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Entrevista com Mariza Leão, produtora de “Em Nome da Lei”

Parceira de Sérgio Rezende na vida pessoal e na profissão desde “Até a Última Gota” (de 1980), Mariza Leão não havia participado da produção de “Salve Geral“, thriller protagonizado por Andrea Beltrão em 2009. A colaboração no cinema volta com “Em Nome da Lei“, cuja premissa é inspirada em uma figura real, o juiz federal Odilon de Oliveira.

Antes desse reencontro, no entanto, Mariza se consolidou como uma das produtoras mais bem-sucedidas de nosso cinema, resultado de uma flexibilização que abraçou comédias populares como “De Pernas Pro Ar” e “Meu Passado Me Condena: O Filme”. São detalhes comentados na entrevista a seguir, cedida pela Palavra Assessoria em Comunicação.

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Você não produz um filme do Sergio, seu marido, desde “Onde Anda Você” (2004). Como analisa esse período em que vocês dois estiveram “separados”?

Acho que foi muito bom a gente ter ido cada um para o seu lado, durante algum tempo, para poder voltar com um projeto que encantava os dois. Sempre digo que é bom trabalhar juntos por opção e não por contingência. Ele me propôs esse projeto, adorei e achei que já estávamos muito tempo separados profissionalmente. De certa forma, “Em Nome da Lei” é um reencontro.

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Quais aspectos de “Em Nome da Lei” te chamaram mais a atenção?

Acho que a contemporaneidade do projeto me interessou mais. Tenho mais afinidade com filmes contemporâneos. O filme fala de um personagem que identifico no Brasil contemporâneo e isso me atrai muito. Essa coisa de me ver colada numa realidade que estou vivendo. Acho que um juiz jovem que assume uma vara em uma região de fronteira é uma coisa muito contemporânea, sim.

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Enxerga alguma semelhança entre o Vitor, protagonista de “Em Nome da Lei”, e o juiz Sergio Moro, que está à frente das investigações da Lava-Jato, na vida real?

Acho que o nosso juiz não tem nada a ver com o Moro. O que acontece no nosso Brasil é que os poderes Executivo e Legislativo estão passando por um momento muito difícil, e o Judiciário está assumindo um papel que, a meu ver, não é equilibrado. Existem três poderes, não pode existir apenas um que seja um depositório da expectativa da sociedade. Nesse sentido, gosto desse juiz imperfeito, que tem contradições. O Vitor de “Em Nome da Lei” é um herói imperfeito. Não um herói no sentido tolo, rasteiro, mas alguém que tem um compromisso com seus ideais e que os leva adiante com todas as contradições que nós, seres humanos, temos.

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Quais as vantagens de se filmar em locação uma história com geografia tão complexa como essa?

Acho que não conseguíramos uma figuração com essa, meio com cara de índio boliviano/matogrossense. Outra vantagem são os grandes planos abertos daquela região, a terra vermelha das plantações de cana e soja, que aqui, no Rio, não teria. Sergio não tem medo de filmes em locação. Eu também sou maluca o suficiente para filmar no sertão (“Canudos”), no interior de Portugal (“Meu Passado Me Condena 2”), ou num navio (“Meu Passado Me Condena”). Filmo muito pouco no Rio. Acho que interessante também porque a região Centro Oeste é muito pouco mostrada no cinema ou na TV brasileiros. O visual do filme é elemento de atração para o público. Aqueles grandes planos de estradas, sem montanhas, fogem do lugar comum.

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A que você credita essa quase ausência da paisagem do Centro Oeste no cinema brasileiro?

Se você pegar a literatura brasileira, vai encontrar uma quantidade enorme de livros que têm como cenário o sertão ou o litoral nordestino, ou ambientados na região amazônica. Há poucos autores que se detêm sobre o Pantanal, como o poeta Manoel de Barros. Em outras mídias, a escassez é maior ainda. A gente consegue lembrar de “O Matador”, do Beto Brant, que se passa na fronteira do Centro Oeste, e mais nada. Mas a fronteira é muito ativa, é um tema brasileiro.

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É mais difícil levantar fundos para um filme com questões sociais e políticas, como “Em Nome da Lei”, do que uma comédia?

O tema não trouxe facilidades ou dificuldades. Ele tem apoios fortes da Fox e do Fundo Setorial, por exemplo. Sim, há investidor que só quer fazer filmes para as pessoas rirem, o que não é o caso do nosso, que fala sobre contrabandistas que agem entre o Brasil e o Paraguai. Há filmes que são mais fáceis de conseguir apoio do que outros, mas tem lugar para tudo no mercado. O que vejo é uma dificuldade maior para levantar recursos para produções mais encorpadas. Hoje, no Brasil, os filmes que se viabilizam mais facilmente são os de custo médio, de até R$ 6 milhões, com alguma vocação popular. Os filmes mais encorpados, orçados entre R$ 7 e R$ 7,5 milhões, que também são importantíssimos, têm mais dificuldades de encontrar parceiros. Até porque os recursos oriundos de leis de incentivo diminuíram muito nos últimos anos.

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Você produz filmes de diversos gêneros e tamanhos. Tem preferência por algum tipo?

Gosto da pluralidade. Uma produtora tem que ter no currículo filmes de diferentes patamares. Tem que fazer um drama intimista como “Ponte Aérea”, comédias como “Meu Passado Me Condena” e um filme de ação como “Em Nome da Lei”. Não quero ser refém de um modelo de sucesso, nem de um caminho. Acho que produzir é também se expor, se colocar no mundo, ter um ponto de vista através dos filmes que você faz. Mas não é fácil, porque o “Em Nome da Lei” é um filme de porte grande, em termos de elenco, quantidade de extras, de cenas de ação. É diferente de fazer um filme urbano sobre relações afetivas, com o “Ponte Aérea”. E todos eles têm que ser igualmente bem realizados.

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