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Resenha Crítica | Dois Dias, Uma Noite (2014)

Dois Dias, Uma Noite | Deux jours, une nuit

Deux jours, une nuit, de Jean-Pierre  Dardenne e Luc Dardenne

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne se tornaram célebres ao realizar obras que investigam as batalhas diárias enfrentadas por indivíduos de classes menos favorecidas, quando não à margem da sociedade. Alguns registros em particular foram importantes para alçá-los a posição de grandes cineastas autorais do cinema mundial, como os vencedores da Palma de Ouro em Cannes “Rosetta” e “A Criança”.

Há quem se comova com as histórias narradas às vezes de modo visceral pelos Dardenne, mas uma análise geral na filmografia dos cineastas revela uma redundância. Mudam-se os personagens e as situações-limite, mas as soluções, os percalços e as conclusões que trazem algum conforto se repetem a cada novo filme. Obviamente, as coisas não são diferentes com “Dois Dias, Uma Noite”, raro exemplar dos Dardenne a sair sem louros do Festival de Cannes.

Como consolo, “Dois Dias, Uma Noite” pode até ser considerado o melhor filme dos irmãos. Marion Cotillard está ótima como Sandra, uma mãe e esposa que precisou se afastar do trabalho em uma fábrica de painéis solares em razão de uma depressão. Preparada para voltar ao batente, ela é surpreendida com uma votação promovida pelo seu chefe Dumont (Baptiste Sornin) que a desligará da instituição. Explica-se: os seus 16 colegas de trabalho deveriam decidir entre manter Sandra trabalhando ou preteri-la para o recebimento de um bônus salarial e uma jornada de trabalho alongada.

Incentivada por Juliette (Catherine Salée), Sandra solicita uma nova votação, pois acredita que o primeiro resultado (somente três pessoas votaram por sua permanência) foi influenciado por Dumont. Com a resposta positiva para a sua solicitação, Sandra começa a visitar cada um de seus colegas com a motivação se convencê-los a abrir mão do bônus salarial para que possa continuar trabalhando. É claro que os Dardenne não poderiam reprisar aquilo em que são mais notórios: transformar a jornada em formato “de porta em porta” em uma verdadeira via-crúcis.

É singular o modo como “Dois Dias, Uma Noite” reflete sobre a devastação causada por uma sociedade capitalista, desta vez com as lentes de aproximação voltadas ao sistema do mercado de trabalho. Claro que muitos se mostram solidários a uma Sandra que a cada visita recorre aos antidepressivos para se manter em pé, mas o dinheiro sempre fala mais alto e as boas intenções são esquecidas para preservar o individualismo em um cenário que cria pateticamente a noção de um funcionamento em coletivo.

Mesmo com o frio na espinha que o público tem a cada instante que Sandra aborda um colega de trabalho (a decisão de filmar esses encontros em um único plano-sequência comprovam o domínio dos cineastas) e de um clímax que levanta questões sobre dignidade e ética, “Dois Dias, Uma Noite” lamentavelmente se sustenta com muitas muletas. A passividade de Manu (Fabrizio Rongione), marido de Sandra, as explosões de temperamentos e as tomadas de decisões bruscas de personagens secundários empobrecem um filme que deveria se equiparar à perseverança de sua protagonista.

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