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Os Destaques da Coletiva de Imprensa de “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”

Ao permitir que o mundo assistisse aos meandros de sua performance no Museu de Arte Moderna de Nova York no documentário “Marina Abramovic: Artista Presente”, Marina Abramovic enfatizou a importância da performance no cenário artístico. Com o interesse ampliado sobre o seu trabalho, o Sesc Pompeia trouxe ao Brasil a exposição Terra Comunal, que contemplou uma detalhada linha do tempo de performances da artista sérvia e a continuidade de seus métodos a partir de outros artistas e de instrumentos que exigiam a participação direta dos visitantes.

Embora realizado antes de Terra Comunal, o documentário “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil” é o resultado da intenção de Abramovic em transformar o seu público como a resposta final de suas performances. No entanto, o registro acompanha um momento particular da artista, que veio ao Brasil buscar por uma cura a um emocional abalado com um rompimento amoroso.

Para promover o documentário, Abramovic esteve na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi para participar da coletiva de imprensa organizada no dia 9 de maio. Trazemos agora os principais destaques de sua conversa com os jornalistas. Para conhecer a nossa opinião sobre “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”, basta clicar aqui.

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Apresentando “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”

Esta história é como o “Rashomon”, de Kurosawa. Nele, há sete testemunhas de um crime em uma floresta. Eles se reúnem ao redor de uma fogueira e contam sobre as suas perspectivas de um mesmo acontecimento. No documentário, há três versões e agora eu contarei a minha.

Em 1989, foi a primeira vez que vim ao Brasil. Vim por uma razão bem específica: a pesquisa de minerais. Fui para todos os lugares do país. Iniciei a série chamada Objetos Transitórios, onde o público interage com esses materiais. Esse trabalho foi exibido em vários países, exceto o Brasil, justamente de onde ele originou. Em 2008, conheci a Luciana Brito. Ela tinha uma galeria. Foi ótimo, pois nos tornamos amigas e vi uma ótima oportunidade em finalmente trazer esse trabalho para o Brasil. Após a minha exibição no Museu de Arte Moderna em Nova York, decidi fazer algo além de uma exposição em galeria. Assim, planejei esse retorno ao Brasil para lugares da natureza, lugares esses que chamo de pontos de poder, com formações rochosas, cachoeiras, que contêm uma energia especial para que eu pudesse aprender sobre eles e sobre as pessoas que neles habitam.

A pergunta é: o que aprendi com isso? Eu trabalho com a performance, uma forma imaterial de arte, que lida com energia. Não é algo tangível, você precisa sentir. O Brasil tem uma abundância de conhecimentos antigos, bem como pessoas que detêm esses conhecimentos com as quais eu posso aprender a lidar com essa energia.

Questionei se haveria alguém que pudesse registrar toda essa trajetória. Há muitos lugares, há muita pesquisa envolvida. Como faríamos tudo isso? A Luciana tinha um financiamento apenas para uma pequena viagem. Cheguei ao Brasil, dormi e, após o café da manhã eu e toda a equipe partimos para a Abadiânia. Estamos aqui com o João de Deus. Como filmá-lo? Ele nos respondeu que não tinha autorização para se deixar registrar, pois incorpora 126 espíritos. Onde ele vive, esse é um fato totalmente natural que não seria compreendido em outros lugares. Ele me disse: “Sou apenas um homem. Não posso deixar você me filmar, pois teria de pedir a permissão de todos os espíritos”. Aguardamos dias e mais dias, até o momento que ele se aproximou de nós, sorrindo, e disse: “Ok, você pode filmar tudo”.

Fui uma experiência incrível. A equipe de trabalho, da Casa Redonda, todos estavam engajados em fazer esse projeto. É preciso existir química com cada pessoa. Mas não foi um mar de rosas. O Marco Del Fiol e eu brigamos demais. Não durante as gravações, que foram maravilhosas, mas durante a montagem. Eu queria que tudo fosse cortado, mas Marco insistia em manter. Chegamos em um consenso e o resultado é o que será visto em “Espaço Além: Marina Abramovic e o Brasil”.

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Marina Abramovic (Espaço Além - Marina Abramovic e o Brasil) 3-3

Sobre a cura emocional após a conclusão das gravações

Fico impressionada como o filme atinge as mulheres. Talvez seja mais fácil vê-las com o coração partido do que os homens. Isso é cientificamente comprovado. Eu realmente vivo de coração partido, choro por qualquer coisa. Comprando leite no supermercado, pegando o táxi. Acordo no meio da madrugada chorando. Todas as conversas com amigos no período antes de fazer o documentário era sobre a minha decepção amorosa, como se o resto do mundo não existisse. Assim, vim ao Brasil, conheci todos esses incríveis e diferentes xamãs e me curei. Em novembro, completarei 70 anos de idade e nunca estive tão feliz em minha vida. Minha avó dizia que quando você chegar aos 70 anos, é quando a sua vida realmente começará. Hoje, quero trazer ainda mais inspiração para as pessoas.

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Sobre a sua expressão artística e a sua vida privada

Meu trabalho é sobre a minha vida. Além de lidar com as minhas questões, quero encontrar a chave para transcender e tocar todas as pessoas. Digo que quanto mais você mergulhar em seu íntimo, mais você transcende. Todos somos seres humanos. Todos nós lidamos com as dores de um coração partido, com a mortalidade.

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Sobre o rompimento amoroso

Após o meu marido morrer… Não, ele não morreu. Essa foi maravilhosa! Não! Ele não se foi, ele morreu na minha mente. Após o meu primeiro marido, envolvi-me com um outro artista. Rompemos e fiz um manifesto em uma camisa que serve para todos: “Nunca se apaixone por um artista”. Cometi o mesmo erro duas vezes e não voltarei a fazê-lo. Artistas são os piores. É tudo sobre competição, poder. Quem é o mais famoso, quem não é. Isso destrói tudo.

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Marina Abramovic (Espaço Além - Marina Abramovic e o Brasil) 1-3

Sobre as distinções do registro de sua performance e de sua intimidade

Não é fácil estar em frente de uma câmera a todo o momento e ser espontânea, mas tive um grande treino antes de “Espaço Além”. Em “Marina Abramovic: Artista Presente”, estive com um microfone em mim durante todo um ano. O diretor chegava ao meu apartamento às 6h da manhã com toda a equipe para me acordar. Queria matar todos eles. Filmavam-me quando estava no banheiro, quando passava mal, com ou sem maquiagem. Enfim, em todas as circunstâncias da minha vida. Foi difícil, mas valeu a pena. Por que eu fiz isso? Porque a perfomance, até aquele momento, não era respeitada como uma forma legítima de arte. Não era como o vídeo e a fotografia, duas expressões também consideradas ilegítimas e agora dentro do mainstream. A performance sempre foi vista como um entretenimento, com todos em um museu tomando vinho enquanto ao lado há uma performance acontecendo. Queria mostrar ao público em geral o quão difícil, como cada molécula do seu corpo exige para a sua preparação, mas também provar que a performance tem um poder de transformação de uma consciência. Penso que “Artista Presente” foi muito bem-sucedido nesse aspecto.

Ao trabalhar em “Espaço Além”, já estava confortável com o microfone. É muito importante saber o que estávamos fazendo. Penso que ele é muito inspirador para quem o assiste. Sim, você testemunha a minha jornada íntima, o meu coração partido, mas nos minutos derradeiros é mostrada a nossa principal finalidade. Fizemos um trabalho de sucesso no Sesc, que ajudou a definir o meu papel como artista hoje. Não sou mais eu fazendo uma performance diante de uma pessoa. O público é a minha obra, pois mais cedo ou mais tarde eu já não estarei mais aqui, mas deixarei como legado as minhas ferramentas para que o público possa utilizá-las.

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Estivemos na coletiva de imprensa com a participação de Marina Abramovic. Para ler os principais destaques da conversa com os jornalistas, basta clicar aqui.

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