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Os Destaques da Coletiva de Imprensa de “Prova de Coragem”

Diretor bissexto, Roberto Gervitz esteve em um intervalo de 10 anos entre as produções de “Jogo Subterrâneo” e “Prova de Coragem”. No entanto, o período serviu para estudar outros projetos. Escrito por Daniel Galera, “Mãos de Cavalo” foi lançado em 2006 e, desde a conclusão da leitura, Gervitz demonstrava interesse em adaptá-lo para o cinema, cujos direitos foram obtidos por Monica Schmiedt.

Cineasta e produtora, Monica faleceu em março deste ano. Não pôde testemunhar o lançamento comercial de “Prova de Coragem”, mas acompanhou a sua exibição no último Festival de Brasília. Ela foi um dos assuntos da coletiva de imprensa do filme, cujos destaques você pode ler agora.

Agradecimento especial ao Danilo Calazans, do Loucos por Filmes e do Pipoca de Pimenta, que gentilmente cedeu para nós o registro em áudio da coletiva após identificarmos problemas com a nossa gravação. Também informamos que temos uma análise sobre o filme, que pode ser lida aqui.

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Roberto Gervitz (Prova de Coragem)

Sobre o ponto em comum em adaptar escritores diferentes

Roberto Gervitz:

Existem algumas características comuns aos personagens, embora eles sejam muito distintos entre si. São livros bem diferentes entre si, mas que tem a ver com questões que a vida me colocava e que encontrava elementos que me estimulassem a construir algo a partir deles, para discutir razões que me angustiavam e sobre as quais me perguntava.

Os meus filmes sempre foram um processo de aprendizado meu comigo mesmo. Aprendizado no sentido de me debruçar sobre certas questões e, de alguma forma, construir alguma coisa a partir dali. Não uma resposta. Não são filmes de autoajuda. Em “Prova de Coragem”, não há respostas. Mas são filmes que debatem questões importantes para a vida de todos nós. Algo em comum nesses personagens é o medo. Eles temem e desejam a vida. O medo se estabelece entre eles com um embate com a vida. Os personagens vivem essa tensão. Eles se defrontam com acontecimentos que vão colocando em xeque essas questões que se concretizam. Não há filosofia em “Prova de Coragem”. Eles são psicológicos, mas não são atraídos por psicologismo. Não há explicações para você entender esses personagens.

Em “Jogo Subterrâneo”, cheguei ao máximo disso. Temos um personagem sem passado e você não sabe o que aconteceu com ele. Você parte a partir do jogo que ele estabelece. Não há explicações como “ah, a mãe dele o maltratou quando ele era uma criança”. Não há esse tipo de psicologismo nos meus personagens, até porque o espectador tem uma função importante de completar isso de acordo com as suas necessidades. Algo que a literatura supera muito o cinema é a participação intensa do leitor. No cinema, isso não é fácil de conseguir. Nos meus filmes, tento justaposições de cenas, um embate entre elas. No fundo, você vai formando um quebra-cabeça no qual cada um extrairá um sentido, nem certo ou errado. Há claramente um sentido para mim, mas ele importa até certo ponto. Ainda mais agora, que o filme deixou de ser nosso. Estamos entregando-o e agora ele viverá a sua própria vida.

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Mariana Xinemes (Prova de Coragem)

Sobre a problematização dos relacionamentos contemporâneos em “Prova de Coragem”

Mariana Ximenes:

Todas as questões que envolvem um casal, como maternidade e paternidade, são abordadas no filme. A Adri tem uma idade, o relógio biológico dela já apitou e ela quer ser mãe de qualquer jeito. O marido tem medo, insegurança. Essa mulher, que quer ser mãe, tem outra questão, que é a profissional. As mulheres de 30 anos hoje em dia têm esse dilema: o ser mãe e a necessidade de separar um tempo para isso e a profissão, esta a qual a Adri não quer abrir mão. Ela quer fazer a exposição dela. Entra a questão do tempo. Tudo aconteceu ao mesmo tempo para ela. Não gosto de fechar muito as minhas reflexões, pois tudo está no filme e, como o Roberto Gervitz já falou, ele é um prato para as pessoas saborearem, que farão as suas próprias reflexões.

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Armando Babaioff (Prova de Coragem)

Sobre a sua visão dos relacionamentos contemporâneos

Armando Babaioff: 

Há essa questão do relacionamento contemporâneo, dessa ausência de nomes, de tratos, de nomenclaturas. É um relacionamento no qual não sei identificar se eles são casados ou namorados. Hermano e Adri talvez não soubessem responder. O que há é um pacto. Reflete um pouco o que os meus amigos são. Eles não são casados, mas têm filhos ou planejam tê-los. Eles são um espelho dessa geração.

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Daniel Galera (Prova de Coragem)

Sobre a amizade com a produtora Monica Schmiedt e a adaptação de “Mãos de Cavalo”

Daniel Galera: 

A história desse filme está diretamente ligada à Monica Schmiedt. Eu a conheci antes de Mãos de Cavalo ser escrito. Trabalhei para ela durante “Extremo Sul”, um filme que ela dirigiu sobre uma escalada da mesma montanha mencionada em “Mãos de Cavalo”. Uma das minhas funções era receber os diários que ela enviava por internet e mexer um pouco antes de subir para o site onde eles eram publicados. Ficamos muito amigos nessa época. Eu havia feito alguns meses de escalada durante a faculdade e ela era uma praticante de mão cheia. Ela também fazia natação. Devido a essas ligações no esporte, ficamos muito próximos por algum tempo. A importância que a escalada ganhou no livro foi uma influência da Monica.

Quem leu o livro e viu o filme, notará muitas semelhanças e diferenças. Como uma adaptação legal e interessante, ela é a visão de um autor em cima de um material original. Isso é algo que desde a minha primeira conversa com o Roberto Gervitz sabia que aconteceria. Algumas semanas após vender os direitos do livro para a Monica, o Roberto me ligou. Não o conhecia e quando ele falou ao telefone sobre o interesse pelo romance, disse que os direitos foram vendidos. Anos depois, a Monica falou sobre a entrada de um diretor no projeto. Ao falar que era o Roberto, lembrei-me da ligação. Também não conhecia os dele. Conversamos outra vez e o Roberto os mandou para mim. Não me esqueço de um contato sobre os textos que ele me enviaria com base em sua visão sobre o meu livro e sobre o que o filme poderia ser. O texto me marcou bastante. Não o estava esperando, ele era enorme, com uma tensão, um mergulho fundo, sobre o que achava do romance, o que tiraria e colocaria para o filme. Impressionou-me a imersão, a vontade em adaptá-lo. Desde aquele momento, já sabia mais ou menos o filme que seria e isso foi se confirmando conforme o roteiro foi sendo feito. Não tive participação nele, mas o Roberto me mandou dois tratamentos. Dava as minhas opiniões e ele sempre se interessava por elas, mas sempre com a separação saudável que deve haver entre o autor e todos os envolvidos em uma adaptação. Acho importante não somente para o diretor, mas também para o roteirista, os atores e a equipe técnica em trabalhar como se o autor não fosse uma sombra, um peso. Não é isso que está em jogo. Quando um livro é adaptado para o cinema, as pessoas não estão trabalhando para me agradar. Eu sou a última pessoa naquele momento a ser agradado. Fui acompanhando tudo com aquela mistura de excitação, expectativa e um pouco de temor, que é inevitável. Foi uma aventurazinha para mim também.

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