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Resenha Crítica | O Caseiro (2016)

O Caseiro, de Julio Santi

A cultura brasileira é cheia de lendas urbanas e misticismos que renderiam a produção de um sem número de filmes que disputariam em pé de igualdade com outros gêneros de nossa cinematografia. Além do mais, o público jovem interessado está crescendo, como se viu no um milhão de ingressos que “Invocação do Mal 2” vendeu apenas em seu fim de semana de estreia.

A razão da escassez está na falta de manejo com elementos consagrados no terror, transformando o que deveria ser aterrador em objeto de humor involuntário. Não à toa, as obras nacionais que obteram maior êxito foram justamente aquelas que compreenderam o humor como um componente que não se desassocia do horror, como fazia Ivan Cardoso.

Por tudo isso, o esforço de Julio Santi em “O Caseiro” merece algum crédito. Ao contrário de seus colegas, o jovem cineasta, em parceria com o seu irmão João Santi no roteiro, compreende que é possível rever com seriedade o nosso folclore e raramente traz para o seu filme o que já é chavão em exemplares estrangeiros.

Em boa atuação, Bruno Garcia é o professor de psicologia paranormal Davi. Os seus alunos encaram com certa resistência a sua disciplina, mas há aqueles que acreditam em sua fala, como Renata (Malu Rodrigues). Mesmo residindo na grande São Paulo para lidar com a graduação, a jovem ainda é muito ligada à família que vive no interior. Isso porque alguns eventos estranhos têm se intensificado na chácara que habitam, especialmente após a morte da matriarca.

Davi se compromete a passar um fim de semana para comprovar se há de fato a manifestação de alguma atividade paranormal e as evidências preliminares o fazem crer que o que perturba as irmãs de Renata é de caráter bem material. Resta identificar se o patriarca Rubens (Leopoldo Pacheco) e a sua irmã Nora (Denise Weinberg) são os responsáveis ou se, como afirmam, é tudo obra do espírito do antigo caseiro da família, que cometeu suicídio quando Rubens era apenas um garoto.

No curso da investigação, Julio Santi privilegia a tensão crescente ao invés dos sustos calculados. Não há em “O Caseiro” os esperados jump scares e pistas que corroboram para a antecipação do mistério, o que valoriza o conflito interno do protagonista entre ser racional ou ceder ao espiritual. Merece menção o excelente trabalho do diretor de fotografia alemão Ulrich Burtin, driblando muito bem os desafios da captura noturna com escolhas estéticas que privilegiam o desconforto diante do que aparentemente não é visto.

O que poderá provocar uma divisão de julgamentos sobre “O Caseiro” é a surpresa preparada para o terceiro ato da história. Além da sensação de que o realizador está perdendo o domínio de seus personagens (os encontros e desencontros entre eles evidenciam certo despreparo para lidar com contextos que correm em paralelo), muitos se sentirão trapaceados pela resolução do mistério. É aquele tipo de filme que dá vontade de assistir pela segunda vez para comprovar se tudo se encaixa com harmonia, ainda que muitos possam dar falta de algumas peças sem a necessidade de uma revisita.

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