Resenha Crítica | Animais Noturnos (2016)

Nocturnal Animals, de Tom Ford

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Um dos maiores estilitas do mundo e salvador da Gucci, Tom Ford esteve envolto a questionamentos alheios quanto a sua decisão de transferir o seu lado artístico expresso no universo da alta-costura para o cinema. Toda a sofisticação e a atenção preciosa aos detalhes que o notabilizaram como uma marca fashion foram impressas em seu debutDireito de Amar“, mas a surpresa que poucos esperavam foi o toque sentimental trazido para a sua adaptação do romance “Um Homem Só”, de Christopher Isherwood.

Sete anos depois, Tom Ford volta com um novo filme, que vem a ser também uma tentativa de enriquecer um material original que não é lá tão formidável. No caso de “Animais Noturnos”, houve como base o último romance do também professor e crítico literário Austin Wright, “Tony & Susan”, publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Entretanto, o êxito anterior está longe de se repetir aqui.

Excelente atriz que geralmente vive papéis que não têm a vaidade como  um item prioritário, Amy Adams não está em um grande momento como Susan Morrow, personagem que seguiu uma carreira artística sem necessariamente estar satisfeita com o que produz. Trata-se de uma pessoa que tem tudo ao seu redor, mas que julga que fracassou na vida.

Esse sentimento começa a se justificar quando recebe o manuscrito para avaliação de “Animais Noturnos”, o último romance escrito pelo seu ex-marido Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Enquanto Susan faz a leitura, a obra literária recebe uma linha narrativa para si mesma. Em sua trama, Tony Hastings (também vivido por Jake Gyllenhaal) está viajando com a sua esposa Laura (Isla Fisher) e a filha India (Ellie Bamber). sendo perseguidos por um trio de marginais com péssimas intenções.

Ainda que “Animais Noturnos” não contenha nenhum traço autobiográfico e o seu tom de thriller em nada compete com a história de Susan com Edward, nota-se que alguma coisa em sua brutalidade seja um reflexo de um rompimento que talvez não tenha sido dos mais harmoniosos. Para compreendê-lo, flashbacks são alternados com o presente de Susan e o presente ficcional de Tony.

O maior atrativo de “Tony & Susan” foi o recurso de Austin Wright em fazer um livro dentro do livro. Não se trata de uma inovação, mas funciona por trazer uma personagem íntima das intenções de seu autor geralmente reagindo do mesmo modo que o leitor a partir das resoluções brutais e de certa passividade de Tony diante da violência. Como “filme dentro do livro”, esse diferencial não se encaixa adequadamente. Ao contrário, soa por vezes patético.

Na literatura, é mais do que obrigatório trazer ao leitor diante de um impacto ou surpresa um respiro em forma de um novo capítulo, um subterfúgio que nos faz repensar a decisão de seguir ou interromper com a leitura. O modo como Tom Ford tenta traduzir isso no campo audiovisual é risível, chegando ao cúmulo de fazer com que Susan seja forçada a pausar a sua apreciação no instante em que mais se exige a sua atenção – há até mesmo um pássaro batendo aleatoriamente contra a porta de vidro de sua luxosa residência para causar essa quebra.

Ainda assim, o mais grave de tudo é como as duas histórias de “Animais Noturnos” se anulam ao invés de se completarem. Há uma predileção por uma beleza macabra como tentativa de radiografar os protagonistas, intenção já explicitada em um prólogo de idosas obesas e nuas com adereços de integrantes de bandas marciais. Uma escolha com preocupações estéticas que sufoca justamente os fragmentos de uma realidade amarga em sincronização com a monstruosidade da ficção. Um exemplar com a rara capacidade de decepcionar não somente uma, mas duas vezes.

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

8 Comentários em Resenha Crítica | Animais Noturnos (2016)

  1. Eu gosto muito de “Direito de Amar” e depois da sua critica fiquei na dúvida se realmente Amy Adams será nomeada ao Oscar(vencer está bem dificil com Emma Stone e Natalie Portman no páreo)

  2. Talvez a forte inclinação à beleza “fria” tenha a ver com o fato de o diretor Tom Ford ser um esteta/estilista, um artista que goste de assinar também, fora a direção, o plano do que é pura e belamente belo, não deixa de ser uma assinatura de griffe, de um estilista. Acho eu. Notei isso em “A single man” (Direito de Amar) e não achei ruim – não incomodou em nada a apreciação e contemplação do filme.

    • Tatiana, de fato essa interpretação da estética como um elemento narrativo parece pulsar as veias de Tom Ford. No entanto, enquanto em “Direito de Amar” isso é muito bem compreendido nas mudanças das cores e suas tonalidades naquele que deve ser o último dia da vida do personagem do Colin Firth, aqui a cosia se perde entre o sedutor e o macabro. Obrigado pela visita e comentário.

  3. Estou profundamente irritado com o final do filme, por que não a o reencontro deles naquele restaurante, o que tem por trás desta cena?

    • Vitor, porque o “bolo”, somado ao livro, foi uma espécie de vingança do Edward contra a Susan, pois ele não superou a separação e tudo o que transcorreu depois entre os dois.

      • Entendo o ‘bolo’ muito mais como a forma que Edward encontrou de mostrar à ex-esposa que, ao contrário dela, sua vida não é mais vazia e ele foi capaz de fazer o que ela nunca acreditou que o mesmo seria capaz. A solidão reflete todas escolhas erradas de Susan, baseadas no que ela mais temia (se tornar espelho da própria mãe). É a vitória de Edward sobre Susan

        • Daniela, não estou muito certo sobre essa “plenitude” que Edward obteve em vida. Penso que se ele também não tivesse enclausurado em um vazio existencial, não perderia tempo propondo uma espécie de vingança com a feitura do livro. Enquanto Susan é uma pessoa que se remodelou a um perfil que outrora desprezava, Edward prossegue em um rumo cheio de ressentimentos.

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