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Entrevista com Chico Diaz, ator de “Em Nome da Lei”

Com quase uma centena de créditos no cinema e na tevê, o ator Chico Diaz se consagrou em 2002 como Wellinton Kanibal, um dos papéis centrais de “Amarelo Manga”, o filme mais elogiado do pernambucano Cláudio Assis. Mas Chico deve parte de seu sucesso ao diretor Sérgio Rezende, que ofereceu o primeiro papel de sua carreira em 1982, no longa-metragem “O Sonho Não Acabou”.

Também no elenco de “O Homem da Capa Preta” (de 1986), Chico Diaz revê Rezende em “Em Nome da Lei“, dando aqui vida ao vilão Gomez. Nascido na Cidade do México em 1959, o intérprete mergulhou em um processo minucioso de construção para entregar um personagem composto não apenas de uma dimensão. Esse é um dos aspectos discutidos na entrevista a seguir, cedida pela Palavra Assessoria em Comunicação.

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“Em Nome da Lei” é o seu terceiro filme sob a direção de Sergio Rezende. Como vê esse reencontro?

Acho que foi um belo reencontro, porque o Sergio pensou em mim para um ótimo personagem. Na verdade, foi o Sergio e a Mariza Leão que me apresentaram ao mundo do cinema, em “O Sonho Não Acabou” (1982), meu primeiro filme. Depois, fizemos juntos “O Homem da Capa Preta” (1986). Então, há um sentimento de gratidão muito grande por ele ter aberto esse caminho para mim. Foi interessante ver como o Sergio e a Mariza amadureceram ao longo desse tempo e, ao mesmo tempo, o quanto permaneceram os mesmos também, em termos de camaradagem e no cuidado com os detalhes, as pequenas coisas.

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A partir de que referências você construiu o traficante Gomez?

O Gomez não é baseado em ninguém em particular. A inspiração é mais abrangente: o universo dos grandes capi do tráfico de cocaína. Sergio me apresentou a um personagem que poderia ter um corte arquetípico, como um grande bicheiro ou um mafioso italiano, com fortes laços com a família e noções de fidelidade, que encontramos em livros, filmes e séries de TV. Minha preocupação maior era dar peso ao personagem, porque sou mais baixo e, portanto, mais leve também. Tinha que adquirir uma densidade de movimento e de voz. E é isso que a gente vai aprendendo com o cinema, a se movimentar dentro do quadro.

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Consegue entender as motivações de Gomez?

Li recentemente uma entrevista agora o traficante mexicano “El Chapo” Guzmán. A argumentação dele é próxima à do Gomez: de onde vim não tinha nada, aprendi a sobreviver, me impus. Ele é produto de uma geração quase espontânea, fruto da ausência do Estado, que não oferece proteção e educação a seus cidadãos. Gomez é um criminoso, mas também um pai de família e bom comerciante. Ele é cria de uma região de fronteira em que, historicamente, esses procedimentos ilegais eram ignorados pelo poder público, um problema que só observado há pouco mais de 10 anos. Antes era invisível a todos.

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O que você conhecia sobre a fronteira entre o Brasil e o Paraguai?

A familiaridade se dá mais pelo sangue do que pela geografia: meu pai mora no Paraguai e vou lá com uma certa frequência. Mas eu nunca tinha estado na fronteira do lado de cá, o brasileiro. Desconhecia a pujança agroindustrial daquela região. A cidade de Dourados, onde filmamos “Em Nome da Lei”, me impressionou muito pela riqueza, mas também pela discriminação dos índios, que são colocados de lado, marginalizados.

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O que achou da experiência de filmar em locação?

Adoro fazer filmes em locação. A natureza em torno e as pessoas do lugar contribuem para compor a personagem. Ficamos meio isolados naquela localidade, mas eu saía para fotografar, escutar como as pessoas falam e constroem seu mundo para então roubar um pedacinho para colocar no roteiro. Cada filme exige uma forma de abordagem do personagem. Uns exigem imersão mais profunda, em outros a técnica vai melhor o personagem, e há outros que não valem tanto o esforço da imersão, porque não vai imprimir tudo na tela.

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Como classificaria “Em Nome da Lei” dentro da produção nacional atual?

É um exemplar raro no panorama de hoje, um filme pesado, de locação pesada, e com um elenco heterogêneo. Essa experiência me deu vontade de navegar no grande cinema brasileiro que fiz lá atrás, 20 anos ou mais. É uma história onde há um embate entre claro e escuro, o que é lei e o que não lei. Um filme que não se propõe a fazer uma leitura, um julgamento, daquela realidade que apresenta. “Em Nome da Lei” não tem proposta sociológica, é um filme de ação e romance.

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