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Resenha Crítica | Glory (2016)

Slava, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Um dos melhores filmes do ano passado, “A Lição” expôs de modo nu e cru a realidade de muitos desafortunados em um mundo globalizado marcado por distinções sociais a partir de uma mulher que, prejudicada pelas circunstâncias, precisa encontrar saídas urgentes para aplacar a falta de dinheiro. Dois anos depois, a mesma dupla de diretores, Kristina Grozeva e Petar Valchanov, volta com um registro com a mesma preocupação em “Glory”, desta vez lidando com duas faces totalmente distintas de uma mesma moeda.

No ponto de partida da história, o trabalhador ferroviário Tsanko Petrov (Stefan Denolyubov) encontra inúmeras cédulas de dinheiro abandonadas no trilho em que está fazendo uma inspeção. Humilde e ocupando o cargo mais baixo da hierarquia, Tsanko ainda assim realiza a devolução do dinheiro recolhido. Ao ser recompensado por seu gesto em uma cerimônia, faz, na confusão de sua gagueira, um discurso revelador comprometendo os chefões do sistema ferroviário, que estariam lucrando com o desvio de combustível.

Na outra vertente, temos Julia Staikova (Margita Gosheva), relações públicas da empresa de transporte que faz de tudo para abafar o escândalo, chegando até mesmo a negligenciar os exames que está se submetendo para uma tentativa de gravidez. É ela quem também toma o relógio de pulso que Tsanko tanto preservou com a dedicatória de sua mãe, sendo substituído por um outro barato ao qual recebeu como presente simbólico pela entrega às autoridades da pequena fortuna que encontrou.

O relógio de Tsanko, por sinal, acaba funcionando como um McGuffin em “Glory”, representando o seu caráter incorruptível diante das armadilhas que Julia passa a armar em busca de uma retratação. Porém, muito mais do que as desavenças de reaver o objeto ou de extrair um depoimento mentiroso para limpar a imagem de uma organização corrupta, “Glory” também visualiza os dois protagonistas como marionetes de um sistema movido por capital e a descaracterização de indivíduos.

Margita Gosheva preserva as virtudes do trabalho anterior com Kristina Grozeva e Petar Valchano, agora retomando a parceria no papel de uma mulher que despreza a princípio qualquer empatia, mas que jamais recai à mera vilania. Ainda assim, a atriz cede mais espaço para Stefan Denolyubov brilhar, aqui como um homem que passa a comer o pão que o diabo amassou incapaz de dialogar com clareza para a sua própria defesa. Duas figuras opostas que irão acertar as contas em uma conclusão desconcertante, mesmo que o todo não iguale a potência do bárbaro “A Lição”.

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