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Resenha Crítica | Terra Estranha (2015)

 

Strangerland, de Kim Farrant

Habitada por um calor que não dá trégua, animais peçonhentos bizarros e paisagens desoladoras, a Austrália sempre se mostrou um cenário perfeito para a encenação de histórias que buscam desvendar o instinto humano, as desigualdades de uma sociedade e o quanto a nossa pequenez é capaz de devastar todo um território. Portanto, “Terra Estranha” não é um nome genérico para batizar a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem.

Temos aqui uma história que se (des)constrói a partir de um desaparecimento, com contornos muito distintos aos de “Um Grito no Escuro”, um aussie drama com Meryl Streep e Sam Neill sempre rememorado quando se fala do que é produzido na terra dos cangurus. Matthew e Catherine Parker (Joseph Fiennes e Nicole Kidman) são os pais de Tommy e Lilly (Nicholas Hamilton e Maddison Brown), ambos às voltas com as descobertas nem sempre agradáveis da adolescência.

O histórico dos Parker foi para a lama assim que o relacionamento de Lilly com o seu professor veio à tona, com este quase morrendo pelas mãos de Matthew. Restou a eles a mudança para uma cidade insossa, com fácil acesso a uma série de regiões desérticas e montanhosas. A dinâmica familiar se dissipou e o sentimento, como bem aponta Lilly, é a de que cada um vive encarcerado.

Fica evidente que algo está errado com cada membro desta família quando Catherine acorda em um dia como qualquer outro sem que os filhos estejam na cama. Eles não foram à escola e todos os vizinhos afirmam que não os viram durante o período matutino. Matthew viu que ambos pularam a cerca do quintal durante a madrugada, mas nada fez para impedi-los a abandonarem o lar. Vem literalmente a tempestade de areia, um anúncio das tragédias que vão testar o casal.

Nem um pouco satisfeito em acompanhar as investigações sobre o desaparecimento pelo detetive David (interpretado por Hugo Weaving), a dupla de roteiristas Fiona Seres e Michael Kinirons insere algumas insinuações sobre o caráter de cada personagem. Se David é capaz de eliminar evidências que podem comprometer Burtie (Meyne Wyatt) o filho de sua namorada (Lisa Flanagan), o que esperar dos Parker? A truculência ou completa passividade de Matthew importunam e alguns comportamentos de Catherine a denunciam como uma versão adulta de Lilly, uma jovem de 15 anos preenchida por uma libido incontrolável.

Quase ninguém parece saber exatamente o que está fazendo em “Terra Estranha”, uma vez que Kim Farrant farta a todos com inúmeras sugestões que só tornam penosa uma experiência que quase totaliza duas horas de duração. As belas panorâmicas captadas pelo diretor de fotografia P.J. Dillon não têm qualquer ressonância em uma narrativa que sequer se soluciona entre quatro paredes e há até mesmo flertes com misticismos locais para incrementar a história. Resta o grito desesperador de Nicole Kidman que ecoa na penumbra da terra estranha, implorando por uma resolução que se desenha do modo mais insatisfatório possível.

12 Comments

  1. Acabei de assistir a esse filme, e a cada momento esperava muito da história, que no entanto deixou inúmeras brechas, suposições, insinuações e dúvidas. Minha conclusão objetiva foi a de que Catherine tinha essa tal “libido incontrolável”, mas ao casar com Matthew ela foi sufocada, pelos papeis de mãe, esposa e dona de casa, a filha tinha a mesma compulsão e não aguentava mais a prisão dentro da família, se atirou no mundo e deixou mal o irmão perdido no deserto. Em volta dessa linha, teceram mil floreios e penduricalhos, o que mais gostei mesmo foi da belíssima fotografia. Enfim, fiquei em suspenso pra terminar chupando o dedo.

    • Vera, também tenho a mesma interpretação. A transa que a Cathy tem com o marido na primeira noite do desaparecimento me pareceu muito mais que uma necessidade de afeto. E esse comportamento, que muitos podem julgar como inadequado em uma situação desesperadora como a que acompanhamos, se efetiva nos flertes com o Burtie, estando Cathy vestindo as roupas da filha. Acho um desenho muito interessante de personagem, dando ao batido tema de desaparecimento a possibilidade de cavar novos rumos, mas eis que as coisas se desenvolvem sem que praticamente nada de relevante seja desenvolvido ou esclarecido. De fato, é um filme desapontador.

  2. Lembrei de um comentário de um professor na faculdade, sobre um trabalho que me custou muito esforço mas acabou ficando muito extenso e confuso; ele disse que – não lembro exatamente as palavras – armei uma artilharia pesada e na hora da batalha ela negou fogo. Afff, magoei, mas era verdade.

    • Vera, a sua analogia é perfeita. E o “cessar fogo” de “Strangerland” é tão amargo que a gente não consegue nem comemorar.

      Um beijo!

  3. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Legal ver Nicole Kidman retornando às suas origens e filmando em seu país natal, onde começou a sua carreira. Pena que num filme, pelo que indica a sua crítica, insatisfatório.

    • Kamila, tem sido raro a Nicole Kidman se envolvendo em produções americanas. Basta lembrar de seus últimos trabalhos: “Grace of Monaco” foi rodado na França, enquanto “Paddington” e “Antes de Dormir” são produções britânicas. O cinema australiano está atravessando uma fase muito interessante, com produções pequenas recebendo bastante destaque internacional, a exemplo de “Reino Animal”, “The Babadook” e “Beleza Adormecida”. Infelizmente, “Strangerland” não entra neste time de bons títulos.

  4. fiquei tão desapontada com o final que vim procurar explicações kkk vi q n fui a única

    • Carol, vejo como um fim inconclusivo. A possibilidade que visualizo dentro de todos os eventos encenados é a de Lilly buscar uma independência, uma liberdade sexual que não seria possível em um lar com uma figura paterna que a censurava. Note que Lilly era uma reprise de sua mãe, embora isso seja verbalizado somente uma vez por Matthew.

  5. Filme com muitas insinuações e nem uma ponta de esclarecimento. Desapontador. E, sob minha ótica, pareceu-me fortemente que havia uma insinuação de abuso, talvez por parte de Catherine. No diário de Lily estava escrito “Touch in the dark… When no one can see”. E o menino sempre ia dar caminhadas na madrugada. Seria para escapar de algo talvez? Mas, de qualquer maneira, muito insatisfatório o epílogo.

    • Denise, exatamente. É preciso ter muito cuidado ao fazer um filme com um roteiro em que todas as lacunas devem ser preenchidas pelo espectador. E o caso de “Terra Estranha” nem é o mesmo de, por exemplo, “A Garota de Fogo”, no qual o diretor e roteirista tem um domínio completo sobre o que ele quer mostrar e o que o espectador é capaz de preencher por si mesmo. Uma pena, pois tinha potencial para ser um grande suspense dramático.

  6. LEOPOLDO ANTONIO FEIJÓ BITTENCOURT LEOPOLDO ANTONIO FEIJÓ BITTENCOURT

    O filme é tão insatisfatório que no momento que a mãe após querer histericamente saber porque ninguém a toca e vai para o deserto atrás da filha, pensei, só falta ela ter uma relação com um aborígene. Os personagens são inverossímeis, o beijo no oficial detetive, o menino que não fala onde foi parar a irmã, a irmã entra num carro e larga o irmão no deserto, roteiro muito mal escrito

    • Leopoldo, eu acredito que o, digamos, apetite sexual da protagonista é bem crível, é uma característica que diz muito sobre um passado que não conhecemos, só deduzimos. Mas concordo no geral com o seu comentário, é um filme extremamente insatisfatório.

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