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O Passado (2013)

O Passado | Le passé

Le passé, de Asghar Farhadi

Após os louros adquiridos com “A Separação”, Asghar Farhadi foi convidado imediatamente pelo produtor francês Alexandre Mallet-Guy a realizar o seu primeiro projeto fora do Irã. Cineastas que são reconhecidos através de filmes que retratam as peculiaridades de sua nação não costumam obter muito sucesso diante de uma transição de culturas, como se viu com os alemães Oliver Hirschbiegel e Florian Henckel von Donnersmarck, somente para citar alguns exemplos. Definitivamente, não é o que acontece com Asghar Farhadi em “O Passado”.

Independente do cenário um tanto opressor que habitam, os personagens de Asghar Farhadi sobrevivem em nosso imaginário por lidarem com questões universais, como a fragilidade de homens na posição equivocada de autoridade e as dificuldades das mulheres em se sobressaírem diante das convenções do lar. Esses são apenas alguns dos temas que permeiam “O Passado”, talvez o filme mais completo já realizado por Asghar Farhadi.

A francesa Marie (Bérénice Bejo, vencedora da Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes) e Ahmad (Ali Mosaffa, ator notável e cujo principal destaque de sua breve filmografia é “Leila”, de 1997) estão separados e não se veem há quatro anos. Iraniano, Ahmad vai ao encontro dela em Paris para oficializar o divórcio. Ele já havia adiado o compromisso por razões pouco plausíveis e tudo indica que sua depressão já superada foi o que motivou o rompimento da união.

Marie o convida para se hospedar em sua residência enquanto não assinam os papéis no cartório, mesmo que já esteja vivendo com Samir (Tahar Rahim), seu mais novo companheiro. Fouad (Elyes Aguis), filho de outro relacionamento de Samir, também habita a casa, assim como as duas filhas de Marie, a pequena Léa (Jeanne Jestin) e Lucie (Pauline Burlet). Ainda que Lucie seja enteada de Ahmad, ela teve uma forte sintonia com ele no passado e o seu retorno somente energiza sua personalidade temperamental. Ela não é a favor do namoro de sua mãe com Samir e se tornará o pivô do resgate de muitos episódios que todos varreram para debaixo do tapete, como o coma da esposa de Samir, presa à uma maca e alguns aparelhos em um hospital.

Não é necessário que a trama progrida demais para que seja possível antecipar que muitos conflitos abaterão esta família. No entanto, dizer que tudo é uma lavagem de roupa suja é no mínimo deselegante, pois Asghar Farhadi volta a dar as dimensões para que todos os personagens sejam essenciais para o preenchimento de cada lacuna. “O Passado” se torna assim não apenas um retrato da falência da família como instituição, como também o quanto o nosso desapego e as decisões tomadas por motivações egoístas deixam cicatrizes difíceis de ser apagadas.

Não demora muito para que Marie, já exausta dos conflitos que aconteceram em um curto espaço de tempo, se renda ao ponto de querer esquecer o passado. Como Asghar Farhadi diagnostica, a vida não garante este privilégio e, mais cedo ou mais tarde, as consequências de nossos passos tortos irão se manifestar. Sustenta-se essa perspectiva carente de positividade até o epílogo, que alivia parcialmente esta consternação através de uma indicação de compaixão.

2 Comments

  1. Infelizmente, perdi as chances de conferir “O Passado” no cinema. Espero ter uma nova oportunidade. Acho o cinema de Asghar Farhadi muito instigante.

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