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Resenha Crítica | Amor por Direito (2015)

Freeheld, de Peter Sollett

Laurel Anne Hester se transformou em uma heroína anônima a partir do instante em que liderou uma causa pessoal convertida em uma luta coletiva pela igualdade. Doente, Laurel precisou abdicar de sua profissão como policial não apenas para se submeter a uma série de tratamentos, como também a ação para que a sua parceira, Stacie Andree, pudesse ser contemplada com uma pensão caso o pior acontecesse. No entanto, o município tradicionalmente republicano em que vivia não reconhecia como legítima uma união homossexual.

Ocorrida há um pouco mais de 10 anos, a história repercute no mundo de hoje, com nações ainda relutantes em conferir a casais do mesmo sexo os direitos assegurados por parceiros heterossexuais. Em registro incisivo, Cynthia Wade levou o Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem em 2007 ao apresentar ao mundo o ativismo de Laurel por meio de “Freeheld”. Já a dramatização de Peter Sollett em “Amor por Direito” somente constrange.

Há um bom ponto de partida, mostrando Laurel (Julianne Moore) como uma policial muito competente em uma função com pouca presença feminina e que esconde a sua orientação sexual com o temor de ser preterida em uma evolução em sua carreira. É uma escolha que compromete inclusive a sua relação com a jovem Stacie (Ellen Page), negando-se a demonstrações afetivas em público e unindo laços em um casamento secreto. No entanto, esse comportamento é modificado quando o trabalho passa não ser a prioridade quando a sua integridade física é arruinada com a descoberta de um câncer em estágio avançado.

Como Dane Wells, policial que atua em parceria com Laurel, Michael Shannon não se permite a cair na caricatura. Por isso mesmo, é o único elemento equilibrado em “Amor por Direito”, um personagem com a neutralidade tanto por compreender Laurel pela escolha em manter a sua vida particular em segredo como para buscar auxílio em um ambiente de trabalho machista e conservador.

O restante do elenco fica à sombra, isso quando não sucumbe ao embaraço. As boas intenções de Ellen Page, uma atriz que vem priorizando o seu lado ativista desde que se assumiu como lésbica, não é o suficiente para tornar crível a sua caracterização como Stacie, uma mecânica que mais parece uma filha do que uma parceira para Laurel. É ainda pior as intervenções de Steve Carell como Steven Goldstein, que como o apoiador de uma causa se transforma aqui em um judeu histriônico que encara uma sala de tribunal como um carnaval patético.

Mais do que o elenco, “Amor por Direito” é contaminado por uma tentativa cada vez mais constante de tornar acessível um segmento de produção audiovisual ainda encarado com resistência pelo grande público. Soa por vezes como um vídeo institucional, buscando conscientizar que há outras formas de amor e que elas são igualmente belas. A consequência é a infantilização de uma história extraordinária, felizmente muito maior para se sobressair diante de sua encarnação ficcional.

2 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Até mesmo pela grandeza da história real na qual é inspirada, estou com muita curiosidade para assistir “Amor por Direito”. Além disso, tem esse elenco maravilhoso!!

    • Kamila, também estava com a mesma expectativa quanto ao filme. No entanto, bastou a recepção negativa em Toronto para esfriá-las. O elenco principal é cheio de grandes nomes, mas apenas Michael Shannon está no tom certo.

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