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Dois Disparos (2014)

Dois Disparos | Dos Disparos

Dos disparos, de Martín Rejtman

.:: INDIE 2014 Festival Cinema ::.

Nos primeiros cinco minutos de “Dois Disparos”, acompanhamos um dia aparentemente comum de Mariano (Rafael Federman). Depois de se divertir em uma balada, o jovem é mostrado na manhã seguinte nadando na piscina de sua casa. Na sequência, descobre uma arma no depósito que entrou para consertar a máquina de aparar grama. Ainda com sunga e óculos de mergulho, Mariano vai ao quarto com a arma e dispara dois tiros contra si, um na cabeça e outro na barriga.

Após essa atitude impactante, a expectativa é que o diretor e roteirista Martín Rejtman disseque as motivações de Mariano em querer tirar a própria vida. Estaria esse rapaz insatisfeito com a vida que leva? Algum rompimento amoroso o entristeceu? Seria o relacionamento com a mãe Susana (Susana Pampin) e o irmão Ezequiel (Benjamín Coehlo) nem um pouco saudável? Tantos questionamentos são paulatinamente esquecidos quando percebemos que “Dois Disparos” se esquiva das tentações em responder o que se passa com Mariano.

Na verdade, o próprio Mariano traz como justificativa o calor excessivo ao cometer algo não raciocinado com clareza. Sua família busca criar um ambiente que permita a Mariano voltar sem estresse ao seu cotidiano, ainda que a bala que ficou alojada em seu corpo (o primeiro tiro em direção a sua cabeça o atingiu de raspão) lhe cause algumas limitações, como a impossibilidade de entrar em lugares com detectores de metal ou tocar flauta com o mesmo vigor de antes.

O grande mérito de Martín Rejtman é remover Mariano do protagonismo de “Dois Disparos” para trabalhar outros personagens. Na metade da narrativa, as suas atenções estão mais focadas em Susana, uma mãe solteira que decide tirar um tempo de férias com colegas que definitivamente não a agradam muito. Há outras personagens secundárias que ganham força, como a professora particular de música de Mariano e uma jovem que trabalha em restaurante fast food que o seu irmão conheceu ao acaso.

Apaga-se assim a exposição das banalidades por trás de uma tentativa falha de suicídio que abre “Dois Disparos” para compreendê-la através da rotina de personagens alheios a tudo que os cercam. Isso permite que o filme, dono de um humor mordaz, abra a possibilidade para algumas leituras intrigantes (seria essa passividade um reflexo de uma Argentina em crise?), mas somente o senso de observação apurado é suficiente para tornar “Dois Disparos” uma das melhores obras recentes do cinema latino-americano.

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