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Resenha Crítica | Sob a Pele (2013)

Sob a Pele | Under the Skin

Under the Skin, de Jonathan Glazer

No romance “Sob a Pele”, o escritor Michel Faber, antes um jovem que ganhava a vida inclusive como faxineiro, criou uma história envolvente de uma alienígena cuja missão era dar carona para homens fisicamente atraentes, desempregados e sem muitos laços afetivos que vagavam pelas estradas frias da Escócia. Apresentando-se como Isserley, a alienígena persuadia suas companhias até derrubá-los com uma substância presente em um mecanismo instalado debaixo do estofado em que eles sentavam. Inconscientes, os caroneiros recebiam um destino grotesco.

Tendo como alvo principal indivíduos à margem da sociedade, era evidente o comentário que Michel Faber pretendia fazer em “Sob a Pele”, principalmente por se ater mais às interações de Isserley com esses homens tão ingênuos quanto ameaçadores. Na adaptação para cinema dirigida por Jonathan Glazer, poucos dos elementos reconhecíveis no romance de Faber se manteram. Melhor assim, pois, como filme, “Sob a Pele” se livra das amarras para fazer uma investigação extremamente sensorial das contradições humanas.

Assim como o prólogo de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (a evolução da humanidade), nos primeiros minutos de “Sob a Pele”, observamos a formação do ser que ganhará o corpo de Scarlett Johansson. Habitando um edifício abandonado, a jovem estabelece uma rotina que se resume a apanhar caroneiros, seduzi-los e levá-los para um salão escuro em que eles afundarão em uma superfície movediça.

A presença do personagem de Adam Pearson, cuja deformação facial não é fruto de maquiagem, garante a narrativa uma reviravolta que transforma a protagonista em uma verdadeira alienígena em contato com valores antes desconhecidos. Assim, recebem nova potência alguns episódios prévios (os estranhos que a levantam após uma queda na rua, o modo sereno como seduz um sujeito desfigurado), bem como o seu próprio resgate por um homem solitário sem segundas intenções.

“Sob a Pele” é apenas o terceiro longa-metragem do britânico Jonathan Glazer, mas aqui ele já se consolida como um cineasta autoral que tem a legitimidade como sua matéria-prima principal. Muitas das abordagens de Scarlett Johansson em escoceses foram registrados por câmeras escondidas sem a ciência destes e o seu comparsa interpretado por Jeremy McWilliams é de fato um motociclista. Não poderia também ser mais acertada a escolha de Mica Levi para a composição da trilha-sonora, uma fusão de sons perturbadores que se compatibiliza com as estranhezas provocadas pelas imagens de Glazer.

Já a escalação de Scarlett Johansson é um dos maiores méritos de “Sob a Pele”. Inúmeras vezes considerada a mulher mais bela do mundo, Johansson se despe aqui de qualquer vaidade no papel mais desafiador de sua carreira. A atriz nunca esteve tão vulnerável, tão entregue a uma proposta sem garantias concretas e se porta como uma verdadeira estranha em um cenário imprevisível.

Sem cair na mesma tentação de Michel Faber em elucidar os próprios mistérios que elabora, Jonathan Glazer segue um rumo menos seguro, quase desconstruindo na conclusão o discurso sustentado durante “Sob a Pele”. Aos poucos fraquejando diante da benevolência da maioria daqueles que cruzaram seu caminho, a protagonista estabelece com os humanos uma inversão de papéis. Antes uma ameaça com a forma humana que a cobre, aos poucos ela se revela os olhos da plateia diante da ação de nosso lado mais obscuro. Assim como Lars von Trier em “Ninfomaníaca: Volume 2“, Jonathan Glazer é um pessimista em essência e é para o bem ou para o mal que “Sob a Pele” sobreviverá ao tempo.

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