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Resenha Crítica | Winter Sleep (2014)

Winter Sleep | Kis uykusu

Kis uykusu, de Nuri Bilge Ceylan

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Parece que o sucesso progressivo obtido pelo cineasta Nuri Bilge Ceylan a partir de “Distante” tem ampliado o seu desejo de alçar voos cada vez mais altos, o que reflete em obras que soam grandiosas não apenas na duração alongada, como também em engrandecer os conflitos humanos por razões sociais ou puramente banais. Com duas horas e meia de duração, “Era uma Vez na Anatólia” foi exibido ano passado nos cinemas brasileiros e dividiu a plateia com a história sobre um cadáver encontrado nos campos rurais de Anatólia e as implicações com todos os envolvidos neste episódio. Com “Winter Sleep”, Nuri Bilge Ceylan promete obter as mesmas reações em uma história que ultrapassa as três horas de duração.

Embora tenha sido laureado na última edição do Festival de Cannes com a Palma de Ouro, nem lá o filme foi recebido com unanimidade. À frente do júri deste ano, a cineasta neozelandesa confessou que não se sentia preparada para assistir a um filme tão longo, mas que foi surpreendida pela sensibilidade de Nuri Bilge Ceylan em contar uma história de amor. “Winter Sleep” não é apenas sobre o amor, mas a “Aleluia!” proferida por uma espectadora no fim da segunda projeção do filme durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo entrega o que já era temido: três horas e meia é um pouco demais para uma história que se beneficiaria com uma duração mais enxuta.

Aydin (Haluk Bilginer) gerencia um hotel em Anatólia e tem larga formação artística. Intelectual, ele costuma observar com superioridade as pessoas e situações que o cercam. Hamdi (Serhat Mustafa Kiliç) é o primeiro a ser atingido pelo rigor de Aydin no início da história, um inquilino com problemas financeiros que o impedem de pagar em dia as prestações de sua casa. Essa inflexibilidade também atinge sua irmã Necla (Demet Akbag) e Nihal (Melisa Sözen, levemente parecida com Penélope Cruz), sua jovem esposa.

Passado durante um inverno que vai se tornando rigoroso, “Winter Sleep” busca associar a desolação da estação não somente ao seu protagonista, como também à frieza das interações entre os bem afortunados e os desfavorecidos, entre o intelectual e aqueles que refletem sobre o estado das coisas com mais sentimentalismo. Quando não há as passagens da narrativa que podem muito bem serem considerados tempos mortos, o filme de Nuri Bilge Ceylan cresce ao investir longos minutos em três embates verbais arrebatadores. Dois deles são protagonizados por Aydin e o terceiro e último é travado entre a bem intencionada Nihal e Ismail (Nejat Isler) o irmão orgulhoso de Hamdi diante de uma doação em dinheiro.

É curioso perceber que ao evoluir no processo de escrita, Nuri Bilge Ceylan deixa para trás a virtude que marcou as suas produções anteriores. Não há em “Winter Sleep” o mesmo vigor estético de “3 Macacos” e “Era uma Vez na Anatólia” e as suas tomadas se dão mais na penumbra de ambientes isolados do que em externas que registram as particularidades de Anatolia, um local com acomodações que se assemelham a cavernas. É uma pena que a preservação do estudo de personagens em detrimento de algo visualmente mais envolvente não se efetive diante de uma decepcionante redenção quase piegas oferecida para Aydin, um homem que a vida inteira se deixou levar pela amargura.

2 Comments

  1. As opiniões sobre esse filme se dividem muito, mas as credenciais dele, ainda mais como vencedor da Palma de Ouro 2014 em Cannes são suficientes. Espero ter a chance de conferir.

    • Kamila, de fato, o filme não é uma unanimidade, muitos se queixaram dele após vê-lo na Mostra. De qualquer modo, vale a pena ser visto, mas é preciso uma disposição extra.

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