Skip to content

Os Cinco Filmes Prediletos de Wanderley Teixeira

Bem como aconteceu com muitos colegas que foram convidados para esta seção do Cine Resenhas, conheci o Wanderley Teixeira em uma reunião virtual entre pessoas de vários estados do país que escreviam sobre cinema, formando a partir dela a Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Quase 10 anos se passaram e amizades continuam se mantendo enquanto alguns fatores são rediscutidos, como as plataformas e o quanto a escrita sobre cinema tomou um espaço especial dentro de nossas vidas atribuladas.

No Wanderley, encontrei alguém não apenas com algumas predileções em comum, como também um amigo sempre ponderado e bem-humorado para trocar impressões. Amigo que finalmente pude conhecer pessoalmente recentemente e em grande estilo: numa sessão do CineSesc com cópia de 35mm de “French Cancan”, comédia musical de Jean Renoir que, curiosamente, tem como palco o Moulin Rouge, que vem a ser também o nome do filme com a nossa atriz favorita, Nicole Kidman.

Além do Chovendo Sapos, endereço que sustenta desde 2011, colabora ativamente para o Coisa de Cinéfilo, projeto que divide com duas amigas de Salvador, município em que vive. Com a vida acadêmica bem movimentada (é Graduado em Jornalismo e Direito e Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas), Wanderley reservou um tempo para comprovar a sua paixão por cinema a partir de comentários sobre os seus cinco filmes prediletos a partir de critérios que o próprio introduz a seguir:

.

Acredito que a concepção de listas para qualquer um guarda em si um grande prazer na escolha daquilo que fará parte da seleção, mas também o receio de cometer alguma injustiça ou, no caso, esquecimento. Convidado pelo Cine Resenhas para escolher os meus cinco filmes prediletos, resolvi adotar como critério a escolha de títulos que foram representantes importantes dos meus primeiros passos como cinéfilo. Assim, o que verá a seguir é uma lista composta por títulos majoritariamente dos anos de 1990 e início dos anos 2000, épocas em que tive contato com alguns dos filmes mais importantes e marcantes da minha vida, não só pela experiência cinematográfica que proporcionaram, mas também porque se alinharam como fases e momentos determinantes da minha jornada pessoal.

.

Magnólia (Magnolia)Magnólia, de Paul Thomas Anderson (Magnolia, 1999)

“Magnólia” é o melhor filme do cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson. Curiosamente, é aquele que acessa o espectador pela via mais simples: a do cotidiano e das relações humanas. Diretor que já se dedicou a retratar uma década no universo do cinema pornô (Boogie Nights) e a gana pelo petróleo na virada para o século XX (“Sangue Negro”), Anderson trabalha em “Magnólia” com as esgarçadas relações familiares de personagens comuns. Há uma evidente associação estabelecida pelo diretor entre a flor que dá título ao filme com os seus diversos núcleos de personagens representando pétalas unidas pela própria condição humana. Porém, o que confere poder a esse drama de Paul Thomas é a maneira com que o realizador dá forma épica ao que é da esfera íntima do indivíduo, como define José Francisco Montero, biógrafo do diretor. Assim, em “Magnólia”, Paul Thomas Anderson entende que o caráter épico da jornada humana não está nos grandes feitos, não são eles os responsáveis pelas transformações, mas sim os momentos que nos testam na esfera mais íntima.

.

As Horas, de Stephen Daldry (The Hours, 2002)As Horas, de Stephen Daldry (The Hours, 2002)

É difícil definir em poucas linhas sobre o que trata “As Horas”, adaptação do livro de Michael Cunningham tão bem realizada por Stephen Daldry. Há leituras do filme que dão conta de uma obra com preocupações sobre a questão da gradual emancipação feminina, outros levantam a importância do longa na dimensão que dá ao problema da depressão e suas consequências. Todas estas leituras de “As Horas” estão no longa e são válidas, mas, de uma maneira geral, sempre percebi o filme de Stephen Daldry como um estudo sobre a própria vida, sobre as escolhas que fazemos nela, o que queremos dela, o que temos dela em troca e como é difícil lidar com tudo isso, aceitar as ausências do happy end em razão de movimentos que realizamos em prol da própria felicidade. O filme nos dá a dimensão de como cada instante da vida é marcado por cumes de realização, melancolia e decisões que repercutem por toda uma trajetória. Isso é sintetizado na micro jornada de um dia na vida das suas protagonistas: a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman), que escreve o clássico Sra. Dalloway; a editora de livros Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que sempre fora comparada com a protagonista da obra; e, principalmente, Laura Brown (Julianne Moore), que lê o título e toma uma decisão que repercute severamente no destino de muita gente.

.

O Rei Leão (The Lion King)O Rei Leão, de Rob Minkoff e Roger Allers (The Lion King, 1994)

“A Bela e a Fera” foi o primeiro filme que assisti no cinema, mas, considerando todo o catálogo Disney dos anos 1990, “O Rei Leão” é o filme de uma geração – além do que, foi minha primeira VHS, gasta com o tempo de tanto que foi testada pelo videocassete. A jornada do leãozinho Simba é repleta de questões pontuais sobre o rito de passagem para a vida adulta. Desde a percepção infantil sobre o que é assumir um reino até a recusa de Simba a sucessão do pai quando adulto, “O Rei Leão” expõe aquilo que a vida mais requer de nós:  responsabilidade. E como é difícil encarar esse processo! Repleta de personagens que se transformaram em referência para uma geração com cenas, frases e canções repetidas até hoje em qualquer circunstância, a animação é o grande feito dos estúdios Disney e dá provas do seu caráter atemporal.

.

Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park)Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg (Jurassic Park, 1993)

Enquanto a geração que me antecedeu sonhava pilotar a Millennium Falcon e a dos anos 2000 queria passar uma temporada em Hogwarts, meus contemporâneos só pensavam em catalogar os fascículos da revista “Dinossauros!” da editora Globo (nunca consegui completar aquele tiranossauro rex!)  e até sonhavam em ser paleontólogos quando crescessem. Até hoje, lembro da sensação de assistir “Jurassic Park” nos cinemas em 1993 e testemunhar em cores e texturas a concepção das criaturas pré-históricas do parque dos dinossauros graças aos feitos tecnológicos bancados por Steven Spielberg e que hoje parecem comuns com a banalização do CGI nos blockbusters. Além de ser um colosso tecnológico que impressiona até hoje e parece muito mais eficiente que seus similares mais recentes, “Jurassic Park” traz Spielberg naquilo que sempre foi sua especialidade, o cinema escapista, e ainda proporciona reflexões pertinentes sobre a importância da ética no trato das descobertas científicas e tecnológicas.

.

Central do BrasilCentral do Brasil, de Walter Salles (idem, 1998)

A maturidade traz como risco nossa transformação em pessoas amargas, pragmáticas e pessimistas e é comum que tenhamos mais contato com narrativas que deem conta desse processo do que o inverso, que quando ocorre sempre surge coberto por um manto de artificialidade e pieguice. “Central do Brasil” é um filme que trata do processo de reconstrução da humanidade de Dora, personagem defendida por Fernanda Montenegro em interpretação marcante, a partir da sua relação com o menino Josué, de Vinícius de Oliveira. Walter Salles é um caso raro de realizador que consegue aliar domínio técnico e narrativo da linguagem com a construção de uma história com alma o suficiente para conquistar o coração do público sem “forçação de barra”. “Central do Brasil” é o exemplar máximo dessa qualidade do diretor e até hoje me provoca arrepio e conforto no coração assistir a despedida de Dora e Josué ao som da trilha sonora de Antonio Pinto e Jacques Morelenbaum.

.

2 Comments

  1. Bela lista, a do Wanderley! Particularmente, um dos meus filmes favoritos está nela: “As Horas”.

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers:

%d blogueiros gostam disto: