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Resenha Crítica | Ninguém Deseja a Noite (2015)

Nobody Wants the Night, de Isabel Coixet

Filha de uma alemã com um oficial militar americano, Josephine Diebitsch Peary veio a descobrir a vocação pela exploração de locais inóspitos ao se casar com Robert Edwin Peary aos 25 anos. As contribuições conjuntas em expedições valeram-lhe o título de Dama do Ártico, ainda mais comum com a vinda de Marie, filha que deu à luz no Polo Norte. Trata-se de uma figura real que buscou não viver à sombra de seu marido, recebendo em “Ninguém Deseja a Noite” o papel de protagonista.

Interpretada por Juliette Binoche, Josephine não é compreendida pela cineasta Isabel Coixet e o roteirista Miguel Barros como uma heroína, entretanto. Qualquer tom de aventura que a premissa poderia corresponder é limado para exibir o drama de uma Josephine no ápice da fragilidade, clamando por seu Robert ao ponto em ir a sua procura com toda a instabilidade de uma paisagem marcada pelo branco da nevasca.

Incapaz de traçar o trajeto por si própria, Josephine convence Bram Trevor (Gabriel Byrne) a liderar uma viagem com esquimós, estes sempre encarados pelos estrangeiros como meros mapas ambulantes com habilidades para a caça e o transporte de bens. Feroz quando contrariada, Josephine parece distante da realidade que passa a rodeá-la, desejando a todo custo reencontrar o amado como a protagonista de uma fábula, inclusive carregando consigo um guarda-roupa com peças luxuosas.

Se o primeiro ato acompanhamos uma mulher fútil que ignora os riscos que pode pagar para saciar o seu capricho, “Ninguém Deseja a Noite” caminha em direção oposta a de “A Rainha do Deserto”, de Werner Herzog, que reduziu a grande Gertrude Bell em uma moça ingênua guiada por lamúrias amorosas ao invés da curiosidade em conhecer a amplitude do mundo. Isso porque a versão ficcional de Josephine passará a ter a presença da esquimó Allaka (Rinko Kikuchi) para colocar em perspectiva o seu vazio emocional.

Essa transição de intenções talvez seja a razão de “Ninguém Deseja a Noite” ter sido severamente criticado em sua première no Festival de Berlim. No entanto, é ela a responsável por engrandecê-lo. O romance com molduras épicas e a aventura antropológica dão vez a visão de Isabel Coixet sobre o que é a mulher em seu sentido mais primitivo. Unidas por algo em comum, Josephine e Allaka se transformam com a vinda de um inverno rigoroso, devastando tudo que as protegem até restar os instintos maternais e de sobrevivência. Ao decifrar a natureza de suas personagens com tanta intensidade, Coixet volta a provar o quão especial (e subestimada) é diante de seus colegas contemporâneas.

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