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Retrospectiva Walerian Borowczyk | INDIE 2016 Festival Cinema

.:: INDIE 2016 Festival Cinema ::.

Com curadoria de Daniel Bird, esta edição do INDIE, que aconteceu no CineSesc de 15 a 21 de setembro, teve como um de seus principais atrativos a retrospectiva destinada ao realizador polonês Walerian Borowczyk (pronuncia-se bo-rov-chic). Vivendo os últimos anos de sua vida em completo ostracismo, Borowczyk (que faleceu em 2006) é hoje um nome que volta a ter prestígio dentro de uma nova geração de cinéfilos que passam a conhecê-lo graças ao resgate de sua filmografia, tendo o próprio Daniel Bird como um dos principais incentivadores de seu estudo e restauro.

Os sete principais longas-metragens do realizador foram exibidos no festival, além de seis dos seus melhores curtas. É curioso acompanhar a partir de uma ordem cronológica o quanto Borowczyk se transformou, indo de uma carreira dedicada a animações e enveredando por um terreno onde o erotismo vem a se transformar na bússola de seus longas de ficção. Por isso mesmo, decidimos reservar um espaço para comentar brevemente sobre a retrospectiva, mesmo que há quase um mês desde o início do INDIE.

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Teatro do Senhor e Senhora Kabal (Théâtre de Monsieur & Madame Kabal, 1967)

Estreia de Walerian Borowczyk na direção de um longa-metragem, “Teatro do Senhor e Senhora Kabal” funciona como uma reunião de toda a sua experiência acumulada no ramo da animação ao mesmo tempo em que faz experimentos com outras técnicas. Há também o acréscimo de live action, geralmente de tomadas de caráter voyeurístico, que viria a ser uma constante em sua obra. O resultado vem a ser mais excêntrico do que propriamente divertido.

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Goto, Ilha do Amor (Goto, l’île d’amour, 1969)

Borowczyk mergulha aqui em um de seus momentos mais densos, sendo mais cuidadoso como nunca na construção de personagens ao mesmo tempo em que busca certa sordidez em alguns lampejos de imagens em cores que prenunciam a tragédia que marcará a busca de um ladrão (Pierre Brasseur) por ascensão social, bem como a tentativa de conquistar Glossia (Ligia Branice), esposa do ditador da ilha de Goto. O close up arrebatador em uma Glossia aos prantos na praia soa como um equivalente ao fim de “Os Incompreendidos”.

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Blanche (idem, 1972)

Repetindo os acertos de “Goto, Ilha do Amor”, “Blanche” é ainda mais incisivo no seu foco em amores tortos. Além da direção, Borowczyk também se debruça na adaptação do poema “Mazepa”, da autoria de Juliusz Slowacki. Talvez seja a ápice da colaboração do polonês com a sua esposa Ligia Branice, que vive a personagem-título, casada com o Barão (Michel Simon) e mulher do interesse tanto do Rei (Georges Wilson) quando de seu jovem serviçal (Jacques Perrin). Provavelmente, o melhor filme Borowczyk, com uma segunda metade conduzida com maestria.

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Contos Imorais (Contes immoraux, 1974)

Uma nova mutação no cinema de Borowczyk se concretiza em “Contos Imorais”, produzido somente dois anos após “Blanche”. Com o explícito tomando grandes proporções em todo o mundo, os anos 1970 se mostraram difíceis para aqueles que buscavam uma linha divisória entre o pornográfico e o erótico. Quatro pequenas histórias compõem o longa, independentes entre si e por vezes resgatando casos notórios, como o da condessa húngara Elizabeth Báthory, conhecida por sacrificar centenas de virgens para se banhar com o sangue delas, procedimento que sustentava para rejuvenescer. Não é para todos os gostos, mas não há dúvidas de que o diretor capta com esplendor a anatomia feminina e os seus prazeres mais íntimos.

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A Besta (La bête, 1975)

Eleito por unanimidade como o seu filme mais popular, “A Besta” é também uma perfeita síntese das reações múltiplas que o seu cinema provoca em qualquer nicho de público. Trata-se de uma sátira, com a sofisticação da recriação de uma época camuflando os desejos reprimidos das personagens. Até o mais hardcore dos espectadores não deve encarar com um mesmo semblante as escatológicas cenas do terceiro ato, de uma criatura semelhante a um lobisomem correndo atrás de uma jovem em uma floresta com o seu membro de 60 centímetros ereto e ejaculando. Pena que tudo soe mais como uma bobagem de mau gosto do que propriamente como uma ataque aos bons costumes.

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História do Pecado (Dzieje grzechu, 1975)

Mesmo representando a única vez na carreira de Walerian Borowczyk em que ele competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, “História do Pecado” é fácil um de seus piores filmes. Coincidentemente, veio no período mais produtivo de sua carreira, com os seus seguidores começando a abandoná-lo pela adoção de um conteúdo erótico mais explícito visto em “Contos Imorais” e “A Besta”. A novata Grazyna Dlugolecka não convence no papel central, servido como uma mera marionete de um roteiro perdido ao dar conta dos diversos dilemas amorosos e religiosos que a cercam. Uma série de escolhas inadequadas, como a câmera na mão e o encaixe de composições de Mendelssohn em circunstâncias trágicas, só pioram a situação.

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O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Senhorita Osbourne (Docteur Jekyll et les femmes, 1981)

Do mesmo modo em que ainda se fantasia sobre o que teria acontecido na noite em que Mary Shelley e John Polidori conceberam os clássicos da literatura “Frankenstein” e “O Vampiro” na mansão de Lord Byron, muitos se perguntam como seria “O Estranho Caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde” caso o seu criador, Robert Louis Stevenson, tivesse seguido as suas intenções originais para lá de profanas. É dentro dessa versão destruída que se se forma “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Senhorita Osbourne”, com uma voltagem surreal e sexual ainda mais forte. Pena que somente o ato final corresponda às expectativas, momento no qual os destinos de Dr. Henry Jekyll (Udo Kier) e Miss Fanny Osbourne (Marina Pierro) finalmente são selados pelo macabro.

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