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Entrevista com Ana Carolina Soares, diretora de “Estado Itinerante”

Na programação deste ano do 27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, será natural se deparar com obras que abordem com destaque a condição da mulher no mundo contemporâneo. Um grande trabalho que assistimos é “Estado Itinerante“, que traz uma personagem desesperada para sair de uma situação evidente de violência.

“Estado Itinerante” tem grandes chances de ser reprisado no sábado, 3 de setembro, no MIS – Museu da Imagem e do Som, que exibirá às 19h uma seleção com os 10 curtas nacionais favoritos segundo a votação do público. Realizadora do drama, Ana Carolina Soares nos cedeu uma entrevista em que comenta alguns detalhes da produção.

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Um dos temas centrais desta edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo é o direito da mulher. Como você se sente ao apresentar a sua contribuição para este recorte?

A escolha deste tema é muito importante para a representatividade que a mulher vem lutando, falar de nossos direitos no cinema e no labor com o cinema, estamos em um momento de ocupação deste espaço. A minha contribuição vem de esforços; e eu me sinto recompensada em ver um festival reconhecendo esta luta, mas pra mim é o início. Tentei vários anos editais e já ouvi que minha justificativa era muito radical, coisa de discurso que fica na universidade. Digo que é o início porque vejo que para a emancipação da mulher ainda temos que fazer muitos filmes e discuti-los em todos os festivais. Isso falando do nosso “universo” do cinema, fora dele então, precisamos viver em vigília.

Estado Itinerante

Em sua história, não é dada uma face para aquele que amedronta a protagonista. Ao invés disso, você estabelece um clima de apreensão especialmente em dois momentos em que ela retorna à casa em que divide com o homem que a ameaça. Poderia comentar sobre essa escolha?

Esse é um ponto interessante de roteiro. Me senti muitas vezes insegura nesta escolha porque as pessoas que liam o roteiro sempre diziam: “Não dá pra entender se ele não aparecer!”. Essa escolha foi sempre privilegiando o suspense e tentando ultrapassar a relação mais comum do espetáculo quando se opta por uma cena de violência. Queria muito colocar de outra forma, trazer dentro da normalidade do cotiano os reflexos da violência. E assim fui seguindo com um roteiro que não era muito bem entendido. Só tive certeza desta escolha quando troquei mais sobre experiências de situações de violência e percebi que ela tinha também outra função, a de trazê-las para o protagonismo total no filme e demonstrar que é tão comum as relações de violência que os homens não têm cara, nem tipo: é o marido, é o motorista do ônibus, é o policial…

Como foi a preparação da atriz Lira Ribas para dar vida à protagonista? Há sequências que exigem uma intensidade extremamente elevada, como o plano-sequência no bar.

Vimos alguns filmes que foram referencia e conversamos bastante sobre eles. Levei ela para conhecer as cobradoras e o ponto final e fizemos alguns vídeos, ela já tentando compor a Viviana. Depois, analisamos os sentimentos de cada cena, cada situação e fizemos exercícios, ensaiamos e pegamos carona nos ônibus para ir conversando com a cobradora e com o motorista. Sempre dizia pra ela que eu precisava de uma atenção difusa da sua parte. Não trabalhamos com atores, e figuração apenas para encher o ônibus, então o que acontecesse no ponto final ela tinha que se manter como uma cobradora novata e nunca finalizar a cena esperando a câmera cortar. Ela se preparava como no teatro, escolhia a roupa, arrumava o cabelo e as vezes passava algo no rosto sempre pensando nos limites da Vivi. Eu propus isso como exercício para que ela sempre estivesse pensando na personagem, isso a deixaria ficar viva o tempo todo no set. O plano-sequência do bar foi o mais ensaiado. Mas eu acredito que a Lira é uma atriz muito especial, que tem domínio do corpo e do olhar, muito disciplinada e estava disposta aos desafios deste filme devido ao tema.

Estado Itinerante (2)

Ainda sobre o clímax, como chegou à música “Don’t Cry”, dos “Guns n’ Roses”, e o que ela representa para você? 

A Daniela, uma das cobradoras, assim como eu adora música, vive com o fone no ouvido e escuta músicas diversas. Então comecei a conversar muito com ela sobre música imaginando as duas cenas de buteco. Nessas conversas ela dizia sempre gostar muito do “Guns n’ Roses”. Eu já fui fanática pelo “Guns” e isso me deixava resistente. Quando fui ensaiar com a Lira e a Cristal, tentamos puxar a cena com várias músicas que eram comuns serem escolhidas em jukebox de butecos do hipercentro. Mas sempre lembramos da indicação da Dani e fomos ensaiando também com algumas do “Guns;’. A Lira chamou atenção para a letra de “Don’t Cry” e percebemos que as mudanças tonais e a intensidade da música potencializava os sentimentos que queríamos mais que todas as outras.

Como espectadora, como se sente em relação aos filmes lançados atualmente que pautam a violência contra a mulher? Assistiu ao controverso “Paulina”?

Ainda não assisti “Paulina”, mas irei. É muito importante a representação nos filmes como havia dito, mas como espectadora me preocupa a produção que só está ali porque o tema é favorável. Para essa produção vemos tanto no discurso como na linguagem a fórmula e isso não apura a discussão. Cito dois filmes que me marcaram: “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu, e “Dois Dias e Uma Noite”, dos irmãos Dardenne. A lista é grande, mas quis citá-los porque tive sempre embaixo do braço no processo do “Estado Itinerante” alguns títulos e, como cinema contemporâneo, estavam estes.

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