Resenha Crítica | Gata Velha Ainda Mia (2013)

Gata Velha Ainda Mia

Gata Velha Ainda Mia, de Rafael Primot

Ainda que seja mais reconhecido por sua carreira como ator, Rafael Primot é cineasta há mais de dez anos. Após a assinatura em quatro curtas, ele faz sua estreia em longa-metragem seguindo os mesmos passos de outros profissionais que experimentam o formato pela primeira vez. Remando contra a maré, Primot coordena “Gata Velha Ainda Mia” sem recorrer às leis de incentivo e busca extrair o melhor de seu texto e de sua equipe em um ambiente limitado.

Originalmente pensado para o teatro, “Gata Velha Ainda Mia” sofreu alterações para ganhar a tela grande. Sua principal contribuição para nossa cinematografia está em investir no suspense, gênero ainda pouco usual em nossa língua. É na interação entre as personagens Gloria Polk (Regina Duarte) e Carol (Bárbara Paz) em um apartamento com mobília antiquada que há uma tensão crescente.

Após muitos anos sem escrever um livro, Gloria Polk decide retomar o seu maior sucesso de ficção com uma continuação. Todos estão empolgados com o seu retorno, especialmente seu editor, com quem anda discutindo sobre as revisões que deseja realizar no fim da história antes que ela chegue às livrarias. Reclusa e amarga, Gloria Polk cede de má vontade uma entrevista para Carol, jornalista que vê nesta oportunidade a chance de ascender profissionalmente.

Em meio a um humor sagaz e uma atmosfera de mistério, “Gata Velha Ainda Mia” apresenta tanto o atrito de gerações entre as duas protagonistas quanto a sustentação de falsas aparências. Logo se vê que Carol tem outras intenções, ao mesmo tempo em que Gloria vai evidenciando as razões que não a fizeram declinar o convite de ser entrevistada por ela.

Fosse uma narrativa preocupada em apenas aproveitar o potencial explosivo da discussão entre essas mulheres com personalidades tão fortes, “Gata Velha Ainda Mia” seria classificado como imperdível. Não é o que acontece. Se já não fosse difícil comprar a existência de um personagem somente citado para justificar algo nebuloso no passado entre Gloria e Carol, há ainda a inclusão de um jogo perverso no terceiro ato que não dialoga com naturalidade com tudo o que foi construído. Ao lançar tudo para os ares, “Gata Velha Ainda Mia” ganha como único consolo a presença magnética de Regina Duarte. Afastada do cinema desde “Além da Paixão” (drama de Bruno Barreto lançado em 1986), a atriz mergulha de corpo e alma no universo perturbador de Gloria Polk, respondendo adequadamente até mesmo aos momentos que soariam constrangedores caso encarados por outra atriz que não conferisse a mesma entrega.

  1. Me lembro de ter lido críticas sobre essa peça, mas não sabia que tinha sido adaptada para a grande tela. Pena que não tenha tido uma divulgação melhor. Ainda não chegou nas salas de cinema daqui de Natal.