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Resenha Crítica | 24 Semanas (2016)

24 Wochen, de Anne Zohra Berrached

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Às vezes, um filme tem o poder de ir além do mero entretenimento ao obrigar o espectador a se enxergar desconfortável no cinema, convertendo a sua poltrona em um assento de poder para deliberar sobre a postura de um personagem. Pois quem encarar a sessão de “24 Horas” inevitavelmente estará sujeito a essa posição nada confortável.

Comediante especializada em stand up, Astrid (a excelente Julia Jentsch, de “Edukators”) está em uma fase perfeita de sua vida. Com Markus (Bjarne Mädel), seu agente e namorado, ela sustenta um relacionamento que já dura oito anos, refletindo em uma agenda lotada de apresentações e a gestação de um segundo filho.

Com aproximadamente quatro meses de gravidez, Astrid vai a uma consulta de rotina com um resultado que a desnorteia: o seu filho nascerá com a síndrome de Down. A mesma descontração usada nos palcos é usada por ela ao anunciar aos familiares a condição do mais novo membro, gerando todos os questionamentos aguardados, como a capacidade do casal em cuidar de uma criança que irá cobrar o dobro de atenção para o resto da vida.

Até esta etapa, tudo indica que a diretora e roteirista Anne Zohra Berrached seguirá o típico cinema de cartilha, mediando o espectador quanto a rotina de pais e clínicas que convivem com pessoas com Down, incluindo uma observação sobre os seus modos de comportamento e raciocínio. No entanto, há muito mais em jogo em sua ficção: com a evolução do feto, os médicos de Astrid identificam que o bebê precisará ser submetido a uma cirurgia devido a uma malformação cardíaca. E mesmo bem-sucedida, isso não impedirá a necessidade de procedimentos futuros.

Naturalmente bem humorada, Astrid passa a ser corrompida por sentimentos conflituosos que a fazem estudar a possibilidade de um aborto, conferindo ao filme uma nova natureza em que as questões que formulamos são ainda mais delicadas e cruéis. Na decisão em descontinuar ou não uma vida que se forma, mergulhamos fundo na intimidade do casal e nos sensibilizando implacavelmente com um drama que ninguém é capaz de se imaginar. Um tema espinhoso finalmente ganhando vida em um filme que não recorre ao didatismo para nos fazer refletir e debater sobre ele.

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