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Resenha Crítica | Garoto (2015)

Garoto

Garoto, de Júlio Bressane

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Ao exibir “Educação Sentimental” na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Júlio Bressane de algum modo previu os rumos que o seu cinema tomaria ao relatar que o seu filme foi o último rodado em película a ser trabalhado em um laboratório que, na sequência, fechou as portas. “Passou o cinema da transparência para a opacidade.” Dois anos depois, temos “Garoto”, agora com Bressane abraçando os experimentalismos do digital.

Livremente inspirado em “O Assassino Desinteressado Bill Harrigan”, conto de Jorge Luis Borges presente na coletânea “História Universal da Infâmia” (publicada pela Companhia das Letras em 1995), “Garoto” acompanha um homem e uma mulher interpretados por Gabriel Leone e Marjorie Estiano. Ele emudece enquanto ela é só devaneios, aqueles já típicos de Bressane e a sua parceira Rosa Dias.

Na realidade, há um jogo erótico entre esses dois gêneros, esses irmãos, em meio às folhas que despencam das árvores que cercam o ambiente árido. Da saída desse breve isolamento, surge uma terceira figura feminina, feita por uma Josi Antello que praticamente revive a sua Áurea de “Educação Sentimental”. E então, consuma-se um crime que fará esse casal retroceder tanto no tempo quanto no espaço.

Outra vez Bressane pauta a sua obra em comportamentos que reaproximam os seus personagens contemporâneos de uma ancestralidade que provoca a constatação de que nós pouco progredimos. Vê-se também a mulher como uma representação da liberdade, do conhecimento, de sua fuga do homem de seu estado primitivo permanente. As tatuagens expostas de Marjorie incomodam, mas ela é dona de uma intensidade que reduz ainda mais Gabriel, que nada deve a ruindade proposital dos desempenhos de Bernardo Marinho em “Educação Sentimental” ou mesmo de Selton Mello em “A Erva do Rato”.

É como se “Garoto” fosse também uma releitura do conto bíblico de Adão & Eva, com a mulher conduzindo o homem para a civilização enquanto este a arrasta sem rumo para um mundo onde nada mais resta do que rochas, seca e escuridão. É uma pena que as possibilidades de interpretação sejam sufocadas com o vazio dos ambientes que os protagonistas transitam, fazendo com que “Garoto” atinja o seu limite após uma primeira metade enxuta e valiosa. Talvez o ponto de comprometimento seja pertencer ao projeto Tela Brilhadora, que ainda traz o documentário “Origem do Mundo”, em que Moa Batsow estuda a arte rupestre a partir das locações de “Garoto”.

One Comment

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Legal, Alex. Parece ser um filme bem interessante!!

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