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Resenha Crítica | Meu Amigo Hindu (2015)

Meu Amigo Hindu (My Hindu Friend)

Meu Amigo Hindu, de Hector Babenco

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Talvez pela persona descortês em entrevistas e em aparições públicas, Hector Babenco não é um diretor relembrado com afetuosidade pelo público brasileiro. O que não pode ser dito sobre este argentino naturalizado no Brasil é alguma falta de competência sua como realizador. Enriqueceu a cinematografia de nosso país com ao menos dois clássicos, “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia” e “Pixote, A Lei do Mais Fraco”, bem como fez uma obra que o lançou internacionalmente, “O Beijo da Mulher-Aranha”, para o qual foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor.

Mesmo com o levantamento de todas as suas virtudes, é um exagero Hector Babenco transformar o seu décimo longa-metragem em uma autobiografia não assumida. Em making off dirigido por Bárbara Paz, o diretor diz que somente alguns eventos de sua trajetória particular e profissional serviram de inspiração para este retorno aos longas após os oito anos de o afastam de “O Passado”.  É uma afirmação difícil de levar a sério quando vemos Paz e Supla reencenando a final de “Casa dos Artistas”.

Com a escolha de Willem Dafoe para viver o protagonista, o diretor de cinema Diego Fairman, Babenco decidiu traduzir todo o roteiro para o inglês. Com exceção do “Ai, meu deus!” soltado pela empregada negra, todos os personagens que orbitam no universo de encantamento de Diego falam em inglês, ainda que sejam brasileiros dentro do Brasil. O ator americano confere aqui aquele que deve ser o papel mais físico de sua carreira, mas a empatia se dissipa diante de uma persona egocêntrica e misógina.

Mesmo com uma família grande, Diego sempre foi um sujeito que priorizou a carreira artística, o que bem ilustra o prólogo em que sai no meio do velório do próprio pai. Nem mesmo quando é diagnosticado com câncer terminal Diego amolece,  chegando a dizer para a própria esposa Lívia (Maria Fernanda Cândido) que, caso tivesse a escolha, prefere que ela morra em seu lugar.

Existe um tom de autopiedade em “Meu Amigo Hindu”, que dramatiza em excesso essa luta de Diego/Hector pela vida, vilanizando os seus entes mais próximos para que tenhamos maior envolvimento com a sua dor. Seja ficção ou fato, o roteiro chega até a exibir o seu irmão Antonio (Guilherme Weber) exigindo um milhão de dólares para se submeter a um transplante de medula. Há também em “Meu Amigo Hindu” uma forte influência às mulheres de Federico Fellini, todas exuberantes, usadas e descartadas por Diego.

Temos momentos inegavelmente bons em “Meu Amigo Hindu”. Os melhores são aqueles que trazem Selton Mello como um mensageiro da morte, sempre acompanhado por uma mulher de idade em poses que se pretendem sensuais. É também bela a sequência final, com Bárbara Paz dançando “Singing In The Rain” em uma noite tempestuosa. No entanto, o sentimento de desejo pela vida está à espreita somente nesses poucos instantes e, por incrível que pareça, o “amigo hindu” (o terrível Rio Adlakha) é justamente o que há de mais avulso em um filme que pretende rever essa relação inusitada entre um adulto e uma criança, vivenciada pelo próprio Babenco em suas sessões de quimioterapia.

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