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Bate-papo com o diretor Pedro Severien, de “Todas as Cores da Noite”

Pedro Severien
Fonte: Divulgação/Mostra

 

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Nascido em Recife, Pedro Severien não chegou a sua estreia como diretor em longa-metragem por meio de “Todas as Cores da Noite” sem um preparo prévio. É dele alguns curtas como “Carnaval Inesquecível” e “Canção Para Minha Irmã”. Severien também assinou a produção de “Boa Sorte, Meu Amor”, bem como o roteiro de “País do Desejo”, drama de 2012 com Fábio Assunção, Gabriel Braga Nunes e Maria Padilha.

Na segunda apresentação de “Todas as Cores da Noite”, Pedro Severien se disponibilizou a bater um papo rápido com os espectadores da sala 6 do Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca. A transcrição está disponível a seguir.

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Sobre a construção de “Todas as Cores da Noite”

Todo ambiente urbano tem histórias de violência que são contadas com muita propriedade neste universo oral, mas que não é factual, você não tem acesso, é quase imaterial. São coisas investigadas sem documentação. Isso agitava muito a minha imaginação, tanto para o bem quanto para o mal. Há também uma certa lógica, uma construção de um imaginário de violência complexa. Percebi que esse era um universo que me interessava, que passei a investigar em alguns filmes e com “Todas as Cores da Noite” eu entendi que, para a construção do argumento, eu tinha que lidar com essa essência, que é contar uma história. O filme não tenta elucidar o caso, ele constrói uma espécie de quebra-cabeça a partir de versões que são sempre incompletas, são sempre muito próprias de quem as contam. Eu queria que o espectador fosse convidado a entrar na mente do outro, de quem fala, e com essas imagens como um fluxo mental da personagem que conta a história. Já ao longo do filme, fui buscando uma combinação entre outras formas de contar histórias. Tinha muito interesse nessa versão oral das coisas, por isso o monólogo. É claro que eu não tinha interesse em dar conta de um universo social, construir um painel da realidade social, da necessidade do Brasil. É muito mais sobre o que fica depositado nesse imaginário. Acho que a imaginação é muito ligada a inserção e a rejeição à memória, pois é algo sempre fluido, que nunca para, eu achava que era interessante e que eu poderia caminhar para o fantástico, caminhar para um lugar onde a resolução é outra vez imaterial, não carrega uma resolução física da vida.

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Sobre Sandra Possani

Sandra Possani é realmente uma mestra. Uma atriz gaúcha com uma história no teatro incrível. O monólogo dela foi feito como um desafio. Já havia trabalhado com ela em alguns filmes, então me senti na liberdade de jogar um texto louco. Ela consegue dar uma organicidade a algo muito louco.

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Sobre as referências literárias

O meu primeiro interesse pelo universo artístico foi por meio da literatura. Queria ser escritor. Em 2013, publiquei um livro de contos, e um deles se chama “As Aventuras Românticas de Governo e Metrópole”. O texto do monólogo da Sandra Possani é uma adaptação desse conto. É um jogo de linguagem. O monólogo é uma busca, uma brincadeira, como criar um filme dentro de um filme. Até mesmo na experiência de projeção como esta, cada um cria um filme dentro de sua cabeça, há uma dupla projeção, ninguém vê um filme igual. A gente reconstrói as imagens que está vendo.

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Sobre a dinâmica com o elenco

Para construir esse universo, há uma série de cumplicidade, uma espécie de pacto. O que interessava a mim e que eu desejava compartilhar com o elenco não era necessariamente uma narrativa que desse conta de um determinado tema, mas sim tentar fazer com que as emoções de sofrimento, de desafeto, se manifestassem. Tinha muito interesse por isso, que acontecesse algo ali, não sendo necessariamente uma narrativa no sentido mais clássico do termo. Como se fosse a expressão de algo, de um universo emocional desorientado. A personagem principal está em uma espiral de desorientação. O filme orbita em torno dela, das histórias das personagens. Elas estão orbitando em torno dela tanto no sentido físico da cena quanto até no conceitual das ideias, como um jogo de emoções, de traumas, de imagens que estão circulando na cabeça dela. O filme faz um convite para o espectador entrar neste jogo.

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