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Wes Craven e o prazer do medo

Wes Craven

Wesley Earl Craven
✰ 2/8/1939
✝ 30/8/2015

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Os filmes de terror são como um campo de treinamento para a psique. Na vida real, os seres humanos são embalados nas mais frágeis embalagens, ameaçados por eventos reais e às vezes horríveis, como Columbine. Mas a forma narrativa coloca esses medos em uma série gerenciável de eventos. Dá-nos uma maneira de pensar racionalmente sobre os nossos medos.

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Muito antes da adolescência, inúmeras dúvidas nos cercavam e éramos incapazes de formular as questões certas para saná-las. Temendo a autoridade de nossos pais, estes também com dificuldades em nos ensinar sobre a vida, lançamo-nos a outros subterfúgios, como a troca de confidências com os amigos que brincávamos nas ruas ou com materiais impróprios e proibidos.

De certo modo, o cinema foi o primeiro “objeto” que tive acesso para me oferecer as respostas para uma série de questões, principalmente sobre sexo e o medo. Para compreender o primeiro tema, esperava toda a minha família dormir para ligar a tevê, apertar a tecla mude e assistir aos filmes do Cine Band Privé, atração de filmes eróticos da Rede Bandeirantes que entrava ao ar na madrugada de sábado para domingo. Para compreender o segundo tema, o medo, não era preciso tanto segredo, bastava pedir para as minhas irmãs alugarem filmes de terror ou aguardar pelo TV Terror, programa exibido aos sábados pela RedeTV.

Eu realmente não me importava com as advertências de que aquelas histórias macabras que me fascinavam poderiam me tirar o sono. Como o esperado, em alguns momentos tive muitas dificuldades para dormir, mas era o prazer pelo desconhecido que realmente valia a experiência obscura. Portanto, era natural alguns mascarados ou deformados dos slasher films serem figuras cativas desde a terceira infância. Como Freddy Krueger, o sujeito repleto de queimaduras por todo o corpo que trucidava jovens com uma garra enquanto se viam imersos em seus inconscientes.

Nascido em 2 de agosto nos subúrbios de Cleveland, Ohio, Wes Craven foi um dos cineastas mais devotos ao terror, gênero no qual debutou em 1972 com o cult “Aniversário Macabro”. Excetuando “Música do Coração”, drama convencional estrelado por Meryl Streep, as perturbações de Wes sempre o direcionaram para as narrativas que tinham como combustível o fantástico ou os crimes em série. Na maioria das vezes, muito atento ao cenário em que estava inserido. Os vilões de “Quadrilha de Sádicos” são mutações de uma sociedade alienada pela guerra e os personagens de “A Hora do Pesadelo” estão às voltas com as consequências de abraçar as libertinagens de uma juventude com os hormônios em ebulição.

Se tudo isso não fosse o suficiente, Wes Craven ainda ousou ao rever o legado que deixou com todas as suas obras máximas. Brincou com a metalinguagem em “O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger” quando a franquia tinha entrado em declínio e ressuscitou o gênero que o formou com “Pânico”, produção que inaugurou um novo ciclo de produções de terror. Também foi brilhante com títulos sem grande repercussão, como “Benção Mortal” e “A Maldição dos Mortos-Vivos”, e ainda proporcionou um divertimento honesto até mesmo em seus piores trabalhos – como não recordar da cabeça da veterana Anne Ramsey explodindo ao ser atingida por uma bola de basquete em “A Maldição de Samantha”?

Mesmo diagnosticado com um câncer cerebral e sem um novo projeto assegurado como diretor, Wes Craven continuou ativo até o seu último suspiro, atuando como produtor executivo da versão em série de tevê de “Pânico” e de mais dois longas-metragens em fase de pós-produção, “The Girl in the Photographs” e “Home”. Prestou uma contribuição exemplar para o gênero, como quase nenhum outro o fez, ao elevá-lo como um canal para identificarmos todos os nossos temores internos e externos e finalmente enfrentá-los, mesmo a principio com as luzes acessas. No fim de sua existência, Wes Craven finalmente pode repousar sem que nenhuma alegoria monstruosa o perturbe.

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5 filmes essenciais de Wes Craven:

– Quadrilha de Sádicos, 1977
Benção Mortal, 1981
– O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, 1994
Pânico, 1996
Pânico 4, 2011

2 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Alex, que bela homenagem! Bem pessoal! Sei do seu amor pelo gênero de terror e sei também que você gostava bastante dos filmes de Wes Craven!

    • Kamila, me senti na obrigação de escrever um texto de despedida, pois Wes Craven foi um dos diretores mais fundamentais para a minha formação como cinéfilo. A sua morte vai deixar uma lacuna no terror moderno que dificilmente será preenchida por algum outro cineasta.

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