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10 Filmes de Temática LGBT que Merecem ser Descobertos

Hoje, 28 de junho, é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Muito mais do que uma comemoração que reúne membros da comunidade em pontos movimentados das cidades, a data vem para fortalecer a luta pela igualdade em uma sociedade ainda movida por preconceitos contra orientação sexual e gênero.

Desde o instante que o cinema se livrou das amarras da censura, os filmes de temática LGBT passaram a marcar presença na cinematografia mundial. A crença conservadora de doença ou desvio de conduta felizmente deu espaço para tramas ficcionais que se conscientizaram da importância em inserir em sua moral o fato de que há algo de muito perverso na condenação da prática do amor entre pessoas do mesmo sexo ou de indivíduos que passam a rever o gênero ao qual pertencem.

Sem a necessidade de transformar em vídeo institucional uma obra cinematográfica que retrata essas questões, os filmes a seguir são incisivos na dramaticidade e no humor ao representar um movimento de vozes que vêm se mostrando mais fortes do que a intolerância. Dentro de um sem número de títulos pré-selecionados, chegamos a um recorte com dez filmes, privilegiados na lista a seguir por não serem tão lembrados quando se fala em cinema LBGT.

Gostaria de recomendar algum título ausente em nossa seleção? Pois não deixe de usar os comentários para dar as suas recomendações.

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O Pecado de Todos Nós (Reflections in a Golden Eye)

O Pecado de Todos Nós, de John Huston +

Na velha Hollywood, os censores eram ferozes na avaliação de filmes não voltados para toda a família que envolvessem relacionamentos e violência. Na Era de Ouro, imperava o código Hays, responsável por todos os protocolos que passavam um pano em tudo o que categorizavam como impuro, um ataque aos bons costumes. Com a falência do sistema de censura, algumas produções foram mais claras ao lidar com as suas intenções e “O Pecado de Todos Nós” talvez seja o primeiro filme com grandes protagonistas ao tratar sobre desejos reprimidos e adultérios. Muito mais do que o serviçal afeminado interpretado pro Zorro David, há aqui um Marlon Brando como um major casado com uma insaciável Elizabeth Taylor que contempla às escondidas o soldado de Robert Forster cavalgando nu pela floresta próxima a sua propriedade.  Mesmo jamais deixando claro, é evidente que Sam Mendes se inspirou em “O Pecado de Todos Nós” para a sua estreia como diretor de cinema em “Beleza Americana”.

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Mulheres Apaixonadas (Women in Love)

Mulheres Apaixonadas, de Ken Russell

Dois anos após “O Pecado de Todos Nós”, o cineasta britânico Ken Russell deu alguns passos adiante para as narrativas que desejavam falar mais abertamente sobre a complexidade das relações humanas. Com base no romance de D.H. Lawrence, Russell escandalizou ao trazer aquela que foi a primeira cena de nudez frontal contida em uma produção de reconhecimento mundial. Trata-se da luta encenada entre Oliver Reed e Alan Bates em uma sala de estar, momento que denuncia o caráter homoafetivo da obra e que servirá inclusive como ferramenta para a perversidade da protagonista da extraordinária Glenda Jackson, em interpretação vencedora do Oscar. Ambientado na década de 1920, a história se desenvolve a partir do envolvimento de dois melhores amigos (Reed e Bates) respectivamente com as irmãs Gudrun e Ursula Brangwen (Jackson e Jennie Linden).

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Parceiros da Noite (Cruising)

Parceiros da Noite, de William Friedkin

Poucos cineastas tiveram uma ascensão e queda tão marcante quanto William Friedkin. Oscar de Melhor Diretor por “Operação França” e responsável por um dos filmes mais aterrorizantes da história do cinema (“O Exorcista”), Friedkin foi duramente criticado por “Parceiros da Noite”, onde trata sem reservas sobre a caça do policial interpretado por Al Pacino por um assassino em série que atua na cena noturna gay de Nova York. Repudiado no lançamento, hoje o filme tem sido redescoberto, ganhando atualidade com as tragédias recentes que vitimaram membros da comunidade LGBT, como a de Orlando neste mês. Em 2013, James Franco e Travis Mathews reimaginaram as sequências explícitas que teriam sido removidas da edição final de “Parceiros da Noite” em “Interior. Leather Bar.”.

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O Padre, de Antonia Bird

Falecida em 2013, a cineasta Antonia Bird foi capaz de desenvolver uma carreira expressiva, mesmo afeita a condução de episódios de séries que não tiveram grande repercussão. A sua obra-prima é “O Padre”, de 1994. Com roteiro assinado por Jimmy McGovern, Bird definitivamente mexeu em vespeiro: interpretado por Linus Roache (no melhor trabalho de sua carreira), o padre Greg Pilkington preocupa-se com as causas dos moradores da cidadezinha em que vive ao mesmo tempo em que mergulha secretamente em aventuras homossexuais com Graham (Robert Carlyle). Além de introduzir Tom Wilkinson como um colega de batina em um relacionamento não revelado com  a própria empregada, “O Padre” ainda amplia as discussões ao tornar pública a privacidade do protagonista, que ainda é atormentado com a confissão de uma menor que se diz abusada sexualmente pelo próprio pai.

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Ligadas Pelo Desejo (Bound)

Ligadas pelo Desejo, de Lana e Lilly Wachowski

Antes de sucumbirem à megalomania com os fracassados “Speed Racer” e “O Destino de Júpiter” ou mesmo de recolherem os louros obtidos com “Matrix”, Lana e Lilly Wachowski tinham começado pequeno com um filme produzido com apenas 4,5 milhões de dólares, mas que segue como o maior feito de suas carreiras. Trata-se de “Ligadas pelo Desejo”, um romance criminal que parece satirizar a cartilha do cinema noir ao trazer duas mulheres ambiciosas, Violet (Jennifer Tilly) e Corky (Gina Gershon), como parceiras de uma armação que visa puxar o tapete do namorado da primeira, Caesar (Joe Pantoliano), que estaria com uma maleta com dois milhões de dólares pertencentes à máfia. Como Caesar não está ciente da pulada de cerca de sua amada Violet (ou mesmo de sua verdadeira orientação sexual), isso muda todo o rumo da narrativa, que nos leva a caminhos definitivamente inesperados.

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O Oposto do Sexo (The Opposite of Sex)

O Oposto do Sexo, de Don Ross

Autor dos excelentes roteiros de “Mulher Solteira Procura” e “As Barreiras do Amor”, Don Ross superou todas as expectativas ao debutar como diretor em 1998 com  “O Oposto do Sexo”. Cheio de humor negro e com a narração em off mais sarcástica do cinema, o filme apresenta a ardilosa Dede (Christina Ricci), uma adolescente grávida que busca o marido de seu falecido irmão, Bill (Martin Donovan), para obter alguma assistência. As coisas começam a se transformar em um novelo de lã cheio de nós quando Dede foge com Jason (Johnny Galecki), o então novo namorado de Bill. A confusão ainda envolverá a irmã mal amada de Bill, Lucia (Lisa Kudrow), o xerife interpretado por Lyle Lovett e até um amante de Dede, Randy (William Lee Scott). É um raro exemplo de comédia voltada para todo o público que não transforma o núcleo gay de personagens em meras caricaturas.

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Gotas D'Água em Pedras Escaldantes (Gouttes d'eau sur pierres brûlantes)

Gotas d’Água em Pedras Escaldante, de François Ozon

Homossexual, François Ozon é às vezes chamado de o Woody Allen francês. Não apenas pela periodicidade com que lança os seus filmes (um por ano), como pelas marcas autorais presentes em todos os seus textos, inclusive naqueles adaptados de outras fontes. Baseado em uma peça assinada por um então jovem Rainer Werner Fassbinder, “Gotas d’Água em Pedras Escaldantes” tinha tudo para ser um teatro filmado, uma vez que se passa inteiramente em um apartamento que será povoado por apenas quatro personagens. O resultado é o oposto, pois a encenação efervescente supera as limitações do palco com todas as formas de amor experimentadas, do jovem Franz (Malik Zidi) com o cinquentão Léopold (Bernard Giraudeau) até de Léopold com a enigmática Véra (Anna Levine).

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Mistérios da Carne (Mysterious Skin)

Mistérios da Carne, de Gregg Araki

Na revolução do cinema independente noventista, Gregg Araki surgiu como uma voz de representatividade para o público LGBT, definindo uma estética e um estilo de contar uma história que ia muito além dos “tutoriais” em formas de obras cinematográficas que imperam o circuito hoje.  “Mistérios da Carne” é encarado quase por unanimidade como o seu melhor filme, desviando-se sutilmente das extravagâncias singulares de seus sucessos de início de carreira para abraçar uma premissa que abandona os toques fantásticos de seu prólogo para tratar seriamente sobre uma infância de traumas envolvendo o garoto de programa Neil (Joseph Gordon-Levitt) e o tímido Brian (Brady Corbet).

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Como Esquecer

Como Esquecer, de Malu De Martino

Publicado em 2003 por Myriam Campello, “Como Esquecer” se transformou em um bom filme pelas mãos de Malu De Martino. Alguns elementos poéticos podem não surtir o efeito desejado (atente-se as aparições da garota com o guarda-chuva) e há conflitos dramáticos com soluções insatisfatórias. De qualquer modo, existe algo de especial nesta representação do fim de um relacionamento e todas as dores que ele carrega, inerente a qualquer casal. Ana Paula Arósio está extraordinária como Júlia, uma professora em busca de isolamento após o rompimento com Antonia, sua companheira durante dez anos. A dor acaba sendo compartilhada com duas pessoas com as quais passa a dividir um mesmo teto por problemas financeiros: o seu melhor amigo homossexual Hugo (Murilo Rosa) e a colega deste, Lisa (Natália Lage), abandonada grávida pelo seu namorado. Uma prova de que as dores de amores não isentam ninguém, assim como as oportunidades de recomeços.

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Tangerine

Tangerine, de Sean Baker

Sean Baker já havia se revelado uma promessa em “Uma Estranha Amizade”, uma comédia dramática autentica sobre a amizade de uma jovem com uma idosa. Primeiro longa-metragem realizado integralmente com iPhone, “Tangerine” desconstrói da raiz os filmes natalinos, trazendo as desventuras que movimentam o reencontro de duas amigas transgênero (Kitana Kiki Rodriguez e a arrebatadora Mya Taylor) na véspera do feriado natalino. Como o esperado, a proposta rende um retrato cômico a partir de situações de constrangimento captadas em uma Hollywood periférica, mas há no coração de “Tangerine” uma empatia comovente por anônimos de algum modo oprimidos no ambiente que estão inseridos tanto por não terem receios em mostrarem quem são em essência quanto por desempenharem o papel que foi-lhes confiado, como o caso do taxista interpretado por Karren Karagulian.

2 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Dos filmes que você citou, só assisti a “O Oposto do Sexo”, que é excelente!!

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