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Amar, Beber e Cantar (2014)

Amar, Beber e Cantar | Aimer, boire et chanter

Aimer, boire et chanter, de Alain Resnais

Caso a carreira de Alain Resnais fosse dividida em blocos, poderíamos dizer que o último deles foi representado por um interesse em transpor para o cinema algo originalmente concebido para o teatro. Mesmo que ambientar uma narrativa em um tablado possa denotar um veterano com pouco fôlego em assumir formas mais amplas, não é uma escolha fácil. Uma linguagem costuma sobrepor a outra e o resultado pode se transformar em puro teatro filmado. Canto do cisne de Alain Resnais, “Amar, Beber e Cantar” é prejudicado por esta consequência.

Escrita por Alain Resnais e Laurent Herbiet, a adaptação da peça “Life of Riley”, do britânico Alan Ayckbourn, faz com o que o cineasta continue usando trucagens antiquadas. A primeira são as cartilhas de imagens coloridas de cenários para situar o espectador nos ambientes que emulam a cenografia de um espetáculo teatral. Há também as tomadas de segunda unidade em que visualizamos um carro em movimento como se fôssemos o motorista, causando a sensação de que há consequências externas para as confusões que se desenham.

Personagem jamais apresentado ao público, George Riley é acometido por uma doença que resumirá sua existência. Esta péssima notícia chega ao conhecimento de seus melhores amigos, o casal Colin (Hippolyte Girardot) e Kathryn (Sabine Azéma). A tristeza de Colin só não é muito notada porque Kathryn parece disposta a dar algumas escapulidas para cuidar de George, um de seus amores do passado, em sua mansão. Quando Jack (Michel Vuillermoz) e sua esposa Tamara (Caroline Silhol) são informados sobre o infortúnio, vem a decisão de incluir George na peça em que estão ensaiando, o que pode revigorar as energias que lhe restam.

Quando Kathryn vê que terá de disputar com Tamara as atenções de George (ela também tinha uma atração por ele), entra em cena Monica (Sandrine Kiberlain), ex-mulher dele disposta a encerrar a sua relação com o fazendeiro Simeon (André Dussollier) para rever a separação. De uma hora para outra, há uma divisão entre esses casais. De um lado, temos as mulheres literalmente brigando para (re)conquistarem o coração de George. Do outro, os maridos amargurados e revoltados com a canalhice de George.

A primeira metade de “Amar, Beber e Cantar” é acompanhada com muito esforço. Por mais habituado que seja com Alain Resnais, é difícil acreditar na veracidade das interpretações do elenco diante de cenários falsos feitos com painéis de EVA – isso sem contar o uso de chroma key para ilustrar os instantes de dissimulação das personagens. Muito melhor é o que vem a seguir, em que o tom de farsa é representado por novos componentes, como algumas ilusões que nos fazem acreditar nas situações encenadas que tem George como pivô. Também ganha credibilidade o humor, sarcástico ao ponto de desnudar a face patética de cada personagem e especial como o epílogo na vida de um cineasta que iniciou o seu ofício com obras tão densas.

2 Comments

  1. Conheço pouco do Alain Resnais, mas o nome desse filme não me causa boa impressão. Parece obra de auto-ajuda. rsrsrsrsrs

    • Kamila, fique tranquila, pois não há nada de autoajuda no filme. Risos.

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