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Entrevista com Bill Corso, maquiador de “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo”

Quando a primeira imagem oficial de “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo” foi divulgada, houve uma repercussão mundial sobre a transformação em que Steve Carrell foi submetido. O ator sempre foi reconhecido pelos seus papéis cômicos e nasceu neste novo filme de Bennett Miller a primeira oportunidade de o vemos em um grande papel dramático.

Transformar Steve Carrell no milionário John du Pont, que patrocinou uma equipe de luta livre e se envolveu em um assassinato, não foi uma missão fácil. Vencedor do Oscar por “Desventuras em Série”, o maquiador Bill Corso descreve o seu trabalho desafiador em “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo” em uma entrevista conduzida por Harrison Pierce em fevereiro deste ano e gentilmente disponibilizada com exclusividade pela Cinnamon Comunicação.

No seu primeiro com o diretor Bennett Miller ele teve alguma diretiva geral ou específica em termos de como ele queria que a maquiagem fosse usada no filme?

Ele me mandou o roteiro e… eu o li e sabia que Steve Carell foi escalado, mas eu pensava comigo e não conseguia imaginá-lo neste filme. Então eu tive uma conversa posterior com Bennett e disse ‘Eu preciso ser honesto, eu não consigo ver Steve Carell neste filme’. E ele respondeu, ‘Você está certo. Steve Carell não pode estar neste filme; John du Pont é quem deve estar neste filme’. É raro quando você tem essa conversa com um diretor onde ele quer que o ator esteja totalmente irreconhecível, o que geralmente acontece é quando Meryl Streep surge e precisa se parecer com Margaret Thatcher, mas você quer ter a certeza de que o público sabe que é Meryl Streep interpretando Margaret Thatcher e nunca perder de vista a grande estrela do cinema que você está pagando um monte de dinheiro. Neste filme, porém, Bennett Miller era como, ‘Eu não quero ver Steve Carrell em tudo’. Eu disse, ‘Por que você não contrata Gary Oldman, Jeremy Irons, Christoph Waltz ou algum desses caras?’ E ele disse, ‘Quando você contrata esses caras, você sabe para onde você está indo. O que eu quero é um ator que a plateia não tenha a menor ideia aonde ele está indo’. Diante de tudo isso, ele não queria que os atores parecessem estar sob uma maquiagem, ‘Os meus filmes são contados em close-ups e em longos takes‘. É como se você encarasse uma fotografia de maquiagem, o que pode ser horrível se você não fazê-lo corretamente. Foi um trabalho cheio de elementos exigentes e desafiadores.

Que auxílio visual você usou para criar a aparecia dos personagens e o quão importante era para que os atores se assemelhassem com as figuras reais que interpretam?

Bennett disse que não se importava se eles se assemelhassem com os personagens reais. Ele não se importava se Steve se parecesse com du Pont porque ninguém realmente sabe como du Pont se parecia. Ele estava muito mais interessado nele parecendo como um cara com grandes riquezas, um superior de uma Nova Inglaterra sem miscigenação de raças. Assim, ele me enviou toneladas de fotos de homens ricos – indo além de du Pont – e todos têm uma aparência similar. Assim como também fizemos uma pesquisa similar quanto aos lutadores: todos têm uma similaridade facial, geralmente achatados. É algo que tentamos fazer com Channing Tatum e Mark Ruffalo.

Steve Carrell in Foxcatcher

Dos três atores, Steve Carrell passou pela transformação física mais drástica para o filme. Você pode nos descrever o processo de transformá-lo em John du Pont?

A questão inicial era o que há de particular em Steve Carrell? E o que temos a perder com ele? Na lata eu pensei que as sobrancelhas são o que há de mais particular nele e, por isso, tínhamos de perdê-las. Então eu criei essa prótese que cobre a sua testa e as sobrancelhas. Isso me permitiu mudar a anatomia ao redor dos seus olhos e torná-lo um pouco mais velho. E du Pont tem um perfil que o faz ter um nariz de águia, então nós adicionamos um arco para imitar o nariz do du Pont. Steve tem cabelos muito escuros e nós o acinzentamos e ainda raspamos a região frontal para que ele parecesse diferente. Em seguida, nós demos para ele dentaduras com dentes pequenos, pois du Pont os tinha. Enquanto fazíamos isso, pensei ‘Vamos ver se nós podemos mudar o formato de sua boca’. Então adicionamos um enchimento que empurrava a arcada dentária para fora, algo parecido com Marlon Brando em “O Poderoso Chefão”. Isso mudou totalmente a forma da boca dele. E os lábios do Steve são finos e fortes, enquanto os do du Pont eram macios e pastosos, então, nos risos, eu coloquei lábios falsos nele. Steve pesquisou muitas imagens do du Pont, que usava a sua boca de modo muito específico enquanto falava, então ele gostou dos lábios falsos e nós o mantemos. E então o pintamos para dar essa aparência pálida, translúcida. Finalmente, Steve tem olhos claros e du Pont, castanhos escuros. Colocamos lentes de contato nele. Foi um ponto primordial. Ele não era du Pont até colocarmos as lentes de contato.

Por quanto tempo os atores estiveram na cadeira de maquiagem todas as manhãs e o que eles faziam para passar o tempo?

Steve era o que ficava na cadeira por mais tempo. Ele ficava na cadeira por duas horas e meia e tinha a sua maquiagem feita antes de qualquer outra pessoa entrar no trailer. As maquiagens de Channing de Mark levaram cerca de uma hora cada. E eles ainda passavam as linhas do roteiro para se deparar com os seus personagens diante do espelho.

Com todas as cenas de luta e os tapas na cara, houve alguns percalços com a maquiagem no set?

Você faz todo o trabalho de maquiagem e deixa os caras irem embora e a primeira coisa que fazem é um dar chave de braço no outro. E esses caras realmente faziam isso. Assim, o meu parceiro Dennis Liddiard e eu ficávamos constantemente consertando eles. Channing Tatum tinha tatuagens que precisavam ser sempre cobertas. E ele teve que dar uma chave de braço em Mark Ruffalo e, claro, Mark teve toda a cabeça pintada com uma pele realista que sempre era arruinada a cada golpe. Durante um take de luta, nós vimos uma orelha voando (risos). Há muita manutenção, mas nós estávamos acima de tudo. A maquiagem se deu do melhor modo possível.

Thanks to the special-effects makeup wizardry of Bill Corso, Steve Carell’s mug morphs from one of the most benign, albeit deadpan, in the business into one of the most monstrous in the movie Foxcatcher, the all-too true and disturbing story of malcontent heir and wannabe wrestling guru John du Pont. Here, Carell being transformed. Courtesy: Sony Pictures Home Entertainment

Você foi indicado ao Oscar pelo seu trabalho em “Foxcatcher” e ganhou em 2005 por “Desventuras em Série”. O que você se recorda sobre aquela noite?

Eu realmente estava esperando não vencer, porque eu estava totalmente nervoso quanto ao que teria de dizer – e não me sentir digno. Naquele ponto, eu estava cheio de dúvidas. Quero dizer, eu sempre fui um líder de torcida – eu amo o trabalho que fazemos e eu sou tão inspirado por outros artistas -, então eu estava mais focado em torcer pelos meus colegas do que por eu mesmo. No ano seguinte, nós fomos indicados por “Click” e eu sabia que não ganharia novamente e eu tive um grande momento. Foi simplesmente divertido ir e estar lá sem precisar me preocupar em ficar estressado.

Você já fez a maquiagem para filmes de grandes orçamentos como “O Espetacular Homem-Aranha” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, bem como obras de proporções menores, mais íntimas e humanas como “Foxcatcher”. Você tem alguma preferência?

A preferência é a variedade. Ninguém quer apenas fazer um filme de grande orçamento. Você quer variar. E fazer algo diferente é o que torna tudo emocionante. Essa é uma das coisas que eu mais amo sobre este trabalho: nunca dois filmes serão os mesmos. Mas eu não poderia fazer TV. Eu não poderia fazer a mesma coisa ano após ano. Isso não é comigo.

Que conselho você daria a alguém interessado em explorar este campo?

O que eu fiz foi somente praticar. Eu costumava copiar o trabalho que eu realmente amava – como o trabalho de artistas famosos de maquiagem – e eu queria apenas continuar trabalhando nisso. E cercar-me de outros artistas, porque você aprende com outras pessoas, você começa a extrair as coisas das pessoas e, quanto melhor for o artista que você extrair, melhor você será. Atualmente, eu tento me cercar de artistas que são melhores do que eu. E o último conselho que eu gostaria de dar é aprender a usar computação. Não ignore o mundo digital, porque ela é uma realidade atual muito palpável.

One Comment

  1. Ótima entrevista. O trabalho dele em “Foxcatcher” é um primor, mesmo que eu não goste muito do filme.

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