Skip to content

Entrevista com Sérgio Rezende, diretor de “Em Nome da Lei”

.
Mesmo longe das telas desde 2009, ano em que lançou “Salve Geral”, Sérgio Rezende estava comprometido com “Em Nome da Lei” desde 2012. Não imaginava que lançaria o filme em um instante em que a política e a justiça se tornariam as pautas principais dos jornais diários e da boca do povo.
Ainda assim, o thriller não parte da linha da produção oportunista, algo confirmado pelo próprio cineasta em coletiva de imprensa realizada em 11 de abril. “Em Nome da Lei” trás temas que se comunicam com a sua filmografia. É o que evidencia na entrevista a seguir, oferecida pela Palavra Assessoria em Comunicação.
.
.
O que há de particular na região de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai?
O filme é uma ficção, uma história original inspirada em histórias daquela parte do país. Aquele mundo ali tem muita história. Na década de 1970, aquilo era o fim do mundo e uma paisagem ainda muito desconhecida pelos brasileiros. Aos poucos, foi se transformando em solo fértil para o agronegócio. A proximidade com a fronteira, pouco policiada, a transformou em porta de entrada para o contrabando e o tráfico de drogas. Primeiro, foi o contrabando de café e de outros produtos. Depois as drogas, maconha, cocaína, e até roubo de carro. Hoje é uma região turbulenta. Mais recentemente, as gangues de São Paulo se mudaram para lá. Tenho muita pesquisa sobre isso. Acabei me interessando mais pelo aspecto mítico da fronteira.
.
A fronteira geográfica ou a metafórica?
Ambas. Esse espaço físico e humano onde a linha entre o legal e o ilegal, a justiça e o crime é sempre tênue. Fui começando a pensar no filme a partir das questões que a ideia de fronteira levantam. De repente, percebi que tinha estruturado o filme quase como um western: o cara chega em seu cavalinho numa cidade nova para enfrentar todo mundo. No caso de “Em Nome da Lei”, o herói chega em uma moto, mas é mais ou menos a mesma coisa. Meu horizonte eram filmes americanos como “A Marca da Maldade” e “O Homem que Matou o Facínora”.
.
Vê alguma relação entre a extensão de nossa fronteira e o crime organizado?
Uma fronteira como a brasileira é uma coisa que não dá para cercar ou vigiar de forma eficiente. É um estímulo ao contrabando, ao tráfico. Hoje, cerca de ¼ do cigarro consumido aqui no Brasil é contrabandeado, pirata. Agora tem uma coisa que está animando muito os criminosos, é o fato de que contrabando é considerado uma contravenção, já traficar droga é crime. Dirigir um caminhão carregado de cigarro pirateado é um crime afiançável; quem é pego com maconha ou cocaína é preso. Os rigores são outros. O contrabando é um negócio que rende bilhões de reais aos criminosos, e gera uma perda bilionária de impostos para o país. E todo mundo participa disso ao comprar material contrabandeado. A sociedade também tem responsabilidade sobre isso.
.
O filme chega aos cinemas brasileiros em um momento em que há um clamor por um Judiciário mais eficaz. Há juízes que estão se tornando verdadeiros heróis. O que acha disso?
Em um país como o Brasil, a lei, muito frequentemente, serve à injustiça. É através da lei que a justiça não é feita, o julgamento de casos de corrupção são protelados por décadas, até caducarem. Isso acontece porque a lei permite. Há um conflito entre a lei a a Justiça. Até o (juiz Sergio) Moro (à frente das investigações da operação Lava-Jato) tem falado sobre isso. Essa questão está muito latente na sociedade brasileira.
.
“Em Nome da Lei” se passa em uma cidade fictícia da fronteira. Por que a escolha de Dourados como locação?
Filmarem Dourados significou uma facilidade logística brutal, não perdíamos tempo. Tínhamos aeroporto, restaurantes e locações tudo a cinco minutos do hotel em que a equipe ficou hospedada. Aqui no Rio, por exemplo, teríamos o problema locomoção. Em Dourados não houve nenhuma locação mais distante 20 minutos. Filmamos ao longo de sete semanas. A gente construiu cenários e adaptou prédios já existentes. O fórum onde o Vitor trabalha foi construído em um clube social da cidade. A casa do Gomez é uma mansão que pertenceu a um cara que tinha uma vida meio polêmica e estava abandonada. A gente reformou o casarão inteiro. Grande parte em locações.
.
O elenco do filme combina antigos colaboradores seus com nomes de jovens talentos revelados pela televisão. Como chegou a essa composição?
Nunca havia trabalhado com o Mateus e a Paolla, mas tinha admiração pelo trabalho deles na TV. São pessoas que ajudam a dar visibilidade ao filme. Chegar ao Chico foi mais fácil, pois já havia feito dois filmes com ele, “O Sonho Não Acabou”, nosso primeiro filme de ficção, e “O Homem da Capa Preta”. Mas o resto da turma também me deu um grande prazer. Trouxe atores da série “Questão de família”, que fiz recentemente para o canal GNT, como o Eduardo Galvão. Éramos um pouco como uma companhia de teatro, rolou uma integração, um companheirismo muito grande na locação.
.
Por que você trouxe o Pedro Bromfman, que mora e trabalha nos Estados Unidos, para fazer a trilha sonora?
Já tinha tentado trabalhar com o Pedro antes, em “Salve Geral” (2009), mas não deu certo. “Em Nome da Lei” é um filme de gênero, coisa que não se faz tanto aqui no Brasil e, como o Pedro agora está no olho do furacão, assinando a música de produções como “Robocop”, a refilmagem do sucesso dos anos 1980, e da série “Narcos”, ambos com direção de José Padilha, achei que a contribuição dele seria mais que oportuna. O Pedro é um cara que está imerso no cinema de gênero e, ao mesmo tempo, sendo brasileiro, conhece o universo cultural do filme. Ele fez essa ponte.

Be First to Comment

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers:

%d blogueiros gostam disto: