Resenha Crítica | Jack (2014)

Jack

Jack, de Edward Berger

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Nos primeiros minutos de “Jack”, fica claro que algo não está certo no relacionamento desse personagem-título de dez anos interpretado por Ivo Pietzcker e o seu caçula Manuel (Georg Arms) com a mãe deles, Sanna (Luise Heyer). Enquanto Sanna transa com o seu mais novo amante em um quarto, Jack invade o ambiente sem cerimônia para que ela lhe sirva uma refeição, algo que faz totalmente despida.

Em seu primeiro filme para o cinema após um intervalo 13 anos dedicados a tevê, o cineasta Edward Berger não mede esforços para exibir a irresponsabilidade de adultos em exercer a função materna/paterna. Praticamente abandonado à própria sorte em seu próprio apartamento enquanto sua mãe sai para namorar, Jack será penalizado injustamente por um acidente do qual Manuel é vítima.

Logo Jack é transferido para um abrigo infantil e lá testemunha o que se espera em uma moradia coletiva: a compaixão de assistentes que substituem os pais que negligenciaram os seus filhos, as crianças que respondem com violência a orfandade e a falsa esperança de que voltarão ao lar da família como se nada de traumático tivesse acontecido.

“Jack” nos despedaça ao exibir de modo cru e jamais apelativo a situação de seu protagonista frágil e ainda conta com o extraordinário estreante Ivo Pietzcker, que transfere reações de abandono e otimismo que perfuram imediatamente o nosso âmago. Uma pena que a autenticidade do registro sofra uma modificação que parece vir de uma inspiração reconhecível ao cinema dos irmãos Dardenne.

Se o fato de Jack caminhar invisível pela cidade para buscar a sua mãe já não fosse suficientemente dramático, o diretor Edward Berger desenvolve um roteiro em parceria com Nele Mueller-Stöfen  que passa a privilegiar os contratempos para sublinhar uma via-crúcis suficientemente tocante. A indiferença de inúmeros personagens secundários às necessidades de Jack e a elaboração de situações que somente retardam a sua busca (como a consequência imediata por roubar um objeto em uma loja de um centro comercial) são artifícios que mais enfraquecem do que fortalecem “Jack”.

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | Jack (2014)

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