém da Paixão” uma série de intervenções de personagens secundários sem nenhuma dimensão que só surgem como ameaça para um lar que se transforma em paraíso com três figuras incomuns. Do vizinho inconveniente de J.K. Simmons (quem mais?) até o policial extremamente implausível vivido por James Van Der Beek, somente Brooke Smith consegue oferecer alguma dignidade como a mãe que pede à Adele para cuidar de seu filho especial. São subterfúgios fracos demais em um filme de um cineasta que não contempla o domínio equivocadamente celebrado com o sucesso de sua filmografia.

Labor Day, 2013 | Dirigido por Jason Reitman | Roteiro de Jason Reitman, baseado no romance “Fim de Verão”, de Joyce Maynard | Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, Tom Lipinski, Maika Monroe, Clark Gregg, James Van Der Beek, J. K. Simmons, Brooke Smith, Brighid Fleming, Alexia Hedges, Micah Fowler e Chandra Thomas | Distribuidora: Paramount

  1. Incrível como esse filme, que muita gente cotava para o Oscar 2013, passou completamente despercebido, apesar dos grandes nomes envolvidos na obra. Acho que nem tem previsão de estreia definida aqui no Brasil, correto?