Skip to content

Resenha Crítica | Caça-Fantasmas (2016)

Ghostbusters, de Paul Feig

Em uma atualidade em que reboots parecem surgir a cada semana, “Caça-Fantasmas” marcou história ao obter o maior índice de rejeição já durante a sua produção. Nunca se viu no YouTube um trailer com tantos thumbs down e os ataques da comunidade geek ao diretor Paul Feig serviram de manchetes constantes em editorias de cinema. A razão é clara: o novo quarteto central não resgata nenhum dos componentes originais, atualizado com quatro mulheres.

Naturalmente, a modernização de qualquer produto que marcou uma geração e que adquire novos adeptos com o passar do tempo pode ferir o sentimento de nostalgia. E não há o que não lembrar em “Os Caça-Fantasmas”: a sua premissa sobrenatural, o cinismo de Bill Murray que viria a se tornar a sua marca registrada, uniforme e logotipo reconhecíveis a milhas de distância, a canção-tema de Ray Parker Jr. indicada ao Oscar e por aí vai.

Porém, acima de tudo isso, estamos em um momento em que o público exige por representatividade na tela de cinema. Com os planos de fazer um terceiro “Os Caça-Fantasmas” descartados especialmente com a morte em 2014 de Harold Ramis, uma peça essencial do elenco, a Sony Pictures recorreu a Paul Feig, hoje o mais bem-sucedido diretor de comédias americanas.

Quem viu “Missão Madrinha de Casamento”, “As Bem-Armadas” e “A Espiã que Sabia de Menos” sabe a predileção de Feig por uma visão feminina para o humor e a ação e não era possível esperar algo diferente de sua reimaginação do filme de Ivan Reitman, especialmente por trazer a bordo a sua parceira de roteiro Katie Dippold. A consequência é que existe a caretice de um público expressivo que se opõe a um cenário cultural (e também social) sem distinções e a mudança do gênero do quarteto foi o alvo central dos haters, como são chamados os que disseminam um ódio inconsequente no mundo virtual.

O caráter panfletário de “Caça-Fantasmas” é perene até mesmo ao mais incauto dos espectadores. Ao contrário do longa de 1984, as mulheres assumem o controle da situação às vezes como resposta às críticas que as invalidam como heroínas da ação. Porém, a sacada mais genial é a escalação de Chris Hemsworth como o secretário das garotas, um paspalho que descaracteriza toda a masculinidade do australiano que deu vida a Thor, o Deus do Trovão.

De modo algum isso significa que Feig faz um filme tingido da cabeça aos pés por um discurso feminista. O humor é a prioridade e, na formação das caça-fantasmas para combater os perigos do além que assolam Nova York, o que se testemunha com naturalidade são as mulheres com a mesma mesma destreza e inteligência que os homens para assumir uma missão de risco – talvez ainda mais em comparação com a formação original.

Aqui, as cientistas interpretadas por Kristen Wiig, Melissa McCarthy e Kate McKinnon (irresistível como a mais tresloucada do time) abrem uma empresa para a resolução de assuntos ligados a um plano além do material. Um pouco mais a seguir, a personagem de Leslie Jones, funcionária de uma companhia metroviária que encontra na captura de fantasmas a sua nova vocação, vem como uma adição.

Com a necessidade de atingir um grupo mais juvenil, talvez “Caça-Fantasmas” não tenha tanta maturidade para gerenciar alguns pontos. Como um sujeito que surpreendeu ao humanizar a vilania de Rose Byrne em “Missão Madrinha de Casamento” e “A Espiã que Sabia de Menos”, Feig  não consegue oferecer muito para Neil Casey, que interpreta uma vítima de bullying com um plano de transportar para o nosso mundo os espectros de indivíduos malvados. O apego por vezes excessivo a “Os Caça-Fantasmas” também compromete a eficácia de algumas piadas.

Agora, se há um ponto a ser exaltado além da reformulação de personagens é como esse “Caça-Fantasmas” aprimora os efeitos visuais, conferindo a eles um viés artístico. Existe um risco em pincelar digitalmente um frame com a mistura de cores primárias (alguém lembra de “Speed Racer”?), mas o supervisor dessa categoria técnica, Peter G. Travers,  eleva a estética pretendida a um nível que deve ser apreciado no melhor cinema que tem o filme em exibição. Uma pena que a impopularidade tenha falado mais alto, pois os envolvidos mereciam repetir a dose com uma sequência.

2 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Infelizmente, ainda não conferi “Caça Fantasmas”, mesmo com as boas críticas que o longa tem obtido. Particularmente, achei muito bacana o fato das personagens centrais serem interpretadas por mulheres.

    • Particularmente, os protagonistas desta versão superam em graça e carisma o quarteto original.

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers:

%d blogueiros gostam disto: