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Uma Vida Comum (2013)

Uma Vida Comum | Still Life

Still Life, de Uberto Pasolini

Nem o mais solitário dos homens morre sem deixar ao menos algum vestígio neste chamado plano material que habitamos. Há sempre as fotografias, a mobília, as cartas, os discos ou qualquer outro objeto que permita imaginar quem foi aquele indivíduo que desapareceu no abandono e que seja suficiente para localizar os parentes mais distantes e as amizades desfeitas. Juntar esse quebra-cabeça é a missão de John May (Eddie Marsan), único funcionário há 22 anos no departamento de uma repartição incumbido de dar fim aos corpos sem vida e aos pertences particulares encontrados em apartamentos e residências de Londres.

Aos 44 anos, John é um sujeito com um trabalho que se transformou em seu único sentido de vida. Não se sabe se ainda lhe restou alguns membros em sua família, pois em nenhum momento o vemos contatá-los. Amigos e pretendentes também são inexistentes. Em seu apartamento minúsculo, John repete diariamente um ritual que consiste em ingerir a mesma refeição, visualizar um álbum com fotografias dos mortos cujos enterros realizou e organizar sua coleção de CDs com músicas usadas em velórios.

Embora John desvende rapidamente a trajetória errante durante a vida desses indivíduos, ele sente na pele o efeito de alguém desaparecer sem ter ninguém para se despedir em uma cerimônia lúgubre. O fato de realizar o seu trabalho com uma delicadeza exemplar acaba trazendo uma consequência negativa. Vendo os altos custos das cerimônias, o chefe de John (papel de Andrew Buchan), um sujeito nada sensível que acredita que o melhor modo de reduzir custos é eliminando os cadáveres no crematório e espalhando as cinzas em um jardim qualquer, decide demiti-lo.

Faltando apenas três dias para ser definitivamente desligado, John encara Billy Stoke como o seu último caso. Billy era um senhor que vivia em um apartamento vizinho cercado de garrafas com rótulos de bebidas alcoólicas vazias. Na visita ao lugar, John coleta objetos suficientes para localizar a família e os amigos de Billy e avisar pessoalmente sobre a sua morte. A busca se transforma em uma missão de honra para tentar convencê-los de se despedir de Billy em um enterro que ainda será realizado. A viagem faz com que John veja em sua demissão e nas interações com pessoas que eram próximas de Billy a oportunidade de começar a fazer as coisas diferentes, por mais banais que elas sejam.

Sobrinho do mestre italiano Luchino Visconti, Uberto Pasolini comprova neste seu mais novo trabalho que a sua sensibilidade é hereditária. Conceber uma obra com uma história sobre as emoções que permeiam a vida e a morte requer um artista que tenha uma experiência muito ampla com as relações humanas e a solidão. É notável a sua capacidade de captar tantas informações diante de tão pouco. Cada fotografia ou cômodo que sua câmera observa traz a história de uma existência interrompida e a troca do luto pela rejeição deixa o seu registro ainda mais melancólico. Extraordinário, Eddie Marsan tem aqui a oportunidade de mostrar uma nova faceta como ator, desenvolvendo um protagonista de modo inverso de seu Scott de “Simplesmente Feliz“. Por trás de sua postura sistemática, há um homem com um coração iluminado.

Mais do que isso, “Uma Vida Comum” desenvolve muita sintonia com “A Partida“, drama japonês sobre um jovem que precisa trabalhar como um “preparador de cadáveres” para rituais de despedida. Assim como neste vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, é impossível passarmos incólume por “Uma Vida Comum”. Nesta coprodução entre Inglaterra e Itália, definitivamente um dos melhores filmes do ano, a preservação da memória e o medo do esquecimento são tratados com uma singularidade dilacerante, palpável, transformando a mera ficção em algo capaz de enternecer o coração e a alma por um longo tempo.

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